No dia 04/01/2014 enviei, à sede da Multilaser em São Paulo, meu Tablet Multilaser defeituoso. A manutenção, conforme garantia dessa própria empresa, e descrita no site http://www.multilaser.com.br, seria feita em no máximo um mês. Em caso de impossibilidade de conserto, diz o site, enviariam um produto novo para o cliente. No entanto, passados 35 dias, nenhuma resposta foi obtida. E pasmem: havia apenas dois meses de uso e o dito aparelho parou de funcionar!
Quando rastreio o objeto na área de suporte do site da Multilaser, aparece a seguinte mensagem:
Solicitado em: 04/01/2014 10:51:14 Produto: Tablet PC Diamond 7 Protocolo: 518202349167 Cod. Postagem : 429976994 N. objeto envio: ? Status: Esperando o envio do produto para os correios. N. Objeto Retorno: ?
O produto de péssima qualidade reflete a filosofia da empresa. Depois querem que valorizemos o produto nacional em detrimento do importado. Até quando seremos reféns da falta de ética e de compromisso?
Às vezes, ao assistir um espetáculo, fica uma dúvida: o trabalho que é frágil ou o lugar onde é apresentado que não oferece as condições necessárias para a sua realização?
“Tango Nuestro Baile”, espetáculo de dança dirigido pelo bailarino argentino Navir Salas Morales, que está sendo apresentado na 40ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança de Belo Horizonte, tem todos os ingredientes de um bom trabalho. Contudo, o “Teatro” do Colégio Arnaldo não oferece condições para que isso aconteça. Isso porque não é um teatro, mas sim um auditório que tem péssima acústica e equipamentos obsoletos. Resguardada a boa vontade dos técnicos da casa, a escolha desse espaço pelos coordenadores da Campanha não foi muito feliz.
Começando pela plateia: as primeiras fileiras tem inclinação ao contrário. Isso quer dizer que os espectadores da frente estão num plano mais elevado do que os de trás. Para pessoas mais baixinhas, esse não é o meu caso, resta a possibilidade de assistir a belos bailarinos dos joelhos para cima. Tal fato para um espetáculo de tango é um pecado, pois os movimentos dos pés são imprescindíveis para a estética de tão charmosa dança.
Em relação ao equipamento de luz, para ser bem iluminado, “Tango Nuestro Baile” precisaria de no mínimo 80 refletores de qualidade, uma mesa de última geração e um técnico que saiba utilizá-la. Pergunto-me se no auditório referido tem vinte refletores. Uma luz chapada, principalmente vermelha e amarela, além de borrar os vistosos figurinos, empobrece o visual do espetáculo. São várias as transições de coreografias e de cenas propostas pela direção. Cada uma delas merece uma transição de luz tão bonita e impactante quanto às atmosferas e climas buscados. Os bailarinos e bailarinas se esforçam em suas incríveis interpretações, são charmosos (as), elegantes e muito bonitos (as). Porém, uma luz inadequada é como uma excelente maquiagem borrada após lágrimas de tristeza. Além de comprometer a visibilidade e sujar os figurinos, a iluminação não valoriza o cenário, impossibilitando a criação de perspectivas em um painel de tecido também chapado.
O equipamento de som é um verdadeiro horror. Pobre do jovem cantor que tem voz linda, bem articulada, espanhol fluente e notas bem colocadas. As caixas de som, o microfone e o leitor de CD dificultam em muito a missão desse jovem e promissor artista. A acústica do espaço também não ajuda muito. Aliás, pergunto-me se havia apenas um técnico para operar a luz e o som, pois a sonoplastia e a iluminação quase não se encontravam. Quando não era o “black out” que durava uma eternidade, provocando risos na plateia, eram as longas pausas na trilha que condenavam os bailarinos a congelaram-se ad infinutum em suas posições de partida, constrangendo-os. Stops e starts nas músicas em momentos incorretos comprometeram o tempo-ritmo das coreografias. Mas, não podemos crucificar o padre quando é a hóstia que está vencida.
Um parêntese e mais um ponto importante: cabe ao diretor dar acabamento a um espetáculo. É o que chamamos de limpeza e afinação. É muito difícil fazer isso de dentro da cena. No caso específico da dança, quando o diretor também é bailarino. Limpeza da cena: braços, mãos e pés que sobram nos bastidores, por exemplo. Afinação: de luz, de som, de cenário, de figurino, enfim, de todos os elementos visuais e acústicos de uma encenação. Para uma canção executada ao vivo é fundamental que microfone, mesa e caixas de som estejam equalizadas.
Por fim, um local adequado é essencial para o sucesso de um trabalho. Essa máxima não se aplica ao auditório do Colégio Arnaldo, mesmo sendo um bem tombado como patrimônio municipal. Cabe à organização do evento dar condições iguais a todos os espetáculos de dança e de teatro da grade de programação da Campanha, para que possam ser bem apresentados ao público que vão às casas teatrais e espaços culturais belorizontinos, valorizando assim o nosso teatro e nossa dança, bem como os nossos artistas que já são tão maltratados financeiramente. E cabe à produção de um grupo não aceitar tão más condições.
Resumo: Neste artigo, analiso as representações culturais presentes no texto e nos personagens de Um Baú de Fundo Fundo, espetáculo criado em 1974 pelo Giramundo Teatro de Bonecos, de Belo Horizonte. Para tanto, observo os conceitos de cultura, mais especificamente culturas no plural, e de representação.
Palavras-chave: ditadura militar; lendas e capiais.
Um palhaço chamado Libório chega para fazer uma apresentação em Pedra Furada, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. No entanto, ele é proibido pelo DelegadoGodofredo de se apresentar, pois, nesta cidadezinha, não se podia cantar, não se podia ler poesia, não se podia fazer coisa nenhuma. Além de delegar, Godofredo também acumulava os principais cargos públicos da cidade, criando uma ditadura que impedia a liberdade de expressão e coibia o direito de ir e vir da população. Onde se ia, o Guarda, braço direito de Godofredo, estava a postos para fazer cumprir o regulamento. Todos os lugares eram vigiados, dia e noite. Mas, no fundo de um baú de fundo fundo, uma espécie de caixa de surpresas e de magia, trazida pelo palhaço Libório, encontravam-se as ideias e manifestações artístico-culturais que, enfim, abririam a cabeça do ditador “pedrafuradense”. Esta é a história que nos conta Álvaro Apocalypse (1937-2003) e Madu (Maria do Carmo Vivacqua Martins), do Giramundo Teatro de Bonecos, de Belo Horizonte,com a peça Um Baú de Fundo Fundo (1975).
Quando Madu, Álvaro e Tereza Apocalypse (1936-2003) voltaram da França — onde apresentaram As Aventuras do Reino Negro no I Festival Mondial des Théâtres de Marionnettes de Charleville-Mézières (1972) —, resolveram mergulhar pela primeira vez na temática das culturas mineiras. Assim, montaram o espetáculo Saci-Pererê, em1973.Todavia, foi em 1974 e 1975, durante a montagem de Um Baú de Fundo Fundo (ou Baú, como é carinhosamente chamado), que eles realmente aprofundaram a temática.
O Baú foi a quarta montagem do Giramundo, estreando no dia 05 de junho de 1975, no Teatro Marília de Belo Horizonte. Como novidade, primeiramente, um horário de estreia incomum para apresentações de teatro de bonecos, pelo menos naquela época: às 21 horas. Isso denotou, antes mesmo do El Retablo de Maese Pedro (1976), o interesse do grupo em montar espetáculos teatrais também para o público adulto.
Para Álvaro Apocalypse, autor do texto junto com Madu, e diretor da montagem,
O Baú foi um acontecimento na história do Giramundo. (…) No Baú de Fundo Fundo, aproveitamos principalmente as canções do grupo de serestas João Chaves, de Montes Claros, e um texto retirado dos livros do escritor Saulo Martins. Tem uma velhinha muito interessante, avançadíssima, que discutia muito. De repente ela parava a peça, e falava assim: ‘Receita! Pegue meio quilo de farinha… bata bem…’ e dava a receita de um bolo sem quê nem pra quê. (….)” (APOCALYPSE, A[1]. Depoimento sobre o espetáculo. Fonte: <http://www.giramundo.org/teatro/ bau.htm>. Acesso em 18 mar. de 2010).
Essa receita dada pela vovó, que na realidade é de um peixe e não de um bolo como afirma Apocalypse, alude às receitas de bolo que eram publicadas, no período da ditadura brasileira, em alguns jornais, como, por exemplo, o Estadode São Paulo, para dar ciência ao leitor de que a matéria que deveria estar naquele espaço havia sido censurada.
Por fim, se comparadas com Cobra Norato (1979) — a obra mais importante e renomada do grupo mineiro —,são poucas as informações sobre o Um Baú de Fundo Fundo, espetáculo mais modesto, porém, mineiramente gostoso, divertido e inteligente. Entretanto, encontrei algumas preciosidades nos fundos dos baús do Museu Giramundo, somadas às entrevistas realizadas em Belo Horizonte e em Lagoa Santa, Minas Gerais, e a certas notícias de jornal,que me auxiliaram a contar essa breve história.
UM BAÚ PODE ESCONDER MUITOS SEGREDOS: O CONCEITO DE REPRESENTAÇÃO EM RELEVO
VELHA: (…) Moço! Quer fazer o favor de me dizer o que é que tem dentro deste baú?
LIBÓRIO: Han? Ah… tem muitas coisas…
VELHA: Que coisa? Conta!
LIBÓRIO: Tem música, tem dança, cantigas, estórias… (…) O segredo do baú é que ele não tem fim… quase ninguém sabe, mas ele não tem fim. É como a nossa cabeça, onde podemos guardar na lembrança os dias, as coisas e as pessoas que nos fazem felizes. (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p.11 e 21.).
Esse baú pode ser uma caixa de música, de sonho, de imaginação… Ou uma caixa de brinquedos que guarda as principais recordações da nossa infância. Como um berço, ele aquece, embala e nina os bonecos pequeninos que confundem realidade e ficção, passado e presente. O Baú do Giramundo não tem fundo e nele cabe tudo o que quisermos e o que imaginarmos. Enfim, “tirar (…) do baú as lembranças encantadas, histórias, lendas, cantigas que a cidade grande faz esquecer é a proposta de Libório, o boneco que comanda o espetáculo Um Baú de Fundo Fundo”. (O ESTADO de Minas, 11 de jun. de 1975, p. 04).
Contudo, fazer ver os índices, os sinais e as representações que se encontram entranhados nesse espetáculo é um desejo meu, artista-pesquisador-brincante que joga com as palavras e com as ideias. Por isso, trago à tona o conceito de representação, termo que Pesavento (2004) disse configurar uma mudança epistemológica para a História e reorientar a postura do historiador.
Primeiramente, vejamos o que Chartier (2002, p.20), importante historiador cultural francês, relata sobre esse termo:
(…) As definições antigas do termo (…) manifestam a tensão entre duas famílias de sentidos: por um lado, a representação dando a ver uma coisa ausente, o que se supõe uma distinção radical entre aquilo que representa e aquilo que é representado; por outro, a representação como exibição de uma presença, como apresentação pública de algo ou alguém. No primeiro sentido, a representação é instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente através da sua substituição por uma “imagem” capaz de o reconstituir em memória e de o figurar tal como ele é. (…).
A este primeiro sentido ― “aquilo que representa e aquilo que é representado”―, pode-se acrescentar alguns exemplos, como a fotografia de um boneco/personagem do Giramundo e o próprio boneco/personagem de madeira construído pelo grupo. A imagem fotográfica de um boneco não é, em si, o boneco, mas está no lugar dele, representando-o. Já, pensando em termos de representação teatral, o boneco/personagem (o Delegado Godofredo, do Baú,por exemplo), mesmo não sendo a figuração da realidade, contém uma parte simbólica desta realidade. Assim, essa figuração pode ser apreendida como a representação contextual de uma época ― a ditadura brasileira ― e, do mesmo modo, como uma ideia daqueles sujeitos opressores, ferramentas sistemáticas do período ditatorial no Brasil.
Continuando com o conceito de Chartier (2002, p. 20-21), ele diz também que algumas imagens podem ser pensadas num registro diferente:
(…) o da relação simbólica que, para Furetière, consiste na “representação de um pouco de moral através das imagens ou das propriedades das coisas naturais (…) O leão é o símbolo do poder; a esfera, o da inconstância; o pelicano, o do amor paternal”.
Transpondo essa relação simbólica para o universo representacional artístico e “irreal” dos bonecos do Giramundo, e contrapondo com o simbolismo do Delegado Godofredo, podemos dizer que o palhaço Libório, no espetáculo Baú,é o portador do discurso da liberdade, ainda mais por possuir em sua cabeça, morando em seu chapéu, um passarinho que vive e canta livremente.
Para finalizar esta abordagem de Chartier (2002, p. 17), importa mencionar a função das representações enquanto “lutas de representações [que] têm tanta importância como as lutas econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio”.
Ainda sobre a categoria representação, pode-se dizer, num sentido mais abrangente, que o homem produz representações para conferir sentido ao real. Ou melhor, indivíduos e grupos dão sentido ao mundo por meio de representações que constroem sobre a realidade. E essas representações, de acordo com Pesavento (2004, p. 39-43), podem ser
expressas por normas, instituições, discursos, imagens e ritos (…). Representar é, pois, fundamentalmente, estar no lugar de, é presentificação de um ausente; é um apresentar de novo, que dá a ver uma ausência. A ideia central é, pois, a da substituição, que recoloca uma ausência e torna sensível uma presença. (…) A representação não é cópia do real, sua imagem perfeita, espécie de reflexo, mas uma construção feita a partir dele. [Por fim], a construção do sentido [das representações] é ampla, uma vez que se expressa por palavras/discursos/sons, por imagens, coisas, materialidades e por práticas [culturais, artísticas, etc.]”.
Todavia, as representações não pressupõem verdades absolutas, mas se enquadram num estatuto de verossimilhança e credibilidade, ou seja, são baseadas no real ou até mesmo num real imaginado. Por isso tornam-se críveis. E, por assim dizer, são carregadas de parcelas de verdades, muitas vezes ocultas.
Consequentemente, desde a antiguidade, o homem, cada qual em seu tempo, vem produzindo representações (imagens, estatuárias, pinturas, máscaras, objetos, bonecos, músicas, danças, teatros, discursos, personagens, textos, fotografias, vídeos, etc.) para expressar a si próprio, as suas crenças, os seus sonhos e o mundo ao qual pertence. Assim, a representação é feita do homem para o homem. Nela está contida uma ideia de homem e uma noção que temos de nós mesmos, da natureza e da vida. Logo, ao representarmos imageticamente alguma coisa, estamos fazendo isso para os indivíduos que se assemelham a nós.
1.1 REPRESENTAÇÕES CULTURAIS EM UM BAÚ DE FUNDO FUNDO: MINEIROS, SUASMINEIRICES E MINEIRIDADES
Antes de discutir as representações culturais em UmBaú de Fundo Fundo, trago a categoria conceitual culturas. Contudo, não farei uma divisão do conceito em camadas, porque, de acordo com Chartier (2002), é preciso rever os usos clássicos da noção de cultura popular. Segundo ele, essa ideia não mais parece resistir a três dúvidas fundamentais:
Antes de mais nada, deixou de ser sustentável pretender estabelecer correspondências estritas entre [dicotomias] culturais e hierarquias sociais, relacionamentos simples entre objetos ou formas culturais particulares e grupos sociais específicos. Pelo contrário, o que é necessário reconhecer são as circulações fluidas, as práticas partilhadas que atravessam os horizontes sociais. (…) Por outro lado, também não parece ser possível identificar a absoluta diferença e a radical especificidade da cultura popular a partir de textos, de crenças, de códigos que lhe seriam próprios. Todos os materiais portadores das práticas e dos pensamentos da maioria são sempre mistos, combinando formas e motivos, invenção e tradições, cultura letrada e base folclórica. Por fim, a oposição macroscópica entre popular e letrado perdeu a sua pertinência. (CHARTIER, 2002, p. 134).
De outro modo, o que esse historiador parece dizer é que o conceito de cultura, ainda no século XXI, continua sendo dividido verticalmente e relacionado sobremaneira às classes sociais e organizações de grupo. Assim, tem-se: cultura erudita (da elite, principalmente financeira e intelectual), cultura popular (do povo “letrado”), folclore (do povo “iletrado”) e por fim, cultura tradicional (dos indígenas, dos ciganos, dos agricultores e pescadores, etc.). Como as culturas são móveis, atravessam fronteiras, estão dadas também nas diferenças, misturam-se, chocam-se, antagonizam-se, superpõem-se ― “em ritmos que às vezes são lentos e outras vezes são velozes, de maneira harmoniosa e/ou conflituosa, dependendo de épocas e de regiões, dos protagonistas e de seus objetivos” (PAIVA, 2001, p. 32) ―, não podemos mais lidar com essas divisões arcaizantes.
Igualmente para Canclini (2008, p. 19),essa oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo (no sentido de cultura e de meios de comunicação), não funciona. Para ele,
É necessário demolir essa divisão em três pavimentos, essa concepção em camadas do mundo da cultura, e averiguar se sua hibridação pode ser lida com as ferramentas das disciplinas que os estudam separadamente: a história da arte e a literatura que se ocupam do “culto”; o folclore e a antropologia, consagrados ao popular; os trabalhos sobre comunicação, especializados na cultura massiva. Precisamos de ciências sociais nômades, capazes de circular pelas escadas que ligam esses pavimentos. Ou melhor: que redesenhem esses planos e comuniquem os níveis horizontalmente. (Grifos do autor).
Desta feita, o termo folclore só será utilizado neste artigo no sentido empregado pelo folclorista Luis da Câmara Cascudo e pelos fundadores do Giramundo: Álvaro Apocalypse e Madu. Ademais, utilizarei a expressão “popular” no sentido de “do, ou próprio do povo, ou feito por ele” (Ferreira, 2008, p. 642). Sendo que, ainda em acordo com Ferreira, entendo por povo o conjunto de indivíduos que, geralmente, falam a mesma língua, estão situados num mesmo território, têm hábitos e costumes parecidos, além de possuírem uma história e práticas comuns.
Mas, afinal, qual seria o conceito de culturas?
Primeiramente, parto do princípio de que as culturas estão vivas, em constantes movimentos, e que continuamente inventam novas expressões e linguagens. Por esse motivo, creio que o conceito sofreu transformações ao longo dos anos — desde o final do século XIX, por antropólogos, historiadores culturais, sociólogos, filósofos, literatos, artistas etc. — e tornou-se polêmico, amplo, difícil e impreciso. Conforme Burity (2002), os pesquisadores ligados aos estudos culturais iniciaram um diálogo com antropólogos e sociólogos, no sentido de construir uma nova ideia de cultura. Destarte,
(…) boa parte deles chama atenção para os perigos da utilização do termo cultura no singular, enfatizando a impossibilidade de unir de forma harmônica e generalizante as manifestações culturais das várias esferas da sociedade. Cultura deveria, portanto, ser um termo empregado no plural, já que não se constitui num complexo unificado coerente, mas sim, num conjunto de “significados, atitudes e valores partilhados e as formas simbólicas (apresentações, objetos artesanais) em que eles são expressos ou encarnados”, que são construídos socialmente, variando, portanto, de grupo para grupo e de uma época a outra. (BURITY, 2002, p. 15).
Desse modo, pelo menos no meu discurso, não mais se notará a utilização da palavra cultura, mas sim, culturas.
Pelo que parece, a palavra foi cunhada em uma sociedade basicamente agrícola e origina-se de colere: cultivar, habitar, criar e preservar. Na sociedade romana, o termo associava-se ao cuidado da terra, referindo-se ao trato do homem com a natureza.
Para o historiador Antônio Rodrigues, a ideia de cultura pode ser apreendida “como resultado das simbolizações que os homens fazem, em tempos e espaços particulares, de suas experiências de viver e que atribuem, nesse movimento, sentidos e significados às coisas que estão no mundo” (In: PAIVA & MOREIRA, 1996, p. 59).
Por fim, parafraseando o poeta e filósofo britânico Eliot (2005) — mas tentando não ser tão tradicional, eurocentrista e elitista como ele — o termo culturas incluiria as atividades, interesses e manifestações (espirituais, intelectuais, políticas, sociais, etc.) características de um povo. Exemplos: as linguagens e expressões linguísticas; as crenças religiosas; as festas com ou sem animais (como as cavalgadas, vaquejadas, folguedos, etc.); as lendárias e mitologias (Mãe d’água, Mulher de Algodão, Cobra Norato, Saci-pererê, etc.); as arquiteturas das cidades (como o barroco do século XVI e as casas coloniais mineiras); os festivais e manifestações artísticas (teatros, danças, literaturas, circos, músicas, pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, cinemas, vídeos, artesanatos, etc.); os campeonatos esportivos; as datas comemorativas (cívicas, históricas, sociais, etc.); os pratos típicos e os pratos cotidianos (feijoada, feijão tropeiro, tutu à mineira, arroz carreteiro, frango com quiabo, arroz com pequi, pato ao tucupi, buchada de bode, peixe amanteigado ao forno da vovó, etc.), os jogos de baralhos no boteco ou nas praças das cidades; as brincadeiras e jogos infantis; os provérbios e as adivinhações; e daí por diante.
Dadas essas questões acerca do termo culturas, retomo agora a discussão sobre algumas representações das culturas mineiras em Um Baú de Fundo Fundo. Aliás, essas representações serão chamadas também de mineirices e mineiridades. Sobre a mineirice, “Jânio Quadros, no seu ‘Novo Dicionário Prático da Língua Portuguesa’ de 1977 (…), coloca que ‘ser um bom mineiro’ é se mostrar prudente, desconfiado, astuto, mas aparentemente ingênuo”.[2] Já a mineiridade, pressupõe “a maneira especial de pensar, sentir e agir da população das ‘Alterosas’”[3] (MEGALE, 2003, p. 152).
Começo então pelo texto do espetáculo.
1.1.1 Texto, censuras e cesuras: na superfície, na “alma” e no fundo do Baú
Para a elaboração desse texto, que tem várias versões disponíveis no Museu Giramundo, Madu disse que ela e Álvaro partiram das pesquisas que fizeram acerca das culturas mineiras e brasileiras:
Nós conhecíamos um folclorista, que nos deu vários livros e histórias que ele recolhia. Então nos baseamos nisso. Porque você tem que buscar as histórias que existem no imaginário, né? Mas alguém tem que escrevê-las. Aí usamos as linguagens da Iara (…). Começamos a procurar alguns desses esquetes e fizemos, por exemplo, o Pescador do São Francisco. Procurávamos por situações brasileiras e por algumas coisas do imaginário popular. (MARTINS, 2009, entrevista).
Diferentemente do que Madu disse, na cena do Pescador nota-se a figuração da lenda da Mãe d’água e não da Iara.
Das inúmeras cópias de UmBaú de Fundo Fundo encontradas, foi escolhida uma datilografada que contém a marca de um carimbo com uma assinatura de um censor da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) do Departamento de Polícia Federal (DPF) do Estado de Minas Gerais. Além disso, essa cópia traz, em diversas páginas, marcações e indicações de cortes feitos pela DCDP mineira. Creio que essa intervenção da censura se deu dias antes da estreia do espetáculo, que ocorreu em junho de 1975. De acordo com Madu, em conversa telefônica, nessa época era muito comum a apresentação de espetáculos exclusivamente para a avaliação dos censores, dois ou três dias antes da estreia. Contudo, é difícil precisar corretamente o dia da ação da censura haja vista o carimbo da DPF não conter nenhuma menção à data. Apesar dos cortes, Madu disse que o grupo fez o espetáculo na íntegra.
Um Baú de Fundo Fundo é um texto politicamente ativo, pois os autores fazem uma crítica muito inteligente e divertida aos atentados contra a liberdade de expressão e de pensamento que ocorriam durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). Os personagens Libório, Delegado e Guarda são bons exemplos disso. Já no início do texto, como num interrogatório policial, o Delegado Godofredo passa em revista, junto ao Guarda, a situação da cidadezinha Pedra Furada:
GUARDA: [Imitando um trem de ferro] Tudo em ordem, tudo em paz, tudo em ordem, tudo em paz, tudo em ordem, tudo em paz… (entra o Delegado). (…).
DELEGADO: (…) Como está a cidade?
GUARDA: Tudo em ordem, tudo em paz (…).
DELEGADO: E o povo da cidade?
GUARDA: Em casa, conforme o regulamento.
DELEGADO: (…) Ninguém cantou?
GUARDA: Não ouvi.
DELEGADO: Bem. Uma cidade como deve ser: todo mundo em casa, sem meninos nos muros, nada de cantorias, versos e outras maneiras de perder tempo que os poetas inventaram. Um dia de trabalho, uma noite de sono. Eis o nosso lema, soldado. (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p. 01).
O Baú foi escrito durante a ditadura do general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), que governou o Brasil entre 1969 e 1974. Contudo, o espetáculo foi estreado quando da presidência do general Ernesto Geisel (1907-1996), que ocorreu entre 1974 e 1979.
1.1.2 Falares e regionalismos: adivinhas, provérbios, cantigas, causos e receitas de mineiros
Além desses ideais de democracia, no texto Um Baú de Fundo Fundo são figuradas ainda inúmeras mineirices e mineiridades, principalmente o modo sonoro de falar dos mineiros, tanto os do interior quanto os da capital do Estado.
Para começar, a utilização de diminutivos, que pode ser percebida em alguns nomes de personagens: Godofredo vira Godô – que faz confundir com o Godot de Samuel Beckett; José Adolfo transforma-se em Zé Adolfo e depois unicamente em Zé; Maria Cecíliamuda para Cecília e também para Cê; e finalmente, José Legalidade torna-se Zé Legalidade. Esse último nome pode ser também um apelido que expressaria a moralidade ou a imoralidade do Zé, personagem que representaria um tipo malandro.
Por sua vez, dadas personagens não são chamadas pelo nome, mas sim por metonímias: sejam elas funções que as figuras exercem; ou então por algum tipo de objeto que usam ou materiais que são constituídos; ou ainda por detalhes que as caracterizam: o fantasma é Pano-de-prato; o policial chama-se Guarda; temos também 3 meninos, Vovó, Sanfoneiro, Moça das Fitas, Sambista (Zé Legalidade), Baiana, Pescador, Mãe d’água, 5 congadeiros, 2 pererecas, Passarinho e peixes.[4]
As supressões e diminutivos também ocorrem nas falas de certas personagens. Estas caracterizariam parte do imenso repertório das expressões sociolinguísticas dos mineiros. Vejamos então alguns exemplos dessas supressões e diminutivos, e também de certos sotaques, expressões e modos de dizer típicos da população das “Alterosas”:
LIBÓRIO: (…) Nesta cidade não tem ninguém. Que cidade esquesita… tudo parado. (dirige-se à casa mais próxima). Ó, de casa!
VOZ: Ó de fora!
LIBÓRIO: Vem cá.
VOZ: Não é hora!
LIBÓRIO: (noutra parte) Ó, de casa!
VOZ II: (…) Tá doido? Não.
LIBÓRIO: Tá acordado?
VOZ II: Não.
LIBÓRIO: Ó, ocê quer saber de uma coisa?
VOZ II: Não.
(…) PESCADOR: Eta pesqueiro bão!… É água só e água pura. Se eu fosse peixe, nem duvidava: ia morar aqui nesta gostosura. A cambada de peixe deve de estar lá embaixo, nadando pra-lá e pra-cá e imaginando: hoje estou doido para comer uma minhoquinha. (…) Mas que desaforo! Até peixe está abusando dos pobres. Enjeita até minhoca. (…) E os meninos lá de casa tão com a barriga vazia. Vou rezar. Agarrar com os Santos e pedi pra mode eles me dar um peixe bem gordo. (reza). Meu Santantone, me dá um peixe pra mios fiim cumê, apois eles inda num quebraro jejum! (…). (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p. 18. Grifos meus).
Na cena em que Zé Adolfo e Cecília namoram num banco da praça da cidade e brincam de adivinhas (“o que é o que é?”), percebo a presença de regionalismos linguísticos (em itálico), dois provérbios e uma réplica (em negrito), e também de uma cantiga de roda (sublinhado):
CÊ: (…) Você viu meu vestido novo?
ZÉ: Não. Cadê?
CÊ: Aqui, olha, bobão. Não enxerga nada. Só quer namorar.
ZÉ: Quero mesmo. Vem cá.
CÊ: Sai pra lá! Daí tá bom.
ZÉ: Eh, lasquera. Namoro de longe, amor esconde.
CÊ: O apressado pega o bonde errado.
ZÉ:(…) Tá danado.
CÊ: Fui na fonte do tororó, beber água não achei, achei linda morena que no tororó deixei. (senta-se) O que é o que é? Caixinha de bom parecer, não há carapina que saiba fazer?
ZÉ: (…) Amendoim.
CÊ: O que é, o que é? Joga pra cima é prata, cai no chão é ouro?
ZÉ: (…) Ovo. (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p. 15).
Outra cantiga de roda que aparece no texto é a Ciranda Cirandinha: “CRIANÇAS: Ciranda Cirandinha / Vamos todos cirandar / Vamos dar a meia volta / volta e meia vamos dar. (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p. 11).
Por fim, uma personagem que representa bem os contadores de “causos” mineiros é a Vovó, que também é adepta do didatismo e da receita caseira. Como vimos, esta é uma crítica feita por Álvaro e pela Madu à censura dos jornais.
VELHA: (…) Aqui na vila tinha um moço bonito, de chapeuzinho de palha meio de banda, lenço xadrez no pescoço, uma simpatia. (…) Ele tocava sanfona. Juntava um povão de gente. (…) Agora vou ler pra vocês uma linda história. Pois era uma vez… (…) Era uma vez um barranqueiro… (…) Barranqueiro é o homem que mora na beira do Rio São Francisco e vive de pesca. Era um pescador muito pobre e empencado de filhos, que um dia pegou o barco e saiu para pescar. (…) Esta estória do pescador sempre me dá apetite. Receita: pegue o peixe, tire a escama e lave bem. Pegue 30 gramas de manteiga, salsa bem picadinha e alho socado. Faça uma pasta bem batidinha. (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p. 11,12, 17 e 20.).
1.1.3 Personagens: lenda, fantasma e capiais − Mãe d’Água: lenda ou mito?
Mito não é o mesmo que lenda. Muitos autores confundem esses termos, trazendo-os, erroneamente, como sinônimos. Para Megale (2003), as lendas são inspiradas em fatos históricos (ou relacionam-se a eles), transformados pelo imaginário social, e referem-se geralmente a fatos reais, em torno dos quais a imaginação cria uma série de coisas irreais e até inverossímeis. Já para Câmara Cascudo (2000) a lenda é localizável no espaço e no tempo e está ligada a um local ou à vida de um herói. Sendo assim, diferentemente da lenda, o mito atingiria uma área geográfica mais ampla e não seria necessariamente fixado no tempo e no espaço. Logo, temporal e espacialmente, as lendas de Barba Ruiva, de Santo Antônio, dos cangaceiros e dos tesouros escondidos, diferenciam-se dos mitos de Édipo, de Aquiles e de Medusa.
Novamente para Megale (2003), os mitos seriam narrativas fantásticas ou fabulosas, relacionadas a determinada cultura, crença ou religião, transmitidos por gerações dentro de uma estrutura tradicional. Eles teriam por finalidade fornecer uma explicação plausível para a origem e para o motivo das coisas, como para os fenômenos naturais e cósmicos: ciclos das estações do ano, do dia e da noite, da vegetação, da vida e da morte … e para os fenômenos históricos. Portanto, encontramos mitos relacionados às origens do homem, da flora e da fauna; mitos de destruição; mitos aquáticos, zoológicos e florestais; mitos de heróis e de salvadores; e assim por diante. Alguns deles, como o do Saci-Pererê,[5] que é conhecido no nosso país e em outras regiões do mundo, têm funções morais e didáticas.
Um conjunto de mitos e dos seus referidos estudos formam as mitologias; e um conjunto de lendas forma um lendário. Assim, o lendário brasileiro seria originário da mistura de lendas indígenas, com lendas de origem negra e daquelas provenientes da Península Ibérica.
Veja-se o exemplo da lenda da Mãe d’Água, que seria resultante da fusão da Iara indígena, da Iemanjá africana e da Sereia europeia. Segundo Câmara Cascudo (2000, p. 532), “em todo o Brasil conhece-se por mãe-d’água [sic] a sereia europeia, alva, loura, meia [sic] peixe, cantando para atrair o enamorado que morre afogado querendo acompanhá-la para bodas no fundo das águas”. Ao contrário, no Baú,o Giramundo representa essa lenda com os cabelos verdes, talvez na tentativa de aproximar a sua iconografia de uma monstruosa serpente aquática esverdeada, que seria uma espécie de mãe d’água amazônica.
Também de maneira diversa da Sereia europeia, a Mãe d’água do Baú não afoga o enamorado, que no caso do Giramundo seria o Barranqueiro. Para encerrar, observo uma passagem do textoque ilustra isso, na qual opescador, à espera do peixe, tira um cochilo e sonha com a rainha das águas doces:
PESCADOR: (…) Por que que gente não pode morar no fundo do rio?
VOZ: O fundo do rio tem dono, é o reino da mãe d’água. Cuidado, pescador, lá vem ela. Mãe d’água e seu canto de encantar. (…) Cuidado, barranqueiro, mãe d’água te encanta e te prende pra sempre no fundo do rio. Te fecha no seu castelo de pedra até você criar escamas e virar peixe. Aí, canoeiro, pescador vai te pescar. (…) Acorda, canoeiro! Acorda! (…) (APOCALYPSE, A; MARTINS, 1974, p. 19).
1.1.3.2 À base de remendos, nasce um fantasma e vários capiais
Pano-de-prato é um “pobre” e remendado fantasma do interior de Minas. Pela ótica do Giramundo,é um fantasma desacreditado, pois não consegue assustar mais ninguém. Também é desajeitado e ingênuo, porém, segundo o palhaço Libório, é divertido e simpático. Esse “fantasmão” adora assombrar os capiais de Pedra Furada, principalmente o medroso casal de enamorados caipiras Cecília e Zé Adolfo.
Para Megale (2003), o ato de se acreditar em fantasmas, duendes, bruxas, e assim por diante, faz parte da manifestação do folclore espiritual de um povo: são as crendices.
Assim, o surgimento abrupto de um fantasma pode causar assombração num indivíduo. Câmara Cascudo (2000, p. 112), diz que assombração é o “terror pelo encontro com entes fantásticos, aparição de espectros (…); casa mal-assombrada, onde aparecem almas de outro mundo”. Desta feita, o casal de caipiras, quando tranquilamente namorava e brincava de adivinhas num banco da praça da cidade, foi literalmente assombrado pelo Pano-de-prato. Logo, como resultado do grande susto, o casal fica com as vozes embargadas e tremendo de medo. Zé, covardemente, foge desesperado. Cecília, atordoada, sem saber o que fazer e com as suas tranças arrepiadas pelo seu ator-manipulador, corre sem rumos para ambos os lados do cenário. Isso até o final da cena, quando as luzes se apagam e fazem com que Cecília desapareçano escuro.
Além do fantasma Pano-de-prato,existem mais cinco bonecos/personagens que representam os capiais (ou caipiras) mineiros: Barranqueiro/Pescador, Zé Adolfo, Maria Cecília, Moça-de-Fitas e Sanfoneiro. Em suma, o nome caipira, conforme Vilela (2009, p. 69), vem “do tupi caapira, que quer dizer montador ou capinador de matto [sic]. [Por conseguinte, os caipiras mineiros], em expressiva parte, [têm suas raízes nos] protagonistas do bandeirismo paulista [do] século XVII”.
Já para Câmara Cascudo (2000, p. 223), o caipira é o “homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público. [É o] habitante do interior, canhestro e tímido, desajeitado, mas sonso”. Esta visão de Câmara Cascudo sobre o caipira se aproxima bastante do Jeca Tatu de Monteiro Lobato (1882-1948).
Por sua vez, as representações caipirescas do Giramundo distanciar-se-iam dos pensamentos cascudianos e lobatenses e aproximar-se-iam do contexto representacional de Almeida Júnior, que em suas telas de temáticas caipiras figurava cenas típicas do ambiente rural e os costumes das pessoas que viviam no campo. Desse modo, além do linguajar e do lugar de moradia, características comuns identificam os principais caipiras do Baú: a indumentária dos homens é simples, apresentando remendos, e indicam os seus ofícios: a lida na roça, seja ela o cultivo de alimentos ou até mesmo a pesca. O chapéu de palha dos senhores, incluindo-se o Sanfoneiro, é um item obrigatório e possui dupla função: serve tanto para proteger o rosto (do sol, dos insetos, de fezes de aves…) quanto como componente integrante do figurino nos momentos de lazer. Por outro lado, a utilização de chitas, tecido de algodão estampado a cores, e de fitas coloridas, por parte das senhoras e senhoritas, é recorrente, principalmente durante as festas e encontros amorosos.
Enfim, a utilização de múltiplas cores (principalmente as quentes) nos figurinos, cenários e adereços de Um Baú de Fundo Fundo faz deste um espetáculo alegre, divertido, colorido, atraente aos olhos das crianças e dos adultos e um notável representante dos tons das culturas de Minas Gerais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante os seus mais de 40 anos de existência e de atividades, o Giramundo montou 35 espetáculos, participou de inúmeros festivais de teatro e de exposições, tanto no Brasil, quanto no exterior, e também ministrou variados cursos e oficinas. Por isso, dentre outros motivos, tornou-se uma importante instituição artístico-cultural e educativa, formada pelo eixo teatro-museu-escola: Giramundo Teatro de Bonecos, Museu Giramundo e Escola Giramundo. Assim, o grupo mineirofoi reconhecido, em 2005, pelo seu valor cultural significativo e simbólico, conforme o ofício 550/04 da Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural da Comarca de Belo Horizonte e da Coordenação do Grupo Especial das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural das Cidades Históricas de Minas Gerais – GEPPC (ID 213.979 – Relatório Cultural Grupo Teatro de Bonecos Giramundo), como Patrimônio Cultural Mineiro com relação aos modos de fazer e pelas formas de expressão cênica. Foi declarado também como Patrimônio Cultural Imaterial em nível nacional, pelo Ofício ou Modo de Fazer Bonecos. Já o museu, que tem mais de 850 bonecos, tornou-se Lugar de Memória. E os bonecos, bens móveis de valor cultural, foram considerados como Patrimônio Cultural Municipal e Estadual de Minas Gerais.
Em relação a Um Baú de Fundo Fundo, também possui significativos valores culturais, simbólicos e materiais. Além disso, são inúmeras as representações culturais presentes no seu texto e nos seus personagens, assim como nas trilhas sonoras, que aqui não foram analisadas.
Resumidamente, neste artigo apresentei os conceitos de representação e culturas no plural, notei — no texto do espetáculo — a figuração escrita e oral do modo de falar (como a utilização de diminutivos e de metonímias), de pensar e de viver típicos das populações de Minas Gerais: as mineirices e mineiridades. Do mesmo modo, percebi, no fundo do Baú, críticas à ditadura militar brasileira e às censuras e cortes impostos ao texto pela DCDP do Departamento de Polícia Federal (DPF) de Minas Gerais. E dentre os principais bonecos/personagens dessa peça observei: uma figura lendária (Mãe d’água), um fantasma (Pano-de-prato), uma contadora de “causos” e de histórias (Vovó), vários caipiras (Pescador, Sanfoneiro, Moça-de-fitas e casal de namorados da pracinha), artistas do cancioneiro popular (Congadeiros),personagens representantes da repressão militar (Delegado e Soldado) e um palhaço que sugere a liberdade de pensamento e de expressão (Libório).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APOCALYPSE, Álvaro. Depoimento sobre o espetáculo Um Baú de Fundo Fundo. Fonte: <http://www.giramundo.org/teatro/ bau.htm>. Acesso em 18 mar. de 2010).
BURITY, Joanildo A. (org.). Cultura e identidade: perspectivas interdisciplinares. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
APOCALYPSE, Álvaro; MARTINS, Maria do Carmo Vivacqua. Um Baú de Fundo Fundo: peça para teatro de bonecos (texto datilografado). Giramundo Teatro de Bonecos: Lagoa Santa, 1974.
CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do Folclore Brasileiro. 10. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.
CANCLINI, Nestor García. Culturas híbridas: estratégias para Entrar e Sair da Modernidade.Trad. Heloísa Pezza Cintrão, Ana Regina Lessa. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. Trad. Maria Manuel a Galhardo. 2. ed. Coleção Memória e Sociedade. Lisboa: DIFEL, Difusão Editorial, 2002.
ELIOT, T. S. Notas para uma definição de cultura. Trad. Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Perspectiva, 2005.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário da língua portuguesa. 7.ed. Curitiba: Positivo, 2008.
ID 213.979 – Relatório Cultural Grupo Teatro de Bonecos Giramundo. (Documento PDF).Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, Patrimônio Cultural, Urbanismo e Habitação – Grupo Especial das Promotorias de Justiças de Defesa do Patrimônio Cultural das Cidades Históricas de Minas Gerais (CAO-MA/GEPPC). Belo Horizonte:12 de abril de 2005. 81 p. Disponível em: <http://www.mp.mg.gov.br/portal/ public/interno/arquivo/id/3197>.
MARCUSE, Herbert. Cultura e sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
MARTINS, Maria do Carmo Vivacqua (MADU). Processos criativos, cultura, identidade e nacionalismo em Um Baú de Fundo Fundo e em Cobra Norato. Entrevista oral concedida a Luciano Oliveira. Lagoa Santa, 25 de jul. de 2009. Entrevista não-publicada.
O ESTADO de Minas. Do baú do Giramundo uma história encantada de artistas e bonecos. Belo Horizonte: 11 de jun. de 1975.
PAIVA, Eduardo França. Escravidão e universo cultural na colônia: Minas Gerais, 1716-1789. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.
PAIVA, Márcia de (coord.); MOREIRA, Maria Ester (coord.). Cultura. Substantivo Plural: Ciência política, História, Filosofia, Antropologia, Artes, Literatura.Curadoria do ciclo de palestras Luiz Costa Lima – Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil – São Paulo: Ed. 34, 1996.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
VILELA, Ivan. Cantando a própria história. In: REVISTA DE CULTURA ARTÍSTICA. Associação de Cultura Artística de Piracicaba. v. 2, n. 2, 2009. Piracicaba: Associação de Cultura Artística de Piracicaba, 2009.
Abstract:Abstract: In this paper I discuss the cultural representations in the text and in the characters of “Um Baú de Fundo Fundo”, show created in 1974, by the “Giramundo Teatro de Bonecos”, of Belo Horizonte city. Therefore, I observe the concepts of culture, more specifically cultures in plural, and representation.
Keywords: military dictatorship; legends and hillbillies.
[1] Utilizo a referência APOCALYPSE, A. (Álvaro Apocalypse) para diferenciar de APOCALYPSE, B. (Beatriz Apocalypse). Beatriz é filha do casal Álvaro e Tereza Apocalypse, falecido em 2003.
[2] FREITAS, Marcel de Almeida. Para a vice-presidência? Convide um mineiro… Fonte: <://74.125.45.132/ search?q=cache:AwerJZnGlCMJ:www.achegas.net/numero/quatro/marcel_freitas.htm+mineirice&cd=3&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a>. Acesso em: 05 de abr. de 2010.
[3] O termo Alterosas seria outra forma que nós mineiros utilizamos para chamar o Estado de Minas Gerais.
[4] Aqui, incluindo-se o Libório, observa-se a lista completa de personagens de Um Baú de Fundo Fundo.
[5] O mito do Saci aparece figurado em cinco espetáculos do Giramundo. A saber: Saci Pererê (1973), Cobra Norato (1979), A Redenção pelo Sonho (1998), Os Orixás (2001) e O Aprendiz Natural (2002).
Cássio Costa e Alex Duarte em “As Mãos de Eurídice”- Foto de Túlio Drumond.
Em 2001, na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Luciano Oliveira, Cássio Costa, Carlos Gontijo e Alex Duarte formaram a “Cia Teatral Os Menecmos” para a montagem de um único trabalho: o monólogo “As Mãos de Eurídice”, do autor ucraniano radicado no Brasil Pedro Bloch. Esse espetáculo participou do II Festival de Monólogos e Música Original (MoMU) da UFOP, ocorrido em outubro de 2001, com apresentação no Teatro Municipal de Ouro Preto (Casa da Ópera).
Nesse festival ganhamos os prêmios de Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Atuação e Melhor Execução Musical. Além de sermos indicados nas categorias Melhor Cenário, Melhor Figurino e Melhor Música Original.
É importante ressaltar que essa foi a minha primeira direção, quando cursava o 2º período do Curso de Bacharelado em Direção Teatral da UFOP.
Após nos apresentarmos no MoMu, apresentamos-nos também no Festival de Inverno de Ouro Preto, no Teste de Aptidão para o Curso de Licenciatura em Artes Cênicas da UFOP, em 2001, e, por último, no FEIA IV da UNICAMP (Campinas), em 2002. Por fim, aprovamos um projeto de Cenas Curtas na Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais, o qual foi captado. Mas, por motivos inexplicáveis, fomos retirados do projeto por uma produtora ouropretana.
Curiosidade: eu e o Cássio ligamos no número 102 do Rio de Janeiro e conseguimos o telefone do autor Pedro Bloch. Tivemos o imenso prazer de falar com essa lendária figura do teatro brasileiro que, após enviarmos uma fita VHS contendo a filmagem do monólogo, nos concedeu, por um ano, o Direito Autoral de sua magistral obra. Depois de assistir ao vídeo, e falar conosco novamente por telefone, lembro-me dele mencionar mais ou menos o seguinte: “Essa é a montagem mais estranha e diferente que já vi de ‘As Mãos de Eurídice’. Me diverti muito, principalmente com a cena do assassinato da boneca (Eurídice)”. Ficamos muito felizes e orgulhosos!
Para a nossa tristeza, e de toda a classe teatral brasileira, Pedro Bloch faleceu em 23 de fevereiro de 2004. Contudo, continua a escrever seus belos textos para serem encenados pelos anjos nos palcos do Paraíso!
FICHA TÉCNICA:
Encenação: Luciano Oliveira
Assistência de encenação: Carlos Gontijo (Montanha)
Adaptação: Luciano Oliveira e Cássio Costa
Atuação: Cássio Costa
Composição e Execução Musical: Alex Duarte (Arrumadinho)
Iluminação: Marcelino Ramos (Xibil)
Cenário e Figurino: Luciano Oliveira
Até tu, Bruta? – Foto desfocada de Luciano Oliveira
Vem aí “Até tu, Bruta?”, o primeiro “esquizoespetáculo” da [In]puros, Cia & Teatro. Patrocinado pela Carbel, a partir de benefício concedido pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Faremos 6 apresentações no auditório do SESC Tupinambás, em Belo Horizonte: Rua dos Tupinambás, 908 – Centro.
SÁBADOS: 16/03 e 23/03, às 20h
DOMINGOS: 17/03 e 24/03, às 19h
SEGUNDA: 18/03, às 20 h
QUARTA: 20/03, às 20 h
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
INGRESSOS NO LOCAL: 1kg de alimento não-perecível (1 hora antes do espetáculo)
O texto “Até tu, Bruta?”, que foi elaborado a partir de uma criação coletiva entre o dramaturgista, atores e músicos da cia, possui três atos e doze cenas. Essa história perturbadora manifesta sentimentos fortes e pensamentos profundos. “Até tu, Bruta?” é uma montagem contemporânea de gênero misto (drama trágico-cômico) que conta a história de Maria Chiquitita, uma nordestina órfã e semianalfabeta residente em Belo Horizonte, que se apaixona por Alemão, homem rude, preconceituoso e vingativo oriundo do norte de Minas Gerais. Porém, o encontro de semelhanças, como um duplo refletido num espelho, mesmo que se dê nas diferenças (de origem, de cor, gostos, entendimento de mundo, etc.), a despeito das expectativas de Chiquitita, não gera um final feliz.
Maria Chiquitita é atendente de telemarketing (ela pede auxílio financeiro para ajudar idosos de um asilo) e trabalha com a debochada e vingativa Verônica (que vende planos funerários). Alemão, por sua vez, é cuidador de uma praça. Mas, conforme ele mesmo se intitula (empoderando-se), ao apresentar-se para sua futura namorada: “Sou o gerente estadual e nacional da limpeza urbana do Brasil”. Numa das tramas da peça Verônica liga para Alemão para vender um plano funerário, mesmo sem saber que se trata do namorado da colega de trabalho. Após um encontro para a assinatura do contrato, que se torna um deleite sexual, Alemão agride, violentamente, Verônica. Esta jura vingança. Ainda no enredo da peça observa-se Robhea, uma andrógena sexual esquizofrênica, cujo gênero (masculino e feminino) é difícil ser identificado. Rhobea também conhece Maria Chiquitita, e num universo lúdico-cômico, ao som de coco, baião e forró nordestino (que são tocados ao vivo, como boa parte das músicas do “esquizoespetáculo”), disputa o amor da feia e desengonçada Maria com o Alemão. Contudo, a Rhobea feminina é que se apaixona por ele, tornando-se mais uma concorrente da nordestina. Após um violento duelo entre Rhobea e Alemão, provocado por Verônica, que objetivava a morte desse último, quem acaba por ser derrotada é a própria Verônica. Quanto à Maria Chiquitita, após previsão de uma vida afortunada pela vidente e prostituta aposentada Madame Clecy (um boneco despedaçado de manipulação direta), acaba por se tornar estrela.
QUER SABER MAIS E SER PURIFICADO (A)? Vai lá no SESC conferir.
Informações sobre compra de ingressos e reservas: 31 3222.3923 (Herivelto, produtor), inpuros@gmail.com e inpurosciaeteatro.blogspot.com.br
FICHA TÉCNICA:
Texto: Criação Coletiva
Encenação/Dramaturgismo e Trilha Sonora: Luciano Oliveira
Assistente de Direção: Renata Silva
Elenco: Bén Johnson (Alemão)
Danilo França (Robhea)
Luciana Pires (Verônica)
Renata Silva (Maria Chiquitita)
Direção Musical/Preparação Corporal e Vocal: Nete Barros
Composição e Execução Musical: Nete Barros e Caio Ornelas
Cenografia e Figurino: William Rausch
Assistente de Figurino: Cláudia Fraguas
Maquiagem: Gabriela Dominguez
Costureira: Tayres Scatolin
Cenotécnico: José Geraldo Martins
Criação e Confecção de Boneco: Aline Midori
Direção de Manipulação: Sol Zofiro
Criação e Operação de Luz: Walter Parente
Técnico de Som: Coco (Alexandre Voss)
Criação Audiovisual: Ricardo Macêdo
Assessoria Jurídica: Marli Pires
Assessoria de Imprensa: Eric Colini
Produção Geral: Herivelto Campos
Até tu, Bruta? é o primeiro espetáculo em construção da [In]puros, Cia & Teatro. Esse agrupamento teatral (http://www.inpurosciaeteatro.blogspot.com.br/) foi criado, em agosto de 2011, pelos atores Danilo França e Renata Silva e pelo diretor Luciano Oliveira. Objetivávamos desenvolver um trabalho artístico a partir de uma parceria com o SESC Tupinambás, entidade esta em que laborava o ator Danilo França. Um ano depois, para nossa satisfação, essa parceria foi concretizada.
Fui convidado a criar, juntamente com esses dois atores, uma pesquisa que desembocaria em um espetáculo teatral. Mas que espetáculo montaríamos? E com que dinheiro?
De imediato sugeri uma adaptação da obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, que eu havia recebido de presente da amiga Giselly Brasil por motivo do meu trigésimo aniversário. Na ocasião, cursávamos o Mestrado em Teatro da UDESC, na bela Florianópolis.
Após lerem a referida obra, Danilo França e Renata Silva aprovaram-na com gosto e entusiasmo. Bem, mas sobre ela recairia os direitos autorais. Dificuldades à vista! Optamos, então, por escrevermos um texto, a partir de uma criação coletiva, livremente inspirado na obra de Lispector. Depois de uma brincadeira, em que abriríamos uma página do livro e leríamos a primeira palavra (ou trecho) que se nos apresentasse, chegamos ao trecho “Até tu, Brutus?”. Esta frase dita por Rodrigo S.M. (o narrador da obra, a própria Clarice) após o acidente que transforma Macabéa em estrela. Logo, para o nosso projeto optamos por “Até tu, Bruta?”.
Escolhido o nome da peça, faltava a designação do grupo. Esta veio de uma sugestão da Renata, depois de uma inspiração ocorrida no interior de um ônibus a caminho do seu trabalho em Contagem: “Impuros”. Mas, éramos impuros de quê: de alma, de sexualidade, de amor ou por motivos de contaminações diversas?
Chegamos a conclusão de que sempre na pureza há a impureza. E vice-versa. Como existe o mal no bem, o branco no preto, o masculino no feminino, o feminino no masculino e o “yin” no “yang”. Por isso resolvemos pelo im no parênteses [In]. Mas con o n, que implica “em” (dentro de algo ou de alguém). Ficou assim: [In]puros.
Grupo [In]puros? Cia [In]puros? Ou o quê?
Pela característica de criação coletiva que queríamos dar ao nosso trabalho, decidimos por um termo que sugerisse um agrupamento de artistas e de pessoas: [In]puros, Cia & Teatro. Nasceu aí a nossa companhia. Ou melhor, o nosso agrupamento com um propósito comum: a montagem criativa de um espetáculo e a união de diversas linguagens artísticas em um mesmo processo: o teatro de atores, o teatro de animação, a música, a dança, o vídeo, o cinema, etc.
Muito bem, criada a companhia e dado o nome do nosso trabalho, precisávamos encontrar uma fonte de financiamento do espetáculo e de gestão do agrupamento. Foi aí que decidimos enviar um projeto de montagem para as leis estadual e municipal de incentivo à cultura. Convidados alguns artistas, e agregado outros, como a atriz Luciana Pires, que hoje é membro efetivo da Cia, ao lado do produtor Herivelto Campos, escrevemos o projeto “Até tu, Bruta? – [In]puros, Cia & Teatro” e o enviamos para essas leis, em dezembro de 2011.
Passados alguns meses saíram as aprovações do nosso projeto em ambas as leis. Agora começaria a batalha pela captação, que duraria mais algum tempo. Em junho de 2012, felizmente, recebi uma ligação do Banco Bonsucesso informando-me que a Carbel Veículos (http://www.carbel.com.br/) patrocinaria o projeto aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Oba, oba, oba!!! Ficamos muito felizes com a parceria entre a [In]puros, a Carbel Veículos e o Banco Bonsucesso. Entretanto, a verba aprovada (que era o máximo que poderíamos pedir) pela Fundação Municipal de Cultura era muito pouca. Mas decidimos tocar o barco assim mesmo e entrarmos em cartaz, em março de 2013, na cidade de Belo Horizonte. Contudo, para que possamos circular pelo Estado de Minas Gerais, ainda esperamos pela captação do projeto aprovado na Lei Estadual.
Captado o recurso, convocamos a equipe restante do projeto: William Rausch, cenógrafo e figurinista; Nete Barros, diretora musical e preparadora corporal e vocal; Caio Ornelas, composição e execução musical; Bruno Cerezolli, iluminador; Eric Colini, assessor de imprensa; Sol Zofiro, diretora de manipulação; Aline Midori, bonequeira; e Ricardo Macedo, criação audiovisual. Um ator que está prestes a entrar no espetáculo é o jovem Bén Johnson. Oxalá esteja conosco em janeiro de 2013!
Para concluir, começamos os ensaios em agosto deste ano: quase um ano depois da criação da [In]puros! Porém, algumas complicações de locais para os encontros aconteceram. Primeiro passamos pelo apartamento da Renata e da Luciana. Mas, rapidamente, ficamos desalojados. Depois fomos para o Teatro Negro e Atitude (http://www.teatronegroeatitude.blogspot.com.br/), com sede em Venda Nova. Este grupo gentilmente nos cedeu o Espaço Cor(tição) para os encontros de setembro e outubro. Por fim, assinamos, em outubro, o contrato de cessão de um espaço de uma sala do SESC Tupinambás (http://www.sescmg.com.br/index.php/unidades/capital/tupinambas), bem como do seu auditório, para os ensaios e também para a temporada de “Até tu, Bruta?” a ser realizada em março de 2013.
Encenação e dramaturgismo: Luciano Oliveira
Texto: criação coletiva
Assistência de direção: Renata Silva
Direção Musical, preparação corporal e vocal: Nete Barros
Direção de manipulação: Sol Zofiro
Produção: Herivelto Campos
Cenário e figurino: William Rausch
Iluminação: Walter Parente
Vídeo: Ricardo Macedo
Confecção de boneco: Aline Midori
Assessoria de imprensa: Eric Colini
Composição e Execução Musical: Caio Ornelas
Elenco: Renata Silva, Danilo França, Luciana Antunes e Bén Johnson
“Pequenos Romances”: espetáculo de conclusão de curso do TU (Teatro Universitário) da UFMG.
Local: Teatro da Oi Futuro
Horário: 20 hs (Chegar 1 hora antes para retirada, gratuita, de ingressos).
Com: Tarcísio Ramos (Direção), Ben Johnson Pereira (atuação) e companhia.
Breve crítica: “Pequenos Romances”, baseado em obras de Marcelino Freire, é um excelente espetáculo constituído por fragmentos (ou por contos inteiros) de escritos do autor pernambucano. A encenação, realizada por Tarcísio Ramos, é muito coerente, coesa, criativa e sensível. Sente-se a presença do encenador a todo o momento, principalmente na ligação dos fragmentos que, somados, criam uma dramaturgia muito sólida.
Os atores e as atrizes são excelentes: interpretam, dançam, cantam e tocam instrumentos ao vivo.
Figurinos, cenários e iluminação, apesar de simples (e a simplicidade na arte é muito complexa), são muito bem construídos e utilizados.
Enfim, vale a pena assistir a esse belo e divertido espetáculo!
Como havia vários vídeos em que participei – como ator, elenco de apoio, manipulador, etc. – espalhados na internet, resolvi juntar todos em um único lugar: aqui no meu blog. Ainda preciso encontrar alguns que estão perdidos. Assim que o fizer postarei neste post. Aí vão os links:
1- Como elenco de apoio em Liberdade Ainda que à Tardinha:
2- Como ator-manipulador do personagem Dentinho de DRACULINHA, O VAMPIRINHO:
3- Como cenógrafo da Campanha de Carnaval AMAS/PAIR 2012:
4- Como elenco de apoio em Paixão Segundo Ouro Preto (Rede Globo) com o Grupo Galpão:
5- Como elenco de apoio em “TSE – 10 anos da Urna Eletrônica”:
6- Como locutor e editor de Bumba-meu-boi da Floresta:
7- Como ator em vídeo-montagem do Grupo de Teatro da AMAS:
8- Como ator em Leitura Dramatizada de Check-up (Paulo Pontes):
9- Entrevistas:
A- Plano Aberto (TV UFOP):
B- Metaformose – Relatos:
10- Equipe de organização e produção: La Traviata, Mercado Municipal de BH:
11- Diretor e entrevistador em “Entrevista com ilustres moradores de Peneiras – Grupo de Teatro da AMAS”:
Em 2002, quando cursava Direção Teatral na Universidade Federal de Ouro Preto, tive a oportunidade de trabalhar como ator no curta-metragem Liberdade Ainda que à Tardinha, dirigido pelo artista mineiro Luiz Guimarães deCastro.
A narrativa do filme, escrita por esse artista, se passa na Ouro Preto de 1971. Trata da transformação na vida de um rapaz, Gilberto, que convive com as ideias libertárias do grupo de teatro estadunidense ‘Living Theatre’, cujos atores, dentre eles Julian Beck e Judith Malina, foram presos pelo regime militar. Após grande comoção mundial, em que um abaixo-assinado foi feito em protesto à prisão dos artistas, que obteve assinaturas de John Lennon, Marlon Brando e Bob Dylan, o grupo foi extraditado pelo governo brasileiro.
Foi uma grande honra atuar ao lado de Carla Marins, Danton Mello,
Roberto Bomtempo, Rodrigo Penna, Jokayne Idelfonso, Gilberto Miranda, Maria Gladys e Lina Bianchini. É claro que não posso esquecer os meus amigos e colegas do curso de Artes Cênicas: Geuder Martins, Kátia Katita, Flaviano Silva, Ricardo Carvalho, Pollyana Lott, Jaqueline Dutra, Carlos Gontijo (o Montanha), Bárbara Mello, Fabiola Buzim, Luciene Nogueira, Charles Gouvea, Joilson Santos, Marcelino Xibil Ramos, Waltair Júnior, Zuza, Luciana Curtiss, etc.
A atriz Sabrina Rauta experimentando sua máscara neutra. Foto de Luciano Oliveira
No último mês de agosto ministrei, na AMAS (Associação Municipal de Assistência Social), as oficinas Confecção de Máscara Neutra (20 h/a) e Interpretação com Máscara Neutra (20 h/a).
Fiz um videozinho amador desta última, a partir de uma máquina fotográfica. Veja em:
Essa semana terminamos também as oficinas de Confecção (de) e Interpretação (com) Máscaras Larvárias. Em breve postarei algumas fotos dos processos de criação.
Por fim, daqui a alguns dias iniciaremos a confecção de máscaras expressivas visando a criação de uma esquete a ser apresentada na VI AMAS Mostra de Arte e Cultura, cujo tema de 2012 é AMAS Mostra AMAS.