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Crônicas de um festival

 

 

Durante os dias 21 e 27 de outubro de 2017 aconteceu, em Porto Velho, Cacoal, Rolim de Moura, Guajará-Mirim, Ji-Paraná e Vilhena o III Festival Unir Arte e Cultura da Fundação Universidade Federal de Rondônia. Tal festival é uma ação da Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis dessa universidade e tem como coordenadora geral a Pró-Reitora Marcelle Regina Pereira. Eu sou o Coordenador do Eixo Circo/Teatro/Dança de Porto Velho. Além disso, enquanto artista e escritor/pesquisador, contribuí com diversas atividades culturais. Gostaria, neste post, de relatar e analisar criticamente algumas delas.

Para a abertura do evento, ocorrida no Teatro Guaporé, com a preciosa contribuição do iluminador Edmar Leite e do Coordenador de Eixo Música Márcio dos Anjos, o trabalho realizado foi a direção de palco dos shows e concertos musicais apresentados. Das 08:00 às 22:00 hs concentramos nossos esforços para que a iluminação e a entrada e saída de artistas do palco fosse harmoniosa e precisa. Contudo, a primeira apresentação artística do festival aconteceu no Saguão do Teatro. Trata-se de “Das Dores”, teatro performativo desenvolvido pela atriz/performer Taiane Sales, sob minha direção artística e orientação acadêmica, pois esse espetáculo é o Trabalho de Conclusão de Curso da aluna defendido junto ao Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR. Concentrada e emocionada, a aluna-atriz realizou uma das suas melhores apresentações. O público se emocionou com a história de “Das Dores”, que figura e apresenta variados tipos de violências pelas quais passam as mulheres.

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Das Dores, com Taiane Sales. Foto: Anne Salles.

Já no dia seguinte, domingo, além de “Das Dores”, foram apresentadas ainda, no CEU  (Centro de Artes e Esportes Unificados) Zona Leste, a performance “Pela Pele da Mulher”, da atriz e performer Jaqueline Luquesi, sob direção de Taiane Sales, e “O Poder do Mosquito na Sociedade”. Este último é um mini espetáculo de Lambe-Lambe, voltado para crianças e adultos, de Vavá de Castro (Tia Vavá dos Bonecos), apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso, sob minha orientação, para o encerramento do Curso de Teatro da UNIR. O público para essas apresentações foi pequeno, mas importante, pois sempre digo aos meus alunos que a quantidade de espectadores não pode influenciar na qualidade da execução artística da obra apresentada. E foi isto que aconteceu: tanto Taiane como Jaqueline e Vavá se entregaram de corpo e alma ao seu público. Aliás, aproveito o momento para agradecer a todos os monitores que acompanharam as atividades do dia, em especial a Edmar Leite (que cuidou, sozinho, da iluminação!), Victor, Ádamo Teixeira e Stéphanie Santos. Um muito obrigado também ao Jacim, coordenador do CEU, que, juntamente com toda a equipe, nos recebeu com muito carinho e profissionalismo.

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Pela Pele da Mulher, com Jaqueline Luquesi. Foto: Agenda Porto Velho.
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Tia Vavá em apresentação de Lambe-Lambe na UNIR. Foto: extraída do Facebook da atriz-manipuladora. Sem referência a autoria.

Ainda no domingo, porém, no período noturno, realizei o lançamento de dois livros no SESC Esplanada: “Representações Culturais no Giramundo Teatro de Bonecos” e “Eid Ribeiro e o Armatrux em Processo: o objeto flutuante entre a poética e a estética teatral”. O primeiro é resultante da minha pesquisa de mestrado. Já o segundo da minha pesquisa de doutorado. Ambas realizadas no Programa de Pós-graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina, sob orientação de José Ronaldo Faleiro (e coorientação de Vera Colaço) e Brígida Miranda (e coorientação de Wagner Cintra), respectivamente. 

 

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Saindo um pouquinho do Eixo Artes Cênicas, e adentrando o Eixo Audiovisual, na segunda-feira, 23/10/17, foi exibido o documentário “Rondônia: um Estado de Delícias Culinárias”. Para este trabalho escrevi o roteiro e fiz a direção de atuação. A direção geral foi de Ivan Souza. Protagonizando o documentário encontra-se Cassandra, personagem do espetáculo “Cassandra, BR-trans-amazônica”, interpretada pelo ator Junior Lopes. Muitos alunos do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR participaram como elenco de apoio. Enfim, trata-se do meu primeiro documentário enquanto roteirista e diretor. Foi muito prazeroso participar do processo de gravação desse trabalho, que será exibido também nos Estados Unidos, em Framingham, dentro da programação da “Feira Cultural Brasil & Estados Unidos: the Best of Brazil and USA”.

Documentário

Voltando às Artes Cênicas, na terça-feira, 24/10/17, na Sala do Piano da UNIR Centro, aconteceram três apresentações: A Velhinha que Dava Nome às Coisas, com encenação de Vavá de Castro e atuação de Téo Nascimento; La, espetáculo de dança contemporânea do Coletivo Aurora; e um Ensaio Aberto de “Inimigos do Povo”, da Trupe dos Conspiradores, sob minha encenação.  O primeiro trabalho, uma cena curta, criado nas disciplinas de encenação do Curso de Teatro da UNIR, das quais sou professor, tem ganhado asas e voado lindamente. A encenação de Vavá de Castro está cada vez mais madura e a atuação de Teo Nascimento ainda mais delicada e humana.  A boa notícia é que as duas artistas resolveram transformar a cena curta em um espetáculo e agraciar o público de Porto Velho, e quiçá o de Rondônia e do Brasil, com reflexões acerca da terceira idade, dentre outras temáticas.

20140104_1995512470668328_5121261047668435017_nTeo Nascimento em A Velhinha que dava nome às coisas. Encenação: Vavá de Castro. Foto sem referência a autoria.

La é um interessantíssimo espetáculo de dança contemporânea em processo de criação. O Coletivo Aurora (de Porto Velho, já que existem outros de mesmo nome espalhados pelo Brasil), que tem entre os seus membros as dançarinas Andréa Melo, Aline Monteiro e Rebeca Moriae, coloca em cena corpos femininos decididos, independentes, belos e resistentes. A temática feminista dá o tom (preto, branco e vermelho) do espetáculo!

 

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O último trabalho apresentado na terça-feira foi o ensaio aberto de Inimigos do Povo, da Trupe dos Conspiradores. Como o espetáculo de dança La, esse espetáculo teatral também está em processo de gestação e conta com a contribuição de diversos artistas de Porto Velho. A saber:

Encenação e dramaturgismo – Luciano Oliveira

Assistência de Encenação – Sheila Souza

Direção e produção de vídeo – Ivan Souza

Cenografia – Elcias Villar

Indumentária – Selma Pavanelli

Produção – Flaw Naje

Iluminação – Edmar Leite

Preparação Corporal – Luiz Lerro

Diagramação: Leandro Almeida

Elenco: Ádamo Teixeira,  Andrelina Lúcia de Paiva,  Enderson Vasconcelos, Jamile Pereira Soares, Stephanie Dantas e Vavá de Castro.

A Trupe dos Conspiradores está montando, há oito meses, Inimigos do Povo, espetáculo de estética contemporânea livremente inspirado na obra Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen, que trata do conflito existente entre o indivíduo, o Dr. Stockmann, e a coletividade, a população de uma pequena cidade-balneário da Noruega, que transforma o único médico local em um inimigo do povo. Isso por acreditar que as águas que serviam os banhos públicos, fonte de riqueza para toda a cidade, estavam contaminadas. O médico se sente na obrigação de propagar a verdade. Todavia, a sua denúncia, a ser publicada em forma de carta no “Jornal A Voz do Povo”, poderá fechar o balneário por dois anos. O lucro da população com o turismo, principalmente o dos poderosos, estaria comprometido. Porém, não denunciar o fato vai contra as suas aspirações. A poluição das águas é uma metáfora para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade. A teimosia do Dr. em fazer triunfar a verdade faz dele uma pessoa não grata, ainda mais após dizer que os valores da cidade estão amparados na mentira e de afirmar que o povo, ao contrário do que diz o senso comum, não tem a razão. Ele se torna um inimigo do povo, vítima da maioria e da unanimidade.

A montagem que propomos, além das temáticas notadas no texto de Ibsen, desenha um paralelo com a atual situação político-econômico-social brasileira. De modo parecido ao que pensava Brecht, teatrólogo alemão, cremos que o teatro diverte e faz o espectador refletir, criticar e mudar a realidade social da qual integra. Nesse sentido, o teatro se faz urgente e necessário!

 

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Na quarta-feira, 25/10, “O Poder do Mosquito na Sociedade”, de Vavá de Castro, foi apresentado na Laio Escola de Música (Zona Sul da capital). E, no dia seguinte, se não fosse a agressividade e grosseria de um sujeito mal educado, que expulsou todos os artistas e o público que estava no local, baixando, antes do horário, as portas metálicas do mercado, o Teatro Lambe-Lambe de Tia Vavá dos Bonecos também aconteceria no Mercado Cultural.

Por fim, e não menos importante, uma apresentação surpresa, na quarta-feira, da performance/instalação “Quem?”, encenada por Andrelina Paiva e performada por Sheila Souza, no Museu da Memória Rondoniense. Pelo fato do trabalho ter agradado tanto à coordenação do Museu, em especial à Ednair Rodrigues (a quem muito agradecemos!), fomos convidados a apresentar mais duas vezes lá: na quinta e sexta-feira, dias 26 e 27 de outubro. Uma plateia escolar de adolescentes animou, no último dia, a apresentação da intrigante “Quem?”.

 

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Haja feijoada pra tanta indigestão! Dança-teatro em Porto Velho

 

Ontem, 23 de novembro, no Teatro 1 do SESC Esplanada de Porto Velho, iniciou-se a Mostra de Danças SESC 2017.

Após três apresentações infanto-juvenis, pelas quais os pais quase sofreram um treco de tanto gritar e aplaudir, eis que “insurge” uma coisa que “destoou” completamente do que até naquele momento acontecera.

Assim perguntou uma criança sentada numa poltrona atrás da minha:

– “Papai, o que está acontecendo?”.

– “Eles estão passando mal!”, explicou ironicamente o pai.

– “Por que, papai?”.

– “Porque eles comeram muita feijoada antes da apresentação!”.

– “Entendi!”, respondeu a inquieta menina.

Os atores-dançarinos, que se vestiam tão “estranhamente” (“muitos deles com trajes árabes”, disse uma espectadora mal humorada sentada ao meu lado), e que dançavam e “teatravam” músicas ainda mais esquisitas – “dissonantes”, disse-me o professor Dr. Luiz Lerro e coordenador do Curso de Extensão Dança-Teatro -, passavam mal no palco de tanto comerem feijoada de paixão, de tanto deglutirem couve de tesão e de tanto ingerirem coca-cola (ou cachaça?) do alabão! (Esta rima pobre e sem sentido é proposital, pois não encontrei nenhuma palavra boa que rime com tesão e paixão e que expresse adequadamente o meu sentimento diante de tanta hipocrisia e ignorância!). Continuando: “estrebuchando” ali no chão, sob os olhares medievais de boa parte da plateia atônita, um grupo de pessoas completamente heterogêneo (estudantes de teatro, bailarinos, bailarinas, homens e mulheres comuns, heterossexuais, homossexuais,  jovens, idosos, etc.) entregavam-se de corpo e alma à tão misteriosa (para uma parte expressiva do público ali presente, quiçá para o público geral de Porto Velho!) Dança-Teatro.

– “O que está acontecendo agora, papai?”, pergunta novamente a criança.

– “Eles estão saindo do palco!”, responde o pai.

– “Por quê”?

– “Para tomar remédio”, finaliza la cu nar mente o pai que não tinha mais nada para passar para a sua pobre criança.

 

E assim o Temer continua no poder!

Rondônia: um Estado de Delícias Culinárias

“Rondônia: um Estado de Delícias Culinárias” trata-se de um documentário de cinco minutos produzido por Luciano Oliveira e Júnior Lopes (professores do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR) e Ivan Souza (publicitário, jornalista e comunicador social de Porto Velho), com participação de discentes do mencionado curso, bem como de artistas e de pessoas da comunidade portovelhense, para ser exibido na Feira Cultural Brasil & Estados Unidos: the best of Brazil and USA, ocorrida em Framingham, Massachusetts, entre os dias 02 e 06 de novembro de 2017. Ele foi exibido também no III Festival UNIR Arte e Cultura, em Porto Velho. Por meio da comicidade e de improvisações dos atores, conta a história de Cassandra Baby, uma mulher de Guajará Mirim, cidade do interior de Rondônia, que vem para a capital em busca de ingredientes para preparar um “banquete” para seu “boy”, um pretendente amoroso italiano que conhecera em um aplicativo de relacionamentos. Cassandra Baby é uma personagem do espetáculo teatral “Cassandra, BR-trans-amazônica”, montado pelo ator Júnior Lopes, e estreado em agosto deste ano.

A ficha técnica do documentário é esta:

– Direção Geral e Cinegrafista: Ivan Souza

– Roteiro e direção de elenco: Luciano Oliveira

– Atuação: Junior Lopes

– Elenco de apoio: Ádamo Teixeira, Jamile Soares, Stephanie Caroline, Gabriel Corvalan, Jaqueline Luquesi, Sheila Souza, Lia Assunção, Guilherme Ferreira, Flaw Naje e Verônica Brasil

– Figurino: Junior Lopes

– Cabelo e maquiagem: Jaqueline Luquesi

– Assistente de maquiagem: Sheila Souza

– Edição (tradução de legenda): Verônica Brasil

– Edição de Imagens: Jéferson Dino

– Produção: Flaw Naje

– Apoio Técnico e Assessoria de Imprensa: Emanuel Jadir Siqueira

Agradecimentos: Ronildo Chaves (Kamilly Panificadora e Confeitaria); Paky’Op (Laboratório de Pesquisa em Teatro e Transculturalidade – UNIR); Luciano Pinheiro e Vanderlei Júnior (pela liberação da música Pra Porto Velho Eu Vou); Ulisses Ferreira (bebezinho); Antonha Cristina Fontinele (Barraca da Cristina); Sr. Nilson (O Rei do Açaí); Sr. Severino; Dona Mimozete; Reinaldo Ribeiro; Cleomar Mendonça e Jonisson (Barraca Rei da Goma); Dona Francisca; Dona Izabel Araújo; Rodrigo Anconi; Denilson; Eberson e Vanessa Cristina (Barraca da Cris).

APOIO: Kamilly Panificadora e Confeitaria

Música: Pra Porto Velho Eu Vou! (Composição, Letra e Música: Luciano Pinheiro e Vanderlei Júnior)

 

 

Eid Ribeiro e o Armatrux em Processo: o objeto flutuante entre a poética e a estética teatral

Novo livro de Luciano Oliveira
Livro de artista oriundo de tese de doutorado

No dia 31 de julho de 2017 saiu o meu segundo livro, fruto da minha pesquisa de doutorado realizada ao longo de quase cinco anos em distintas universidades brasileiras: Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na primeira universidade foi onde cursei a maior parte dos créditos e fui orientado brilhantemente pela professora Dra. Brígida de Miranda. Na UNESP cursei uma disciplina especial com o prof. Dr. Wagner Cintra, que se tornou meu coorientador e muito contribuiu para a minha pesquisa. Já na USP e na UFMG cursei outras duas disciplinas especiais, uma em cada universidade.

Meu objetivo inicial, ao ingressar no doutorado, era pesquisar o lugar dos objetos cênicos na poética teatral de três importantes encenadores mineiros: Eid Ribeiro, Kalluh Araújo e Ione de Medeiros. E assim foi até a qualificação de dois capítulos da tese. Contudo, devido à necessidade de recortes, e de acordo com apontamentos da banca, foi preciso cortar dois encenadores. Daí, optei por dar sequência às investigações com apenas Eid Ribeiro. Os espetáculos escolhidos vieram de uma trilogia montada com o Grupo de Teatro Armatrux: De Banda pra Lua, No Pirex e Thácht. A análise de cada um desses espetáculos constituiu um capítulo da tese: o segundo, o terceiro e o quarto, respectivamente. O primeiro capítulo ficou para discussões de caráter mais teóricas, em que analisei os conceitos de poética e de estética teatral e discorri sobre uma categoria ampliada de objetos cênicos. A partir desta cheguei a quatorze subcategorias dos objetos como, por exemplo, objeto-objeto, objeto-antropomórfico, objeto-faltante, etc. Por sua vez, na introdução, tracei um pequeno histórico da carreira de Eid Ribeiro e também do Armatrux. O livro, que foi lançado pela Editora Scienza, obedece exatamente a essa divisão. O que o diferencia da tese é uma apresentação redigida pelo prof. Dr. Rogério Santos de Oliveira, da Universidade Federal de Ouro Preto, e a ausência dos anexos.

Com o livro almejo alcançar o público da graduação, mais especificamente estudantes de cursos de teatro e artes cênicas. Contudo, pela simplicidade da linguagem, e dadas as especificidades da cena ribeiriana junto ao Armatrux, creio que a obra se presta também  para artistas e estudantes de diversas linguagens artísticas: teatro, teatro de animação, cinema, cinema de animação, etc.

Enfim, trata-se de um livro de artista interativo. A partir de códigos de barra constantes ao longo de todo o trabalho, o leitor pode acessar, por meio de um leitor de QR Code instalado em celular ou tablet, vídeos e áudios citados nas análises. A obra pode ser adquirida no site da Editora Scienza:

http://www.editorascienza.iluria.com/pd-4afc56-eid-ribeiro-e-o-armatrux-em-processo.html?ct=&p=1&s=1

 

 

 

 

Espetáculo “As Mulheres do Aluá” repaginado e amadurecido

Personagens de Mulheres do Aluá – Fotos de Leonardo Valério

Há quase três anos, próximo à data da minha chegada em Porto Velho, ocasião em que assumi o cargo de professor do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, tive a possibilidade de assistir ao espetáculo “As Mulheres do Aluá”, do Grupo Imaginário.

Lembro-me que ele tinha estreado fazia pouco tempo. Talvez eu tenha assistido à terceira ou quarta apresentação ocorrida no Teatro 1 do Sesc Esplanada. Mas não tenho certeza disso!

Muito bem, no frescor da estreia, recordo-me da potência estética do espetáculo, principalmente na visualidade (cenário, figurino, iluminação, maquiagem e penteado) e na trilha sonora. O Teatro 1 do SESC me pareceu muitíssimo aconchegante e propício ao desenvolvimento do realismo a que se propôs a direção do espetáculo, competentemente realizada por Chicão Santos.

O elenco da época contava com o delicioso trabalho de Zaine Diniz, Agrael Pereira, Jaqueline Luquesi e Amanara Brandão. A primeira atriz, bastante experiente, é uma das fundadoras do grupo, ao lado do esposo Chicão Santos. Já Agrael era aluna do curso de Teatro da UNIR e Jaqueline postulava ser discente desse curso, o que, mais tarde, se concretizou. Amanara Brandão, a caçula do grupo, almejava entrar no Curso de Artes Visuais da federal. Recordo-me que eu, Adailtom Alves e Alexandre Falcão, também professores de teatro na Unir, confabulávamos sobre a importância de convencê-la a bandear-se para o teatro. E isso, realmente, aconteceu.

No frescor e adrenalina da estreia, “As Mulheres do Aluá” demonstrou-se vibrante e fundamental na discussão dos papeis das mulheres na construção da cidade de Porto Velho, nos primeiros anos do século passado.

Depois de quase três anos pude assistir novamente, no último fim de semana,  a esse agradável espetáculo. Mas agora com uma nova configuração espacial, teatro de arena, e com uma nova integrante, Flávia Diniz, que substituiu Jaqueline Luquesi que se licenciou do grupo para trazer à luz o pequeno Ulisses.

Entre uma e outra apresentação que assisti há ganhos e perdas. Mais ganhos, na verdade, devido a passagem do tempo e ao amadurecimento das atrizes. Como professor de duas integrantes e de uma ex-integrante do grupo, convém, didaticamente, analisá-las. Ainda mais em se tratando de alunas das disciplinas de Improvisação, Interpretação e Encenação Teatral. Nesta última, por exemplo, estamos operando com as categorias poética e estética. Grosso modo, a poética está ligada ao fazer, com os modos de produção de um espetáculo. Já a estética relaciona-se mais com a recepção (sensorial, intelectual, etc.), por parte do público, dos múltiplos elementos de uma encenação.

O primeiro ganho refere-se à experimentação do espetáculo em uma configuração  de arena. Ele tinha sido concebido, inicialmente, para palco italiano. Com a apresentação ocorrida neste último sábado ficou claro que “As Mulheres do Aluá” pode acontecer tanto em palco italiano, quanto em semi-arena e até mesmo em arena (desde que em espaço fechado). Nesse sentido, o espetáculo é dinâmico. Porém, é preciso atenção das atrizes e do diretor em relação às especificidades das diferentes configurações espaciais pois, com a aproximação do público da cena por meio da arena, como a ocorrida no Tapiri, que é um espaço intimista, a quarta parede deixa de existir e realça ainda mais os elementos materiais e visuais da encenação. E as fragilidades ficam mais evidentes, como algumas falhas interpretativas, do mesmo modo que as qualidades saltam aos olhos, como a potência cenográfica. Contudo, neste primeiro ganho também há perdas, principalmente na iluminação, que é um dos pontos fortes do trabalho apresentado no SESC. O Imaginário ainda não conseguiu resolver os problemas técnicos do Tapiri no que tange aos equipamentos de luz e isso prejudicou a última apresentação.

Outro ponto a ser observado no âmbito desse novo espaço, mais especificamente sobre a apresentação do sábado, diz respeito à energia das atrizes. Não importa o número de espectadores, mas o elenco não pode deixar a peteca cair. Constantin Stanislávski, notável encenador pedagogo russo, dizia aos seus alunos sobre a importância de sempre se manter viva a energia de um espetáculo. Para ele, os atores precisavam constantemente trabalhar suas energias e emoções para que o espetáculo fosse sempre novo, independentemente se se tratasse da milésima ou da primeira apresentação. Nesse ínterim, o fazer e o descobrir deve ser diário. E tais descobertas, o novo, deve alimentar o velho.

Ainda em se tratando do visual, bem como das ações físicas e vocais das atrizes, há perdas no espetáculo atual. Uma delas pode ser notada na composição exterior da personagem “bruxa”, interpretada por Amanara Brandão. O penteado original, da estreia, é mais bonito e compõe melhor com a realidade psicológica da personagem. Porém, a atriz cortou os cabelos.  Já nas ações físicas, as maiores questões encontram-se na personagem “cigana”, interpretada por Flávia Diniz. Uma substituição é sempre muito difícil porque, geralmente, quem cria a personagem primeiro dá a ela características conforme suas vivências e experiências. Jaqueline Luquesi, que interpretava inicialmente a “cigana”, conhece danças folclóricas e movimentos do flamenco, como os que foram utilizados na elaboração coreográfica dessa personagem. Ademais, fala o espanhol, pois nasceu em Guajará Mirim, cidade rondoniense localizada na fronteira entre Brasil e Bolívia. Importa observar que a “cigana” é uma espanhola que veio trabalhar em Porto Velho na época da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Logo, no contexto da encenação realista do grupo O Imaginário, a “cigana” fala o espanhol fluentemente e conhece bem a dança flamenca. Por mais que se trate de teatro, uma arte ficcional por natureza, a verossimilhança pode gerar no espectador  o processo de identificação com a personagem (ainda mais no Brasil, império das telenovelas realistas!). Desta feita, um espanhol não tão bem articulado pode gerar um ruído, assim como a não execução precisa de determinados passos do flamenco. A sugestão que dou para Flávia Diniz, que carinhosamente chamo de Flavinha, atriz jovem com um futuro brilhante no teatro e no circo, é que busque a sua própria “cigana” a partir das experiências pelas quais passou.

No tocante às ações vocais, em determinadas passagens do espetáculo as falas ficam monótonas, no sentido de que apresentam continuamente o mesmo tom e que se repetem invariavelmente. Por isso, é preciso encontrar novas modulações, ritmos e coloridos vocais para as personagens a fim de valorizar ainda mais o excelente texto de Euler Lopes Teles. Por fim,  as cantigas executadas ao vivo são muito bonitas e corroboram bastante para a paisagem sonora do espetáculo.

Para concluir, faz-se mister notar que o trabalho de criticar um espetáculo de teatro, assim como os artistas nele envolvidos, é muito delicado e difícil, ainda mais quando o crítico é tão próximo (amigo e professor) dos integrantes do grupo. Venho trabalhando com meus alunos, e em mim mesmo,  a importância da crítica na construção do aprendizado da linguagem teatral, bem como enquanto ferramenta de reflexão estética sobre o espetáculo ou grupo ao qual ela se direciona. Desse modo, uma crítica configura-se como um olhar recortado ou ampliado, dos muitos olhares possíveis, de um dado fenômeno artístico realizado por determinado profissional. E ela varia de olho para olho. E como dizia o professor de Metodologia da Pesquisa Milton de Andrade, do Programa de Pós-graduação em Teatro da UDESC, a respeito da escrita e da pesquisa acadêmica, é preciso que se troquem os óculos constantemente. Isso serve bem para a crítica teatral!

 

 

 

 

 

A Dança Quilombola do Imaginário

                                                             “A dança se faz não apenas dançando, mas também pensando e sentindo: dançar é estar inteiro” (Klauss Vianna)

Videodança
A bailarina Elba Calazan – Foto de Raíssa Dourado

A dança quilombola do Imaginário, grupo de teatro de Porto Velho, ainda continua a pensar, sentir e dançar por inteiro; mesmo após o encerramento do projeto “Quilombo, Residência Artística Flutuante pelas águas do Vale do Guaporé, no Estado de Rondônia – Amazônia”, selecionado e agraciado pelo Prêmio Funarte Klauss Vianna de dança de 2015.

Em tal projeto, iniciado em agosto de 2016, O Imaginário realizou “imersões, pesquisas, mapeamento e intercâmbios ao longo do Vale do Guaporé” e um Encontro Cultural, no TAPIRI, sede do grupo em Porto Velho, nos dias 17, 18 e 19 de março. Nestes foi realizada uma belíssima exposição fotográfica intitulada “Uma viagem pelo Vale do Guaporé”, exibidos a vídeodança GuariterêBenguela e o documentário Quilombolas: Veias Negras do Guaporé, além de realização de rodas de conversa e uma noite de Rasqueado, dança típica pesquisada e bailada nas pesquisas junto aos quilombos. Faz-se mister notar também os deliciosos encontros culinários entre os convidados quilombolas e o público bastante diverso que frequentou o encontro.

Como convidado pude sentir bater nos sentidos os diversos tipos de danças apresentados pelo projeto. Pude constatar na exposição fotográfica, muito belamente disposta no Tapiri, que as imagens, mesmo que imóveis, também dançam. E bailam num duplo sentido: na forma que estão organizadas no espaço (seja individual e/ou coletivamente) e nas imagens que são representadas em cada fotografia. Nas figuras, o dançar congelado em cada movimento nos remete às danças dos deslocamentos dos membros nos atos de trabalho outrora realizado, aos gestos do lazer experimentado por cada indivíduo, às expressões dos sentimentos, às mudanças das águas dos rios e ao deslizar dos barcos sobre essas sagradas substâncias da mãe natureza.

Como expectador pude enxergar com os ouvidos, ouvir com os olhos,  cheirar com o paladar – cuja língua em roda-viva age gulosamente na feijoada, na vaca atolada, na caldeirada de peixe, no tambaqui frito e na paçoca (de carne no pilão) – e assistir com os corações (são dois, pois meu amor estava ao meu lado) ao imprescindível documentário  “Quilombolas: veias negras do Guaporé”, dirigido competentemente por Chicão Santos, e com belas fotografias de Raíssa Dourado, e à apaixonante videodança GuariterêBenguela, também dirigido por Chicão e com coordenação de dança de Andrea Melo e Berenice Simão. Nestes as danças se multiplicam, tal qual peixes em piracema. Contando o bailado da câmera (que pode ser lida como o piscar dos olhos do diretor) e os “fades” da edição, realizada por Michele Saraiva, cada movimento dessa piracema – composta por gestos de todos os tamanhos – comprova a tese de que a dança não se faz apenas dançando. Depoimentos de quilombolas como a da Dona Maria Waldelice (Vovozona) e de Antônia Janira Silvaterra, dentre tantos outros, resgatam as tradições culturais dos antepassados escravizados e daqueles que agora são livres, mas que correm riscos de perder suas tradições e seus lugares de vida por motivo de estratégias políticas mal articuladas e de PECs (Propostas de Emenda Constitucional), como a PEC 215, que ameaçam o imaginário e a existência de comunidades quilombolas e indígenas. A “coreografia” de Mafalda da Silva Gomes descendo o rio depois de muitos anos é uma das cenas mais emocionantes do documentário. Comovente também é a videodança de Elba Calazan, que baila banhos de rio, pesca de pescador, as plantações de mandiocas do seu pai, Rasqueado e tantas outras coreografias da vida quilombola.

Enfim, as danças quilombolas do grupo Imaginário, apresentadas por meio desse importante projeto cultural, continuam a fazer folias e criar arrasta-pés em cada um que acompanhou a programação. Mas não só: elas foram eternizadas em forma de documentos históricos nos vídeos e fotografias aqui relatados.

Era uma vez João e Maria… & ainda é

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Era uma vez João e Maria … & ainda é. Foto de Luciana Ferreira.

04 de março de 2017. Depois de um hiato teatral de três meses, e também da falta de artigos neste blog, eis que em um entardecer agradável no Parque da Cidade de Porto Velho irrompe o aconchegante espetáculo teatral “Era uma vez João e Maria… & ainda é”, do Teatro Ruante. Nesse belo espaço democrático da capital rondoniense conviveram pacificamente (e em tempos de trevas isso é admirável!) arte teatral, música gospel, rappers, skatistas, famílias, drogados, héteros, homossexuais, burgueses, brincantes, populares, trabalhadores, comunistas e fascistas.

Após esse período, em que tal grupo merecidamente também aproveitou as férias, o espetáculo, que fora estreado em dezembro do ano passado, passou por algumas notáveis mudanças: o figurino e o cenário estão mais belos; alguns objetos de cena foram aprimorados e o/a personagem “Coisa”, uma máscara popular do nordeste, ou, dependendo do uso que se faz dela em cena, um boneco habitável, está mais coloridamente vibrante. Nesse viés de mudanças, o diretor da peça, o professor Adailtom Alves, entrou na cena como ator e músico trazendo nova sonoridade e experiência para o sutil ato teatral.

Por sua vez, Selma Pavanelli, uma das fundadoras do grupo em São Paulo ao lado do marido Adailtom Alves, constitui, enquanto atriz, a espinha dorsal do divertido jogo que se vê em cena. No entanto, é assombroso observar o crescimento profissional e artístico de Bruno Selleri. Também a atuação da jovem atriz e estudante do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR Jamile Soares, que se aperfeiçoa a cada apresentação, não deixa muito a desejar em relação aos demais colegas de cena.

“Era uma vez João e Maria… & ainda é”, como aponta a sinopse do espetáculo constante no  útil material de divulgação do grupo, trata-se da “conhecida história de Hansel e Gretel, colhida pelos irmãos Grimm, e divulgada entre nós como João e Maria, [que] ganha a adaptação do Teatro Ruante pra espaços abertos. A peça conta a história de duas crianças abandonadas por seus pais na floresta, onde se deparam com A/O Coisa”.

Intriga-nos no título, porém, a expressão “& ainda é”. Qual o por quê disso? O que continua sendo em João e Maria? O que aproxima e distancia a história europeia do século XIX dos irmãos Grimm do atual momento brasileiro?

A história original de João e Maria remonta à dureza da vida na Idade Média. Por motivo da fome e da constante falta de comida, o assassinato de crianças era uma prática comum no Medievo. Nessa história os irmãos são deixados pelos pais na floresta para que morram ou sumam, porque não podem ser por eles alimentados.

Panelas vazias lá e barrigas famintas aqui. Ficção e realidade se misturam no complexo e atual vasilhame histórico do Teatro Ruante que aponta que, como na Idade Média, o maior poder de compra continua sendo das classes socialmente privilegiadas.  A manutenção do capitalismo, e consequentemente da fome, é um dos sintomas da doença do capital que segue até o nosso tempo. O/A “Coisa”, como é cantado pelos artistas ruantes, persiste em explorar a mão de obra dos pobres “João e Maria” que trabalham em troca de migalhas insuficientes para encher “seus barrigões”. Política, teatro, música e brincadeiras populares se misturam dialeticamente na encenação de Adailtom Alves para, além de nos divertir, nos fazer pensar e compartilhar sobre essas e outras questões sócio-políticas da atualidade brasileira. João, Maria, Isabela, José, Antonieta, Nazaré, Expedito, Jacinto, Joana, Ubiraci e tantos outros brasileiros batem as panelas de fome enquanto ouvimos ressoar ainda as panelas do Fora Dilma. Contudo, não se ouve nada das ricas panelas do “Coisa/Temer”. A fome persiste e gruda, enquanto a democracia voa para longe. E crianças e pensamentos continuam a serem exterminados a todo momento, espelhando-se no ocorrido da floresta dos irmãos Grimm.

Corolário: um espetáculo com temperos e aromas diversos para ser visto, ouvido, cantado e dançado no espaço da democracia por todos aqueles e aquelas que querem se emocionar enquanto desfrutam de ideias construídas artisticamente por meio de fragmentos narrativos históricos e contemporâneos à luz da tolerância e da diversidade.

Por Luciano Oliveira e Ádamo Teixeira

Cidade Grande – João Ninguém

Cidade Grande, João Ninguém - Foto de Raíssa Dourado
Cidade Grande, João Ninguém – Foto de Raíssa Dourado

Sabe-se da dificuldade de se montar um espetáculo teatral. Ainda mais complexo é criar um trabalho com muitos artistas em cena. E é ainda mais difícil quando tais artistas são estudantes. Foi assim, com muitos percalços, que os professores do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia Adailtom Alves e Alexandre Falcão encenaram “Cidade Grande – João Ninguém”, trabalho de conclusão do belíssimo curso de extensão universitária “Processos em Criação em Grupo”, neste ano de 2016.

Uma turma grande, que se iniciou com 25 alunos, instalada em uma sala pequena na UNIR Centro, em Porto Velho. Um elenco volumoso ao longo do processo de criação, que durou cerca de 7 meses, que se encerrou com 18 atores-aprendizes: discentes de graduação em teatro, estudantes diversos da UNIR, comunidade em geral, adultos e adolescentes. Heterogeneidade! Multiplicidade! Um coro de muitas vozes, pensamentos e pontos de vista!  Está instalada a diversidade, inclusive de gênero, sexualidade e religiosidade.

Dadas as diferenças, iniciou-se, após alguns meses de atividades teatrais, como jogos e exercícios cênicos de improvisação, a construção de um espetáculo a partir do complexo texto teatral “Cala a boca já morreu”, de Luís Alberto de Abreu, um dos principais dramaturgos brasileiros. Pretenção deliciosa e corajosa! Uma mistura estético-poética entre o teatro épico de Brecht e o teatro de rua, ocorrida no interior e no exterior do belo edifício da Reitoria da Unir, no centro da capital rondoniense, os professores anteriormente mencionados foram dando a tônica do espetáculo. A despeito da pouca experiência com direção desses artistas-professores, “Cidade Grande – João Ninguém” foi se desenhando delicadamente nas palavras, escorregando nas escadas, equilibrando-se nos meandros da intuição e da competência artística. O corpo de elenco, também inexperiente, com exceção do aluno-ator Almício Fernandes, colaborou, sobremaneira, para a criação dessa difícil montagem.

Enfim, a estreia e uma pequena temporada, que com um grande e diverso elenco pode ser encarada como gigante, reuniu a multiplicidade e o esforço de muitos, como do competente cenógrafo Elcias Villar. O que se vê e se ouve, ao longo de pouco mais de 60 minutos, é muito agradável e surpreendente. Também é assustador ver, já de entrada, a força com que alunas iniciantes interpretam prostitutas. Aprendizes da dolorosa e prazerosa arte teatral levarem ao público de olhares curiosos os meandros psicológicos de personagens que muito se aproximam aos de Macunaíma, de Mário de Andrade. Ou até mesmo aos de Cobra Norato, de Raul Bopp, com as andanças de Honorato e do seu companheiro tatu-de-bunda-seca em busca da branca, europeia e civilizada de olhos azuis – em contraposição aos “atrasados” brasileiros, representados pelos “bárbaros” amazônicos – Filha da Rainha Luzia. Assim é “João Ninguém”, um “Jeca-Tatu” contemporâneo, que chega à cidade grande em busca de trabalho e de melhores condições de subsistência. Mas, pobre  João, as coisas não funcionam bem assim no explorador mundo capitalista! Por meio de diversos percalços e reviravoltas surpreendentes, os nós da trama espetacular vão se desatando, e/ou se complexificando, à medida que o público se desloca pelo misterioso prédio da reitoria da Unir. E quão agradável é perceber o esforço e o talento dos atores, atrizes e músicos no desenrolar da narrativa! Surpresas muito gratas ao ver novos talentos surgindo e a consolidação do aprendizado das atrizes Danny Moschini e Sheila de Souza, além do já mencionado Almício Fernandes, que interpreta o árduo Atílio, o parceiro de aventuras de “João Ninguém”. O curso de teatro da Unir está de braços e corações abertos a todos vocês!

Para concluir o espetáculo, já no interior da Sala do Piano, um coro lindíssimo de 18 vozes acompanhado ao vivo em piano. O meu espírito, e olha que sou ateu, foi arrebatado. Meus poros se dilataram, a minha voz embargou, meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração palpitou de alegria ao ouvir o texto final de Abreu musicado tão belamente.

Parabéns aos alunos e muito obrigado aos professores por encerrarem com tamanha justeza a ação de extensão que integra o Programa IntegrArte do DArtes/Unir.

O barato que sai caro para a formação de público para a dança

“Espécie”, espetáculo de dança apresentado hoje no Teatro 1 do Sesc Esplanada, em Porto Velho, pelo Palco Giratório 2016, pouco acrescenta para o espectador em termos estéticos. Trabalho escuro (muito escuro!), com jogo pautado no clichê e estereótipo, equivoca-se em vários sentidos: na iluminação, na coreografia, na direção e também na dramaturgia. É uma pena sair de um belíssimo espetáculo de circo, “Circo do Só Eu”, do Barracão Teatro, e ver a alegria ir embora nessa infeliz montagem.

-“Ah, mas o bailarino é tão bonito e imita (mimesis) tão bem um gorila!”, podem dizer. Mas só isso não basta. Não queiram ludibriar os espectadores com golpes baixos. A plateia não é ingênua!

Enfim, trata-se do barato (trazer arte para Rondônia não é coisa simples) que sai caro: a expulsão eterna dos espectadores dos palcos da dança.

Um alento dos espetáculos de dança até agora apresentados é o magistral “A Projetista”, de Dudude Herrmann.

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