Amadurecer para crescer / Bem pagar para receber

Na cena teatral de Porto Velho impressiona-me bastante a procura exagerada de alguns grupos, produtores e diretores por editais de financiamento de montagem de espetáculos teatrais.  Tudo bem que não há lei de fomento na cidade. Tampouco no Estado de Rondônia.

Numa cidade coberta por buracos e capim sabemos da dificuldade de se montar um trabalho artístico com verba pública (oriunda dos caixas estadual e municipal). Utópico é o desejo de autofinanciamento

Daí para a busca desenfreada por editais (tal como Myriam Muniz) é um passo. Que bom que existem tais editais e prêmios que contemplem as produções porto-velhenses. O problema não reside exatamente aí, mas na disparada enlouquecida de certos grupos, produtores e diretores às “Minas do Rei Salomão”. O quantitativo sobrepõe-se ao qualitativo. Em outros termos, o quanto se recebe é mais importante que a qualidade dos trabalhos que o público assistirá. Assim, não há tempo (e/ou interesse?) para o amadurecimento dos espetáculos montados a partir do financiamento via editais, pois, corre-se para não perder o próximo cavalo.  E isso tornar-se-ia um paradoxo se não fosse a contradição.

Por que não pesquisar a fundo um trabalho contemplado num edital – com tempo, qualidade e ética artística – para produzir um espetáculo minimamente bom que poderá ser convidado a participar de festivais e de novas premiações? Ademais de poder ser inscrito na categoria circulação? Um bom trabalho teatral leva tempo para ser montado. E mais tempo ainda para amadurecer, pois, o contato com o público, com a crítica (quase inexistente em Porto Velho), com demais artistas e, acima de tudo, com a sensibilidade estética e intelectual faz-nos refletir sobre a qualidade dos nossos trabalhos. Entre achar que é bom e ser bom há um abismo! Que tipo de estética teatral queremos que o carente público de Porto velho e região tenha para si? Que referências? Precisamos discutir isso com ética e verdade nos debates. Mas que debates? Obviamente, não podemos generalizar, haja vista existirem trabalhos de qualidade artística na cena local. Contudo, há uma corrente de produção que ilustra exatamente o que se apresenta neste texto.

Outro problema grave é o quanto tal corrente está pagando aos artistas locais. Muito mal, pelo que me consta. O teatro é uma arte coletiva (não estou falando aqui de processo de criação coletiva e muito menos de processo colaborativo) em que diferentes áreas comungam para o desenvolvimento de um espetáculo. Logo, todos os envolvidos no projeto devem receber dignamente pelos seus trabalhos. Sabemos das especificidades do trabalho de um produtor e de um diretor, por exemplo. Todavia, a discrepância salarial não é ética, moral e legal.

Analisemos o caso dos atores e atrizes. Sem tais profissionais não há espetáculo, não é verdade? Muito bem, talvez eles não tenham participado da elaboração (escrita) do projeto, mas laboram diariamente nos ensaios, horas a fio, para alcançarem uma qualidade artística. Pelas leis trabalhistas precisam de contratos que rezem as especificidades de suas funções, bem como de suas remunerações. Sejam elas cachês, diárias, mensais, pacotes de cachês com diárias, etc., é legal que estejam bem especificadas, claras, nítidas e límpidas (para ser redundante e preciso no meu pensamento). O ator come, bebe, paga passagens de ônibus, aluguéis de sua residência, conta de água, luz e assim por diante. É um profissional como outro e precisa ser tratado com respeito e dignidade. Em sua remuneração devem constar valores, além do salário por assim dizer, para quitar parte destes gastos. É inadmissível um ator receber uma miséria para três meses de projeto. Não são apenas três meses de trabalho: é uma vida dedicada ao aprendizado de técnicas, de linguagens, de poéticas… O ator em processo de ensaio respira, 24 horas, a sua criação. Pensa, come, dorme, sonha, decora, canta, balbucia, enlouquece a sua personagem. Certos artistas da cena adoecem, se estressam, reprovam nas universidades e vão parar no hospital em honra ao seu trabalho. Por que não valorizá-los? Até quando continuarão os interesses pessoais em Porto Velho?

E, ao que parece, estes interesses se estendem, como os braços de um polvo monstruoso, a todos os cantos desta quente e sofrida cidade.

Feliz 2015 a todos (as)! Muito $uce$$o e amadurecimento artístico no ano vindouro!

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2 comentários em “Amadurecer para crescer / Bem pagar para receber

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