Críticos estúpidos e mordazes! Minas Gerais e o Norte contra o “eixo do mal”

Este texto é uma tentativa de respostas à algumas perguntas que fiz a respeito da crítica do jornalista carioca Mauro Ferreira, publicada hoje no G1, sobre o novo álbum da cantora Fernanda Takai intitulado “Será que você vai acreditar?”, cujo lançamento aconteceu ontem (10/07/2020) nas principais plataformas digitais, como o Spotify e o Youtube.

Não ficarei aqui discorrendo detalhadamente sobre cada música, numa tentativa de interpretá-las, pois muitos textos desse tipo já foram escritos por jornalistas nos últimos dois dias.

O que me incomodou na crítica do Mauro Ferreira não é a nota dada por ele ao álbum (* * * 1/2), mas sim o fato do seu texto me parecer ser mais uma tentativa, dentre muitas, de imposição de regras ingênuas e mercadológicas à produção artística contemporânea (ou pós-moderna).

Como artista periférico e professor de uma universidade periférica, de Rondônia, com a maior parte da minha formação artístico-acadêmica ocorrendo em cidades e universidades fora do eixo Rio-São Paulo, sempre senti na pele o desdém e a descrença pelo meu trabalho. E, de certa forma, isso parece ser um espinho em minha trajetória profissional, haja vista todas as dificuldades que passei para alcançar os lugares que ocupo e os papéis sociais que exerço.

Muito bem, como professor-artista, na área de teatro, tento orientar os meus alunos-artistas para trilharem um caminho liberto das caixas e amarras estético-estilísticas e de gêneros. Ou seja, para que criem suas artes dos modos e formas que quiserem – desde que se debrucem em realizar o trabalho com sensatez e da maneira mais ética e responsável socialmente. Na Universidade Federal de Ouro Preto, quando cursei Direção Teatral, fui educado desse jeito; o que pode produzir um certo medo pelo fato de o educando não saber muito bem para onde ir ou como começar. Todavia, isso é libertador.

Ao sair da universidade e começar a navegar pelos difíceis mares do mundo profissional, comecei a me defrontar com os vomitadores de regras, inclusive nas instituições do sudeste em que eu tentei ingressar no mestrado e no doutorado. E onde fui eu conseguir ser livre e realizar a pesquisa que eu queria? Justamente num lugar completamente fora do eixo, mas de uma beleza incrível e com uma população acolhedora e aconchegante: Florianópolis. Lá na longínqua (isso, obviamente, dependendo de onde se olha) e maravilhosa Universidade do Estado de Santa Catarina. Quantas saudades!

Até aqui parece que estou girando atrás do meu próprio rabo, mas os atentos leitores entenderão onde eu quero chegar.

Periférico que sou, desde a adolescência, sempre tive as minhas quedas pelas produções artísticas e manifestações culturais que não pretendiam ser “as melhores, as maiores, as mais bonitas, as mais visitadas, as mais tocadas nas rádios, as que mais atraíam público aos teatros e as que davam mais audiência para os programas de televisão”. Sendo assim, os meus gostos começaram a tornar-se esquisitos, inclusive musicalmente. Logo, apaixonei-me, por exemplo, pelo Pato Fu e pela Fernanda Takai. Isso, em 1992, quando no Brasil a axé music, o pagode, o funk e a música sertaneja começavam a ocupar cada vez mais espaço na mídia. Eu, um rapaz gordo, pobre, nerd, tímido, usando óculos vermelhos doados pela prefeitura, de voz fina e afeminado – e que sofria todo tipo de bulling – era considerado estranho. Pelos meus gostos e práticas comecei a ser rejeitado.

Há 28 anos ouço Pato Fu e Fernanda Takai. E outras muitas bandas e cantores taxados pelos críticos apenas como fofos ou excêntricos. Aprendi a reconhecer os rifes da guitarra de John Ulhoa, a discernir os graves do baixo do Ricardo Koctus, a não misturar os ritmos ensandecidos da bateria furiosa de Xande Tamietti (e, mais tarde, de Glauco Mendes), a não confundir a voz de Fernanda Takai com a de Adriana Calcanhotto (que, aliás, também adoro), etc. Os estilos de cada membro que já passou por essa banda independente, e que ainda continua a tocar e cantar com ela, bem como com a banda da carreira solo de Fernanda Takai, eu sou capaz de reconhecer. E, como fã, leitor fervoroso de críticas e resenhas, artista, já entendi que tanto a banda quanto a cantora não podem (e não devem) ser encaixados em determinados gêneros musicais. Correndo aqui o risco de reduzir a sua vasta produção musical, que vai da criação de trilha sonora para espetáculo de bonecos (do Giramundo) até canções compostas e/ou regravadas para filmes e novelas, poder-se-ia dizer que o ecletismo e o hibridismo (duas das muitas características da arte contemporânea) são ferramentas de trabalho para Fernanda Takai e o Pato Fu.

Detendo-me mais agora à crítica do jornalista Mauro Ferreira, eis o comentário que escrevi lá na matéria publicada no G1:

Crítica por deveras tendenciosa! Não basta ser jornalista para escrever sobre arte. A sensação que tenho, enquanto artista, é que escritos desse tipo soam como ditadura de regras. As escolhas dos artistas devem, antes de qualquer coisa, serem respeitadas. Goste o crítico ou não!

(https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2020/07/11/fernanda-takai-expoe-dilemas-do-mundo-atual-em-album-solo-que-cresce-nas-musicas-ineditas.ghtml)

E o que mais me incomodou nos escritos desse jornalista? Vejamos alguns trechos da crítica estúpida e mordaz de Mauro Ferreira:

O álbum de Takai resulta mais relevante quando a cantora expõe questões, melancolias e dilemas surgidos nesse momento turbulento atravessado pela humanidade. (…) as duas ótimas primeiras músicas do álbum – Terra plana (outra canção de John Ulhoa) e Não esqueça, título inédito em disco do cancioneiro do compositor gaúcho Nico Nicolaiewsky (1957 – 2014) – sinalizaram álbum alinhado com os dias de hoje (…). Nesse sentido, em que pese a aura “música de brinquedo” da faixa, a recriação fofa de One day in your life (Sam Brown III e Renée Armand, 1975), sucesso na voz do cantor Michael Jackson (1958 – 2009), se alinha com o tom do disco. (…) A questão é que nem todas as faixas do álbum Será que você vai acreditarse afinam com o espírito do disco. É inacreditável que, quase ao fim do álbum, apareça festiva faixa bilíngue, em português-japonês, de clima dance-pop-disco, Love song, gravada por Takai com Maki Nomiya, cantora japonesa revelada como integrante do duo Pizzicato Five (1985 – 2001). (…) E o que ninguém talvez vá dizer é que, nesse mosaico delicado de sentimentos, a regravação de Love is a losing game (Amy Winehouse, 2006), em clima de bossa eletrônica, funciona como lance errado de Takai em jogo de azar. Takai pode ter acertado ao baixar os tons de One day in your life, mas dilui toda a intensidade da balada de Amy Winehouse (1983 – 2011), cujo repertório perde a veemência se for cantado por intérpretes sem vozes incandescentes. (…) É também curioso notar que Takai se sai melhor nas músicas inéditas. (…) Tivesse resistido mais à tentação de abordar sucessos alheios, a cantora talvez estivesse apresentando um grande álbum solo (…). (Negritos meus).

(https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2020/07/11/fernanda-takai-expoe-dilemas-do-mundo-atual-em-album-solo-que-cresce-nas-musicas-ineditas.ghtml)

O crítico, que parece ter visão limitada sobre música e sentimentos, pois “suele” desconhecer as poéticas da arte e da vida, tenta reduzir a relevância do álbum apenas às “melancolias e dilemas” criados pela pandemia de coronavírus. Como se, neste período – difícil, é claro! – tudo se resumisse a melancolias e dilemas. É como se ninguém se divertisse ficando em casa; ou como se ninguém pudesse amar, à distância, aquela que está do outro lado do oceano, festejando alegremente com a amiga um encontro musical português-japonês. Sim, cara pálida, é crível que coisas maravilhosas aconteçam em momentos de guerra, porque somos humanos, seres paradoxalmente complexos e esquisitos.

Mauro Ferreira, Será que você vai acreditar? soa como um “metaalbum”, em que dois ou três álbuns diferentes rodopiam dentro de um único eixo. Isso quer dizer que esse trabalho não é só pop-rock, ou rock, ou mpb, ou bossa nova, ou música eletrônica; é mais um trabalho, dentre muitos da cantora, em que os gêneros são chacoalhados no seu (e do John Ulhoa também) divertidíssimo “liquidificador estilístico” (o conceito é meu, tirado do meu primeiro livro). E pasme, até trilha sonora de espetáculo teatral (Who are you?) tem nesse álbum. Duvido que o senhor sabia disso! Ou se sabia, não se lembrava, talvez por não ter conseguido digerir o enlouquecedor espetáculo Alice no País das Maravilhas do Giramundo Teatro de Bonecos, cuja paisagem sonora é executada, ao vivo, pelo Pato Fu.

Sobre o que apontou como sendo uma “recriação fofa”, parece-me mais uma incapacidade sua de achar as palavras ou categorias adequadas para a versão que o casal John Ulhoa e Fernanda Takai fizeram para a canção de Michael Jackson.

Quanto a dizer que Takai “dilui toda a intensidade da balada de Amy Winehouse, cujo repertório perde a veemência se for cantado por intérpretes sem vozes incandescentes” (idem), é o mesmo que dizer que para cantar as canções dessa talentosíssima cantora inglesa, somente as cantoras com timbres e extensões vocais parecidas à dela o podem fazer. Mais uma ingenuidade do seu cérebro-caixinha!

Essa passagem da crítica do Mauro me fez lembrar de um momento em que eu resolvi inscrever o espetáculo teatral Inimigos do Povo, dirigido por mim, no edital “A Ponte” do Itaú Cultural, de São Paulo. A proposta da Trupe dos Conspiradores, bem como todas as outras dos alunos e professores do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, foi rejeitada pela comissão de análise. Até aí tudo bem, pois não ser aprovado em um edital cultural é algo muito comum para qualquer grupo de teatro. O problema é descobrir que esse espetáculo não foi selecionado porque nós da Amazônia não podemos montar Ibsen, ou Shakespeare, ou Brecht; visto que estamos fadados a falar somente sobre a floresta, sobre nossa fauna, nossos mitos e nossas mazelas. Porém, um grupo paulistano famoso – ligado à poderosa USP – vir fazer pesquisa de campo numa tribo do Acre para montar o seu espetáculo de temática indígeno-amazônica é algo bastante natural. Os “lá de baixo” (Rio-São Paulo) podem fazer qualquer coisa, haja vista intitularem-se como o centro difusor da arte, do pensamento e do imaginário da nação. Agora, nós “aqui de cima” somos apenas mais uma parte da imensa periferia excluída dos holofotes do eixo.

É importante lembrar que Fernanda Takai é “aqui de cima”, nascida em Serra do Navio, no Amapá. E, apesar de Minas Gerais, onde ela reside desde criança, estar na região sudeste, aos olhos do eixo do mal (expressão muito recorrente no universo do futebol mineiro), esse montanhoso estado bandeia-se mais para cá do que para lá. E eu não me envergonho, em hipótese nenhuma, disso. Recordo-me, com certa incerteza, de um repórter perguntar para Fernanda o por quê de o Pato Fu ter escolhido Belo Horizonte como sede da banda e não São Paulo ou Rio de Janeiro. Segundo tal repórter, esse grupo musical poderia fazer mais sucesso nessas cidades, porque elas são a referência da produção cultural do Brasil. É claro – sem o intuito de generalizações, até porque conheço boas exceções -, que esse pensamento comumente reflete-se no desequilibrado sistema de premiações dos editais, espelha-se nas críticas publicadas, representa-se no mundo das ideias e interfere, inclusive, na distribuição desigual das cotas de transmissão televisiva para os clubes futebolísticos brasileiros. Foi assim que a Rede Globo criou o monstro chamado Flamengo e conseguiu ser uma das grandes causadoras do Golpe de 2016. A criatura voltou-se contra a criadora, vide Bolsonaro na presidência e a negativa desse clube quanto à transmissão dos seus jogos por esse canal.

Também cai mal o arranjo eletrônico que embota as intenções da canção O que ninguém diz, parceria (já em si pouco sedutora) de Takai com o poeta Climério”. Esse é outro trecho deselegante da crítica de Mauro Ferreira que desvaloriza (para não dizer outra coisa!) a criação artística do poeta piauense Climério Ferreira. O que será que o crítico quis dizer com pouco sedutora? Será que se a parceria de Fernanda Takai fosse com um poeta do eixo ela seria atraente?

Prezado Mauro, quantos cantores e cantoras já regravaram e se “aproveitaram” dos “sucessos alheios” em suas carreiras? Que pensamento mais atrasado é esse de originalidade? Voltamos a viver no século XIX ou nos primórdios do século XX? O que é ser original na pós-modernidade? Uma nova roupagem, ou releitura de um trabalho já existente, não é original porque alguém já o fez? Se fosse assim, nenhum diretor de teatro poderia mais montar Hamlet, porque, ao redor do mundo, esse belíssimo texto shakesperiano já foi usado centenas ou milhares de vezes em trabalhos teatrais. A originalidade na montagem do Hamlet reside justamente nas escolhas, individuais, que cada artista faz para abordar a peça de Shakespeare. Ora, segundo suas palavras, e suas falsas verdades, cantar as músicas de Michael Jackson, de Amy Winehouse ou até mesmo do espírito-santense Paulo Sérgio não é original, porque fulano, beltrano ou ciclano já o fizeram antes ou melhor? Quanta bobagem e crueldade nessas palavras. Falta ao senhor a experiência da criação, dos ensaios, dos shows, das turnês e circulações. Se soubesse o quanto é difícil e árduo o trabalho criativo, “será que o senhor iria acreditar?” nas suas próprias palavras?

Por fim, importa mencionar, que compor um CD todo igual, sempre com o “mesmo espírito”, é tarefa para os sertanejos universitários, os sofrentes, os funkeiros e os religiosos.

Fonte da Imagem: Capa do álbum ‘Será que você vai acreditar?’, de Fernanda Takai — Arte de Renato Larini

Tabule

TABULE

Por Jussara Trindade

O espetáculo solo “Tabule”, apresentado no Teatro Guaporé no dia 26/11 como encerramento da II Mostra de Encenações do Dartes/UNIR, foi uma verdadeira aula de Teatro!

Em 50 minutos de magia e realidade misturados com rara maestria cênica, o ator Júnior Lopes nos (re)ensinou o que os estudos teatrais da atualidade definem como “encenação”, “atuação”, “gestualidade”, “iluminação”, “cenografia”, “figurino”, “caracterização”, “música de cena”, “texto”, “corpo”, “voz” e tantas outras coisas estudadas e praticadas anos a fio por aqueles que se entregam à dor e à delícia (como diria Caetano Veloso) de contar, poeticamente, uma história a alguém.  

E esse alguém – nós, os chamados “espectadores” – assistimos sim, mas, sobretudo, vibramos intensamente a cada peripécia vivida pela protagonista, a libanesa Zahara. Como ator, Júnior enfrenta o desafio de viver no palco uma personagem feminina; desafio a mais dessa arte milenar que mistura ingredientes díspares como dor e alegria, graça e pesar, ficção e fantasia, inspiração e técnica.

Um homem interpretar uma mulher não é coisa contemporânea… Até recentemente na história do Teatro, a proibição de a mulher apresentar-se em público se fez presente nas mais distintas culturas, do Extremo Oriente ao Novo Mundo. Cabia a esses atores levar para a cena não apenas os trajes, os gestos, as vozes das mulheres de seus tempos mas, principalmente, aqueles seus dons de iludir (Valha-me, Caetano!) que sempre fez da mulher, no imaginário masculino, um ser ao mesmo tempo nefasto e divino. Um ser maravilhoso, entre a serpente e a estrela – canta Zé Ramalho, revelando o sentimento de impotência do homem comum em lidar com o feminino, cuja essência em geral lhe escapa.

Mas não é esse o caso em Tabule; Júnior faz a necessária tarefa de nos lembrar que, para dar vida a um personagem, não basta vestir os seus trajes ou “fazer” a sua voz. Quem gosta ou vive o Teatro acaba aprendendo que representar vai muito além da mera “representação”. De modo que, em cena, não vemos um ator representando uma mulher, mas uma muçulmana contando a sua dolorosa trajetória como se não fosse assim tão dolorosa…  Cada gesto, cada palavra entoada com aquele delicioso sotaque árabe – reconhecido na fala de inúmeros imigrantes que todos nós conhecemos por este Brasil afora – é a pura presença do Feminino, não só em forma, mas principalmente em conteúdo. Os elementos de dança do ventre que o ator executa em cena extrapolam em muito o desempenho das complexas técnicas de movimento dessa arte milenar (o que já seria, em si, uma façanha e tanto!), tornando-se a metáfora de cada etapa vivida com e através do próprio corpo, trazendo para nós espectadores o sentido de que o universo reside mesmo no ventre da mulher. Com tudo o que isso pode significar em termos de tristeza, alegria ou esperança. Dançamos junto com Zahara em todos os momentos em que ela se entrega ao som contagiante de sua pátria, ainda que esta lhe seja tão dura e árida quanto o deserto.

O ator mostra-nos a cada segundo o desafio que é criar em cena uma figura feminina profundamente humana cujo desabafo, embora tão verdadeiro e atual, não se permite em nenhum momento cair nas armadilhas da lamentação chorosa ou no recurso fácil da caricatura. Ao contrário, a tragédia de uma vida repleta de episódios cruéis é tratada com a espantosa naturalidade de quem vê e vive cotidianamente a violência sobre a sua pessoa, pelo simples fato de ter nascido mulher. Violência essa, naturalizada na sociedade, instituída no lar, sacralizada nas Sagradas Escrituras.

Em sua simplicidade, Zahara percebe que há algo errado com o mundo que habita. Tenta em vão encontrar, nele, algum espaço digno para si. Então, ao constatar que não existem linhas de fuga para fora dessa realidade cruel, foge enlouquecida. Em busca de um mundo que existe apenas nas “mil e uma noites”, a protagonista atravessa oceanos… de areia! Jornada desesperada de quem, à procura de um sonho de liberdade, só encontra miragens. Por isso, aonde quer que vá, mesmo em sua terra natal, Zahara é sempre uma estranha. Ilegal. Reconhecida como socialmente incapaz de arbítrio, eternamente dependente do favor do homem – seja o pai, o irmão, o marido ou o cliente num prostíbulo – só lhe resta o desejo mórbido de explodir o mundo e, junto com ele, todo o conjunto de atrocidades que bem conhece, no corpo e na alma. Ato de puro terrorismo, do qual nós, espectadores, nos tornamos cúmplices. Afinal, quem na plateia – homem ou mulher – não seria capaz de reconhecer na fantasia de “vir para o Brasil, onde não existe violência contra a mulher”, sua própria imagem refletida ironicamente nesse jogo de espelhos?

Porto Velho, 28/11/2018

O barato que sai caro para a formação de público para a dança

“Espécie”, espetáculo de dança apresentado hoje no Teatro 1 do Sesc Esplanada, em Porto Velho, pelo Palco Giratório 2016, pouco acrescenta para o espectador em termos estéticos. Trabalho escuro (muito escuro!), com jogo pautado no clichê e estereótipo, equivoca-se em vários sentidos: na iluminação, na coreografia, na direção e também na dramaturgia. É uma pena sair de um belíssimo espetáculo de circo, “Circo do Só Eu”, do Barracão Teatro, e ver a alegria ir embora nessa infeliz montagem.

-“Ah, mas o bailarino é tão bonito e imita (mimesis) tão bem um gorila!”, podem dizer. Mas só isso não basta. Não queiram ludibriar os espectadores com golpes baixos. A plateia não é ingênua!

Enfim, trata-se do barato (trazer arte para Rondônia não é coisa simples) que sai caro: a expulsão eterna dos espectadores dos palcos da dança.

Um alento dos espetáculos de dança até agora apresentados é o magistral “A Projetista”, de Dudude Herrmann.

Amadurecer para crescer / Bem pagar para receber

Na cena teatral de Porto Velho impressiona-me bastante a procura exagerada de alguns grupos, produtores e diretores por editais de financiamento de montagem de espetáculos teatrais.  Tudo bem que não há lei de fomento na cidade. Tampouco no Estado de Rondônia.

Numa cidade coberta por buracos e capim sabemos da dificuldade de se montar um trabalho artístico com verba pública (oriunda dos caixas estadual e municipal). Utópico é o desejo de autofinanciamento

Daí para a busca desenfreada por editais (tal como Myriam Muniz) é um passo. Que bom que existem tais editais e prêmios que contemplem as produções porto-velhenses. O problema não reside exatamente aí, mas na disparada enlouquecida de certos grupos, produtores e diretores às “Minas do Rei Salomão”. O quantitativo sobrepõe-se ao qualitativo. Em outros termos, o quanto se recebe é mais importante que a qualidade dos trabalhos que o público assistirá. Assim, não há tempo (e/ou interesse?) para o amadurecimento dos espetáculos montados a partir do financiamento via editais, pois, corre-se para não perder o próximo cavalo.  E isso tornar-se-ia um paradoxo se não fosse a contradição.

Por que não pesquisar a fundo um trabalho contemplado num edital – com tempo, qualidade e ética artística – para produzir um espetáculo minimamente bom que poderá ser convidado a participar de festivais e de novas premiações? Ademais de poder ser inscrito na categoria circulação? Um bom trabalho teatral leva tempo para ser montado. E mais tempo ainda para amadurecer, pois, o contato com o público, com a crítica (quase inexistente em Porto Velho), com demais artistas e, acima de tudo, com a sensibilidade estética e intelectual faz-nos refletir sobre a qualidade dos nossos trabalhos. Entre achar que é bom e ser bom há um abismo! Que tipo de estética teatral queremos que o carente público de Porto velho e região tenha para si? Que referências? Precisamos discutir isso com ética e verdade nos debates. Mas que debates? Obviamente, não podemos generalizar, haja vista existirem trabalhos de qualidade artística na cena local. Contudo, há uma corrente de produção que ilustra exatamente o que se apresenta neste texto.

Outro problema grave é o quanto tal corrente está pagando aos artistas locais. Muito mal, pelo que me consta. O teatro é uma arte coletiva (não estou falando aqui de processo de criação coletiva e muito menos de processo colaborativo) em que diferentes áreas comungam para o desenvolvimento de um espetáculo. Logo, todos os envolvidos no projeto devem receber dignamente pelos seus trabalhos. Sabemos das especificidades do trabalho de um produtor e de um diretor, por exemplo. Todavia, a discrepância salarial não é ética, moral e legal.

Analisemos o caso dos atores e atrizes. Sem tais profissionais não há espetáculo, não é verdade? Muito bem, talvez eles não tenham participado da elaboração (escrita) do projeto, mas laboram diariamente nos ensaios, horas a fio, para alcançarem uma qualidade artística. Pelas leis trabalhistas precisam de contratos que rezem as especificidades de suas funções, bem como de suas remunerações. Sejam elas cachês, diárias, mensais, pacotes de cachês com diárias, etc., é legal que estejam bem especificadas, claras, nítidas e límpidas (para ser redundante e preciso no meu pensamento). O ator come, bebe, paga passagens de ônibus, aluguéis de sua residência, conta de água, luz e assim por diante. É um profissional como outro e precisa ser tratado com respeito e dignidade. Em sua remuneração devem constar valores, além do salário por assim dizer, para quitar parte destes gastos. É inadmissível um ator receber uma miséria para três meses de projeto. Não são apenas três meses de trabalho: é uma vida dedicada ao aprendizado de técnicas, de linguagens, de poéticas… O ator em processo de ensaio respira, 24 horas, a sua criação. Pensa, come, dorme, sonha, decora, canta, balbucia, enlouquece a sua personagem. Certos artistas da cena adoecem, se estressam, reprovam nas universidades e vão parar no hospital em honra ao seu trabalho. Por que não valorizá-los? Até quando continuarão os interesses pessoais em Porto Velho?

E, ao que parece, estes interesses se estendem, como os braços de um polvo monstruoso, a todos os cantos desta quente e sofrida cidade.

Feliz 2015 a todos (as)! Muito $uce$$o e amadurecimento artístico no ano vindouro!

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