Breve Histórico do Giramundo Teatro de Bonecos

Pinocchio
Pinocchio – Foto de Pedro Motta

Artigo publicado nos anais eletrônicos da Memória ABRACE Digital (ISSN: 2176-9516), em virtude da VII Reunião Científica da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas (ABRACE)

 Disponível em: <http://www.portalabrace.org/memoria/viireuniaoteatrobrasileiro.htm>. Acesso em 06/05/2014.

 

OLIVEIRA, Luciano. Breve Histórico do Giramundo Teatro de Bonecos. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina; CAPES; bolsista de Doutorado; Prof. Dr. José Ronaldo Faleiro. Diretor, ator, professor e produtor de Teatro.

 

RESUMO

 

Este artigo é um subitem do primeiro capítulo da dissertação Representações Culturais no Giramundo Teatro de Bonecos: um olhar de Brincante sobre os textos, personagens e trilhas sonoras de Um Baú de Fundo Fundo, Cobra Norato e Os Orixás; defendida, em 2010, na UDESC. O Giramundo, importante grupo brasileiro de Teatro de Animação, foi fundado no final da década de 1960, na cidade de Lagoa Santa, Minas Gerais, pelos artistas plásticos Álvaro Apocalypse, Teresinha Veloso e Maria Vivacqua Martins e também professores da Escola de Belas Artes (EBA) da UFMG. Desde 1976, o grupo encontra-se sediado em Belo Horizonte. Com 44 anos de existência, já montou 36 espetáculos, destacando-se, dentre outros, o Cobra Norato (1979), espetáculo ganhador de vários prêmios e que representou o Brasil em inúmeros festivais internacionais de teatro.

 

Palavras-chave: Escola Giramundo. Museu Giramundo. Teatro Giramundo.

 

ABSTRACT

 

This article is a subitem of the first chapter of the dissertation “Representações Culturais no Giramundo Teatro de Bonecos: um olhar de Brincante sobre os textos, personagens e trilhas sonoras de Um Baú de Fundo Fundo, Cobra Norato e Os Orixás”; defended, in 2010, at the “Universidade do Estado de Santa Catarina”. The “Giramundo”, a important Brazilian group of Animation Theater, created in the late 1960s, in Lagoa Santa city, Minas Gerais state, by plastic artists Álvaro Apocalypse, Teresinha Veloso and Maria Vivacqua Martins and also professors of the School of Fine Arts of “Universidade Federal de Minas Gerais” (UFMG). Since 1976, the group is headquartered in Belo Horizonte city. With 44 years of existence, has already set up 36 spectacles, highlighting, among others, the “Cobra Norato” (1979), spectacle that won numerous awards and represented Brazil in several international theater festivals.

Keywords: School Giramundo. Museum Giramundo. Theatre Giramundo.

As primeiras incursões do Giramundo ocorreram nos idos da década de 1960, em Lagoa Santa, Minas Gerais. Pelas mãos firmes que seguram os remos, pelas bússolas e pelos astrolábios mágicos dos “remadores”, artistas plásticos e professores da Escola de Belas Artes (EBA) da UFMG, Álvaro Apocalypse (nascido em 1937 e falecido em 2003), Tereza  Apocalypse (nascida em 1936 e falecida também em 2003) e Maria Vivacqua Martins (nascida em 1945), a Madu, o Giramundo começou a navegar.

Segundo Malafaia (2006) o Giramundo sempre esteve ligado ao trabalho e pensamento de Álvaro: artista plástico, ilustrador, diretor de teatro, cenógrafo, professor, muralista, museólogo e publicitário. Entretanto, ao lado desse grande artista, nascido na mineira Ouro Fino, sem cessar — e incondicionalmente — estiveram Tereza Apocalypse, a sua eterna e amada esposa, e Madu, “filha adotiva”, oriunda da EBA.

Para Apocalypse (1981), o Giramundo nasceu da ideia de se estudar o teatro de bonecos como linguagem cênico-visual, ou seja, como maneira de se pesquisar a forma em movimento.

Quanto ao lugar onde o grupo inicialmente lançou âncoras, foi numa casa de campo em Lagoa Santa. Ali também ficava a oficina onde foram produzidos os primeiros bonecos, ainda toscos, da companhia. De acordo com Sampaio (2001), os recursos eram mínimos: martelo, serrote, arame, prego, papel, cola, madeira e retalhos de tecidos. Contudo, pelo que parece, todas as coisas eram feitas com muito entusiasmo. Isso, durante os sábados e domingos, haja vista as atividades semanais da tríade na EBA, em Belo Horizonte. Conforme Malafaia (2006, p. 183), os bonecos, ou melhor, as “cabeças espetadas em cabos de vassouras”, se misturavam aos filhos e sobrinhos da família, plateia primeira do que viria a ser um dos mais importantes grupos do Teatro de Animação brasileiro.

Desse modo, sem maiores pretensões, começavam as descobertas iniciais do barquinho que conquistaria mares inimagináveis: “Queríamos apenas divertir a meninada, com uma brincadeira diferente. Mas o sucesso foi imenso, e a novidade foi passada de boca em boca. [Todos queriam ver, disse Álvaro].” (SAMPAIO, 2001, p.02).

Por meio das diversões e travessuras com aqueles bonecos rústicos, “mas, desde já com a marca que faria do Giramundo um estilo e uma referência importante no Teatro de Bonecos: o desenho que antecipa e a concepção do boneco como obra de arte” (MALAFAIA, 2006, p. 183), surgiu A Bela Adormecida, primeira montagem do grupo, estreada no Teatro Marília, em 5 de maio de 1971. Nesse mesmo ano, ela integrou a mostra Collection Brésil, Cité Internationale, em Paris. Aí começaram as excursões internacionais do Giramundo, pequena embarcação, hoje belo-horizontina, mas com alma e coração lagoassantense, que rapidamente giraria o mundo: Argentina, Uruguai, França, Bulgária, Estados Unidos, Itália, Suíça, Venezuela e assim por diante.

Até 1976 o Giramundo concentrou as suas produções na casa de campo em Lagoa Santa. Ao todo foram seis montagens: A Bela Adormecida (1971), Aventuras no Reino Negro (1972), Saci Pererê (1973), Um Baú de Fundo Fundo (1975), A Bela Adormecida (remontagem de 1976) e El Retablo de Maese Pedro (1976). Essa fase, chamada por Malafaia (2006) de “período Lagoa Santa”, foi de fundamental importância para a sobrevivência e para o crescimento do grupo, pois Álvaro, Tereza e Madu conseguiram desenvolver mecanismos próprios de autogestão da companhia.

Madu, em entrevista concedida a mim, contou um pouco sobre como faziam para manter o grupo naquela época:

Trabalhamos durante muitos anos sem receber nada. E o que ganhávamos, repúnhamos para o próprio grupo. Foi assim que conquistamos um acervo, holofotes… O Giramundo era independente. A gente ia se apresentar e levava a nossa tralha toda, não necessitávamos de nada do local. Até porque o teatro de bonecos estava nascendo no Brasil e era muito difícil de conseguir montar um espetáculo sem estar com a sua tecnologia debaixo do braço. (MARTINS, 2009, entrevista).

Além do financiamento das montagens com recursos próprios, outra característica desse período, ainda conforme Malafaia (2006), foi a aproximação de novos colaboradores ao Giramundo, principalmente a do iluminador Felício Alves.[1] Finalmente, para esse mesmo autor, a criação de textos por Álvaro — e, acrescento, por Madu —, o destaque especial dado à cultura popular brasileira e o uso de trilha sonora gravada caracterizaram os momentos consecutivos do grupo.

Em seguida, devido ao grande sucesso de El Retablo de Maese Pedro, apresentado no Festival de Inverno de Ouro Preto, promovido pela UFMG, em 1976, o Giramundo foi convidado a instalar sua oficina em espaço anexo à EBA. Essa seria a segunda fase da trajetória do grupo, denominado por Malafaia (2006) de “período universitário”(1976-1999).O barquinho já não comportava tanta gente e tantos bonecos: era preciso expandir-se.

Madu fala um pouco sobre esse período:

Em 77 foi feito um convênio da universidade com o Giramundo que nos permitiu usar parte do nosso tempo para produzir o grupo. [Entretanto] a universidade nunca patrocinou o Giramundo, como se diz muito por aí. Mas ela nos permitiu que utilizássemos esse tempo para pesquisa e nos deu um espaço. (MARTINS, 2009, entrevista).

Durante os vinte anos em que os comandantes e fundadores do Giramundo estiveram juntos[2] na UFMG, deram vida a centenas de personagens, aprimoraram as técnicas de construção e de manipulação de formas animadas, sistematizaram métodos e produziram espetáculos de excepcional qualidade técnica, que elevaram a companhia a um patamar de excelência mundial. Muitos desses espetáculos foram aclamados pela crítica e pelo público, outros agradaram somente a crítica e, por fim, alguns contentaram apenas o público. A saber: El Retablo de Maese Pedro (1976),Cobra Norato (1978-1979), As Relações Naturais (1983), Auto das Pastorinhas (1984), O Guarani (1986), Circo Teatro Maravilha (1985), Giz (1988), O Diário (1990), A Flauta Mágica (1991), Tiradentes e Le Journal (1992), Pedro e o Lobo (1993), Antologia Mamaluca (1994), Ubu Rei (1995), Carnaval dos Animais (1996), O Guarani (remontagem – 1996), Diário de um Louco (1997), O Diário (remontagem – 1997) e A Redenção pelo Sonho (1998).

Todavia, os vinte e três anos na UFMG não foram apenas de flores e fantasias no universo dos bonecos do Giramundo. Apesar de todo prestígio, inclusive internacional, o barquinho, que havia crescido, dispunha de pouco espaço físico para atracar. Além disso, os seus marinheiros, para se deslocarem, precisavam tirar dinheiro do próprio bolso. Dessa maneira, Tereza Apocalypse desabafou: “Já quis desistir muitas vezes, é dinheiro nosso que colocamos; tenho de largar as minhas pinturas, temos de dar aulas, ir a reuniões. São 18 anos de luta, que país é este?”[3] Já Beatriz[4], filha do casal Apocalypse, que era uma das crianças que riram e se emocionaram com A Bela Adormecida no quintal da casa de campo em Lagoa Santa, disse o seguinte: “(…) ensaiávamos num cantinho da oficina, com barulho de martelo e com gente entrando. Era uma loucura! O Pedro e o Lobo foi ensaiado numa sala minúscula”. (APOCALYPSE, B, 2009).

Em 1999, subitamente, o grupo foi avisado pela UFMG da necessidade de desocupação do espaço cedido a ele. Essa notícia foi um choque, principalmente para Álvaro, um dos fundadores da EBA, que ficou extremamente decepcionado. Mas, para Madu, que na época já havia abandonado o barco, a saída de lá pode ser vista com outros olhos: “Isso foi um ponto positivo, porque o grupo cresceu muito depois que arranjou endereço próprio. E aí, os jovens também já haviam crescido. As crianças daquela época, hoje, são os membros do atual Giramundo.” (MARTINS, 2009, entrevista).

O endereço a que Madu se refere é a Avenida Silviano Brandão, localizada no bairro Floresta, em Belo Horizonte. O grupo esteve neste local até 2003, enquanto um imóvel adquirido em 1988, que hoje é sede do grupo, estava sendo reformado.

Os primeiros anos subsequentes à saída da UFMG foram muito conturbados para o grupo: faltava um lugar adequado para guardar o grande acervo de bonecos, a infraestrutura era precária e divergências de pensamentos fizeram com que alguns tripulantes abandonassem o navio. Mas a tempestade parecia passageira. Malafaia (2006) diz que no início dos anos 2000 o grupo foi salvo por pequenos contratos comerciais, exposições, vendas de espetáculos e pelo surgimento de alguns projetos. Desta forma, estava começando a terceira fase do Giramundo: o “período institucional”, caracterizado pela montagem do triângulo “museu-teatro-escola”.

Álvaro Apocalypse, preocupado, mas feliz, escreveu em seu diário sobre a inauguração do Teatro Giramundo, no dia 12 de outubro de 2000. Entretanto, meses depois, por motivos financeiros, o teatro foi fechado. Mais uma vez uma brisa fria soprou na proa da nau. Porém, para alívio e comoção de Álvaro — e creio para o de toda a sua equipe — ele anota, nas páginas envelhecidas do Diário de 2001, a data de abertura do Museu Giramundo: quarta-feira, 26 de setembro de 2001: “Dia glorioso onde um grande sonho de muitos foi realizado. (…) Uma verdadeira multidão de amigos, impossível nomear todos (…). Foi emocionante a demonstração de carinho do pessoal, muitas pessoas choraram ao me cumprimentar”. (PIVA, 2006. p. F4).

Por fim, em 2004, a Escola Giramundo, que funciona no mesmo local do museu, iniciou suas atividades por meio da Oficina Teatro de Bonecos, da qual fui aluno em 2008. Contudo, Álvaro e Tereza não puderam comemorar.

Resumindo, o barquinho de 1970 se tornou uma grande empresa de cunho artístico-educativo-cultural: organizada, produtora de projetos arrojados e com um número razoável de funcionários contratados. Incentivado pelas leis de fomento à cultura, durante as décadas de 1990 e os anos 2000, o agora naviogerou várias montagens: O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá (1999), Gira Gerais (2000), Os Orixás (2001), Miniteatro Ecológico O Aprendiz Natural (2002), Miniteatro Ecológico ­Mata Atlântica e Cerrado (2003), Pinocchio (2003), Miniteatro EcológicoJardim Botânico e Amazônia, Miniteatro EcológicoCaatinga (2006), Vinte Mil Léguas Submarinas (2007) e Aventuras de Alice no País das Maravilhas (2013).

Todavia, como nós, marinheiros e tripulantes, não somos imortais, como são os bonecos, os comandantes Álvaroe sua esposa, além de não poderem assistir às atividades da escola que tanto almejaram criar,também deixaram o filho Pinocchio órfão, à deriva, inacabado. Primeiro ela partiu, depois ele. Ambos em 2003. O nevoeiro voltou a se instalar nas engrenagens do Giramundo. Contudo, tirando força das adormecidas caldeiras, e remando contra uma maré de lágrimas, Beatriz e Adriana Apocalypse, lídimas filhas do casal que partira para as “terras-de-um-sem-fim”, somadas às energias dos companheiros de navegação, continuaram a fazer a embarcação Giramundo seguir viagem mundo a fora.

 

 REFERÊNCIAS

 

APOCALYPSE, Álvaro. Memorial (memórias recentes de um velho louco por desenho). Belo Horizonte: [s.n], 1981.

APOCALYPSE, Beatriz. A era Beatriz Apocalypse no Giramundo… Belo Horizonte, 22 de jul. de 2009. Entrevista.

GIRAMUNDO: Nem tudo é fantasia no mundo dos bonecos. Diário da Tarde. Caderno 2. Belo Horizonte: segunda-feira, 9 de maio de 1988.

MALAFAIA, Marcos. Giramundo: Memórias de um teatro de bonecos. In: Móin-Móin: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas. Jaraguá do Sul: SCAR/UDESC, ano 2, v. 2, 2006.

MARTINS, Maria do Carmo Vivacqua (MADU). Processos criativos, cultura, identidade e nacionalismo em Um Baú de Fundo Fundo e em Cobra Norato. Lagoa Santa, 25 de jul. de 2009. Entrevista.

OLIVEIRA, Luciano Flávio de. Representações Culturais no Giramundo Teatro de Bonecos… 2010. 192 p. Dissertação (Mestrado em Teatro) – Centro de Artes, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

PIVA, Soraia. Intervenção de Soraia Piva sobre ilustrações de Álvaro Apocalypse.O Tempo. Belo Horizonte: Domingo, 23 de abril de 2006. Magazine, p. F4.

SAMPAIO, Márcio.Giramundo Teatro de Bonecos. In: Giramundo Teatro de Bonecos. Coordenação de projeto de Fernando Pedro e Marília Andrés Ribeiro. Belo Horizonte: C/Arte Projetos Culturais, 2001. CD-ROM, 1 unidade  física.

_____________

NOTAS:

[1] Felício Alves, além de iluminador é cenotécnico. Em meados de 1970 foi chamado pelo Giramundo para trabalhar na montagem de Um Baú de Fundo Fundo. A partir daí realizou dezenas de trabalhos com o grupo.

[2] Madu saiu do Giramundo em 1996, mas ainda hoje presta serviços à companhia, fazendo restaurações dos bonecos e construindo objetos de cena para os espetáculos.

[3] GIRAMUNDO: Nem tudo é fantasia no mundo dos bonecos. Diário da Tarde. Caderno 2. Belo Horizonte: segunda-feira, 9 de maio de 1988.

[4] Beatriz Apocalypse nasceu em Belo Horizonte, em 13 de fevereiro de 1969. Ela herdou algumas das funções dos pais, entrando no Giramundo em novembro de 1985.

 

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