Site de Luciano Oliveira, encenador, ator, professor e produtor de teatro
Autor: lucianodiretor
Luciano Oliveira, 44 anos. Encenador, ator, produtor e professor de teatro. Docente do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Pós-doutorando no "Programa de Posdoctorado en Ciencias Humanas y Sociales" da "Facultad de Filosofía y Letras" da "Universidad de Buenos Aires" (UBA). Doutor e Mestre em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC); Especialista em História da Cultura e da Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bacharel em Artes Cênicas - ênfase em Direção Teatral - pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
“Espécie”, espetáculo de dança apresentado hoje no Teatro 1 do Sesc Esplanada, em Porto Velho, pelo Palco Giratório 2016, pouco acrescenta para o espectador em termos estéticos. Trabalho escuro (muito escuro!), com jogo pautado no clichê e estereótipo, equivoca-se em vários sentidos: na iluminação, na coreografia, na direção e também na dramaturgia. É uma pena sair de um belíssimo espetáculo de circo, “Circo do Só Eu”, do Barracão Teatro, e ver a alegria ir embora nessa infeliz montagem.
-“Ah, mas o bailarino é tão bonito e imita (mimesis) tão bem um gorila!”, podem dizer. Mas só isso não basta. Não queiram ludibriar os espectadores com golpes baixos. A plateia não é ingênua!
Enfim, trata-se do barato (trazer arte para Rondônia não é coisa simples) que sai caro: a expulsão eterna dos espectadores dos palcos da dança.
Um alento dos espetáculos de dança até agora apresentados é o magistral “A Projetista”, de Dudude Herrmann.
É com muito prazer que lhes escrevo para relatar minha emoção em ler o livro “Cartas pra elas: uma história de vida”.
Porém, antes, gostaria de me apresentar a você, Dulce.
Meu nome é Luciano Oliveira e sou irmão de Carlos Oliveira, esposo de Eliana. Logo, esta é a minha cunhada querida, da qual tenho muito orgulho. Isto pelo fato d’ela, mulher negra e pobre de um pequeno distrito do interior de Minas Gerais, ser a primeira pós-doutora da família. E não só por causa de tão grande e merecido mérito, mas também por ela ser uma mulher, mãe, esposa e amiga incrível, tanto no sentido humano quanto no âmbito sensível e espiritual.
Como vocês e meu irmão, a minha história também é de luta e superação. Nasci em uma família pobre, de pai e mãe pouco alfabetizados. Porém, de grande sabedoria humana e de amor sobrenatural para criar com dignidade e respeito todos os nove filhos, sendo oito homens e uma única mulher. Tenho muito que agradecê-los! Mesmo sendo o caçula, fui o primeiro a terminar a graduação, em Teatro, e serei o primeiro a terminar o doutorado, também nesta área de conhecimento. Por tal motivo, por estar finalizando a minha tese, demorei tanto a ler esse excelente e emocionante livro. Estudar longe da família, em outra cidade, sendo pobre e imaturo intelectual e emocionalmente, não foi muito fácil. Passei por muitas privações, inclusive alimentares. As saudades de todos eram imensas. Mesmo agora, já sendo professor universitário em Rondônia, no Norte do Brasil, e fazendo doutorado no Sul do Brasil, com pesquisa no Sudeste, ainda preciso superar muitas adversidades, principalmente emocionais e de saúde. Estou longe da família há dezesseis anos. Por isso, perdi, e venho perdendo, muitas histórias e acontecimentos, como o crescimento do meu sobrinho Lorenzo, filho de Eliana, que vi apenas uma vez, quando era bebezinho. Enfim, não me alongarei mais nesta narrativa, pois não é o foco da minha carta.
Voltemos ao livro. Inicialmente, por desconhecer os verdadeiros fatos narrados por vocês, mesmo sabendo que Eliana ajudava uma amiga que vivia no exterior (segundo minha amada mãe uma mulher que morava no Paraguai), achei, em termos literários, tudo muito trágico e exagerado para uma personagem fictícia. Como pode tantas desgraças na vida de uma cubana que nasceu em uma família que se estruturou financeiramente em terras brasilis? “Não, não é possível, literariamente, que uma personagem sofra tanto assim!” Por que será que as escritoras estão a abordando dessa maneira? “Não basta de tanta tristeza no mundo? Deve ter um motivo pra isso”. Questionamentos estes que me incentivaram a continuar a leitura. E quão emocionante foi descobrir a verdade! Chorei muito durante a madrugada em que li a primeira carta da amiga Ana. Tive dificuldades de dormir, pois não parava de pensar no sofrimento da Maria cubana, mas que também é brasileira e venezuelana. E de tantas famílias como a dela espalhadas pelo Brasil afora, por todo o continente sul-americano, enfim, pelo mundo inteiro. Espelhei-me nesses acontecimentos e fui arremessado na memória familiar. Não gosto de lembrar das tristezas e das agruras do passado. Ademais, dói muito pensar em pessoas de bem passando por tais dificuldades e privações. Na realidade, ninguém deve sofrer isso, pois temos riquezas demais na Terra para alimentar e oferecer uma vida digna a todos os seres humanos, não importando a cor de pele, o gênero, a religião, a opção sexual, o local onde vivem, a língua que falam, etc.
Realmente, queridas amigas – permita-me chamá-la assim, Dulce, porque a considero, bem como as suas filhas e ao seu esposo, parte da nossa família -, “Cartas pra elas” é uma grande história de vida. O livro toca em questões muito sensíveis da condição humana, dentre elas a da fome, a da violência contra a mulher, a do HIV, a dos encarcerados, a dos esquecidos e abandonados pelos setores públicos, a do sofrimento das crianças, a da imigração, a do tráfico de pessoas, enfim. Gostaria muitíssimo de parabenizá-las pela iniciativa de reunir cartas tão bonitas e poderosas em um livro e de deixá-las para o futuro. Também me encantaria de convidá-las a lançarem essa obra em Porto Velho, cidade em que moro atualmente. Não sei, neste momento, como ajudá-las a fazer o lançamento aqui. Mas prometo-lhes pensar e agir com carinho para que possamos, seja com o apoio da Universidade Federal de Rondônia ou com a ajuda de outra instituição, trazê-las pra cá, com o fito de compartilhar com os rondonienses tão surpreendentes histórias.
Para finalizar, deixo o meu carinho, amor e abraços na tentativa de acalentar todos os corações sofridos.
Sábado, 16 de abril de 2016. São 21 h e 41 min. Eu, sujo, suado, fétido e descabelado estou nu, encarando com asco a tela deste computador.
Sexta-feira, 15 de abril de 2016. Eram 08 h e 08 min. Estava eu, limpo, perfumado e penteado. Na UNIR, recebo, no meu whatsApp, uma mensagema do diretor Fabiano Barros:
” – Bo dia
– Tudo bem, querido?
– Tudo
– Vamo confirmar sua apresentação no espetáculo pra amanhã às 20:30
?
– Vamos… Confirmado
Obrigado
– Pera (08:34)
Vamos lá: A Ópera do Beradeiro é um espetáculo construído sobre uma estrutura hiper realista, onde uma única pessoa participa da vivência … O espetáculo acontece em um garimpo dentro de uma Casa Draga REAL. O traslado até o local é feito de motocicleta, após isso, o partcipante terá que caminhar até o local. Há uma certa dificuldade em chegar ao local, por isso solicitamos dos participantes irem de tênis não derrapante, sem bolsas, jóias, celulares ou qualquer coisa de valor… Durante a vivência os intérpretes se dirigem de forma enfática ao espectador chegando em alguns momentos tocá-los… O retorno do espetáculo é feito da mesma maneira (de moto). Há alguma dúvida? Sendo o espetáculo feito para maiores de 18 solicito que nos mande um áudio falando seu nome completo sua idade dizendo que tem ciência de todas as etapas e características do espetáculos. e se está de acordo para que possamos confirmar sua apresentação.
– Sério que terei que andar de moto? Tenho pânico, pois quase morri num acidente. (08:41) Rs As demais questões, pra mim, sao tranquilas.
– Pois é… Vai conseguir?
– Será muito radical a moto? rs
– Não
Só o traslado
– Então eu vou, mas abraçarei firme o motoqueiro.
kkk (08:44)
– Ok
So manda o áudio
– (…………………………………………………………..).
– kkk
Amanhã às 20:30/ em frente ao palácio das artes
– Blz. (08:55)
Sábado, 16 de abril de 2016. Às 20 h e 25 min estava eu, limpo, perfumado e penteado em frente ao Palácio das Artes. Pontualmente chega o motoqueiro: de chinelo, bermuda e camisa de manga curta. Um capacete pendurado no braço direito, mochila preta nas costas. Eu pensei: “Que estranho!”. Sobre minha regata cinza, vesti uma jaqueta de couro comprada em Buenos Aires. Calça jeans de marca. Tênis Mizuno nos pés. Eu perfumado de Bulgari AqUa Amari, comprado em minha última viagem também à Argentina. (Coincidência).
O motoqueiro me dá uma encomenda para levar às costas. “Não tem drogas aqui dentro não, né?”. (Silêncio). “Fabiano te disse que eu tenho pânico de moto e que quase morri de acidente?”. “- Não”. – “Pois é, se você correr vou te abraçar!”. “- Pode abraçar se quiser!”.
Dou os meus óculos, também de marca, para o piloto segurar. Coloco o capacete suado na cabeça. Reponho meus óculos e ele dá a partida, muito lentamente. (Silêncio). O pânico toma conta de mim. Meu coração acelera. Percebo apenas um forte cheiro de cigarro. “Será este cara?”. Vamos reto, viramos à direita, depois à esquerda na Avenida dos Imigrantes. Seguimos reto. O caminho está um breu. À esquerda, um carro de polícia. Pessoas aglomeradas. Eu disse: “Aconteceu algo ali”. (Silêncio). Continuamos em linha reta até passar por debaixo da ponte que passa por cima do Rio Madeira. Cheiro insuportável de esgoto, de merda! Cruzamos alguns caminhões. Lugar escuro, triste, fétido e esburacado.
– “Chegamos”.
Um homem estranho, encostado numa pilastra de uma casa pobre, estava nos olhando. Será que vigiando? Eu, com medo, dou boa noite. Ele responde: “Boa noite!”. Entramos numa pequena mata enlameada. Um cachorro late e parte pra cima de mim. O motoqueiro o espanta. Meu coração acelera novamente. Ouvem-se ruídos de dragas sugando a riqueza do Rio Madeira.
– “Cuidado com o morro. Pise aqui para não escorregar. Desvie do ferro. Pule a corda e pise ali”.
Chegamos à draga.
– “Bata palma que você será recebido”.
Ô de casa!!! (pá-pá-pá). Surge então a primeira personagem: um menino-menina (ou um travesti?), interpretado pelo promissor Rafael Barros, me manda subir as escadas.
– “Você trouxe a encomenda?”. – “Sim”. – “E abriu pra ver o que era?” – “Não”. – “Que bom”. “-Pai, chegou o novato”. Eu era o novato que estava ali para não sei o que. Surge então, bêbado, maltrapilho, sujo e com uma garrafa de cachaça nas mãos o garimpeiro. “- Quem é você?” – “Sou o Luciano”. “Ah, sente-se aqui”. Aquele ébrio, interpretado magistralmente pelo ator Cláudio Zarco, fede: fede a cachaça, a vômito, a bosta, a cigarro, a suor, a sexo. Grotescamente ele baba, ele cospe, ele escarra, ele encara. Ele grita. Ele bate como um porco no chiqueiro. Violento, o protagonista “Beradeiro” agarra os cabelos do menino-menina (ou do travesti?) e o joga na parede de madeira. Ele, por sua vez, triste e desdenhoso, pega-me pela mão e me apresenta a “casa”. O chão estava imundo. Havia cigarros por todos os lados. De cima, vê-se o rio vermelho sendo dragado, explorado, sendo morto pelo mercúrio. Os ruídos das dragas são constantes. Será esta a ópera? Não pode ser. Mas o que tem de ópera na miséria, na imundície e na degradação humana? Ouvem-se cri-cris de grilos, coaxar de sapos. A paisagem auditiva é tão realista quanto a interpretação. Tão realista quanto a tensão que paira no ar. Meu coração acelera-se “again”. Ali eu sou o estrangeiro, o branquelo, o estranho, o novato. Naquele lugar eu sou o outro, o lado oposto da moeda de ouro. Eu sou o burguês. A pedra lapidada, o professor universitário. O funcionário público estável num espaço instável e inseguro. Espaço de morte. De palavrões. De gritos. De assédio sexual e moral. Bafo quente de mau hálito me é cuspido de ambos os lados do pescoço. Histórias violentas me são contadas ao pé do ouvido. Eu arrepio. O menino-menina gosta. Sente o meu corpo. Sorri. Me chama. Me convida pro sexo. Me pergunta se eu gosto de cu, de pau ou de boceta. Eu respondo. Ele também: “Eu também”!. “- Pai, conte pro novato a história da Iara”. “- Eu não sou seu pai. Meu filho morreu aos doze anos!”. Fala gritando. Grita falando. Incesto. Nojo. Que asco! O pai faz do menino a sua menina: sua mulher. O bronco e fétido assassino que matou a mulher e jogou no rio. Que mata os comparsas para roubar o ouro. O ouro da discórdia, que segundo o travesti (?) rende R$ 40.000, 00 por MÊS. Mais que o salário de um professor. Muito mais que o salário de um deputado. Será?
O bêbado bate os pés. Tropeça. Cai por cima de mim. Me cospe todo. Me suja. O filho me seduz, me chama pra cama. Seduz ainda o pai. Faz charme. Um charme escatológico, grotesco. Um charme bicha. Eu apanho. Camaradamente. Mas nem sempre, camarada! Os meus braços brancos ficam vermelhos, como o rosto do filho esbofeteado. Lastimável! Que vida é essa, companheiro? Que decisão faz de vocês aqui? Submundo das armas. Submundo do sexo. Submundo do ouro.
Calor insuportável. O meu suor lava meu perfume como o mercúrio amalgama o ouro. O meu suor se mistura ao cheiro de bafo, ao odor de sexo oral, ao gosto de fezes. A Ópera do Beradeiro canta em um rádio toca fitas. A agora mulher dança. Baila para seu pai. Que aplaude. Que ordena que eu faça o mesmo. E eu, obediente, faço. Surge, então, a Bernadete, a Maria do Carmo, a Cristiane, a Perpétua do Socorro. As pepitas têm nomes. Com orgulho são exibidas pelo explorador. Mas falta uma.” Cadê sua desgraçada?” Bate. Apanha. Arrasta. Eu apanho. A agora mulher apanha. É enforcada. É forçada, nua, a cagar o ouro. Cadê o ouro? Onde está o ouro? Pra onde foi o ouro? Apanha. Grita. Chora. As lágrimas se juntam poeticamente.
Eu sou expulso dali. O bêbado asqueroso e de pés sujos me empurra. Quase sou jogado pelas escadas.
Em baixo me espera: o motoqueiro. “-Me acompanhe!”. (Silêncio). Meu coração se acelera, “de nuevo”, “again”. As dragas dragam. Os sapos latem. O cachorro faz cri-cri. Confusão. Onde estou?
A fortíssima, suja, asquerosa, nojenta, poética, suja (“again”) “A Ópera do Beradeiro” continua na moto. (Ouvem-se apenas os ruídos do motor). Eu me excito. Tenho pânico. O mesmo caminho escuro ao contrário. O mesmo cheiro de cigarro. Mas agora misturado ao meu perfume de vômito, de cachaça, de esgoto. (Silêncio. Só são sentidos os cheiros de esgoto). O mesmo bar. “Again”. O caminho inverso. A vida está ao contrário, Fabiano, Madson, Cláudio Zarco, Rafael Barros. Meu coração lastima.
Volto ao meu carro 1.6. Decido não ligar o som em inglês. Quero continuar com as dragas que chupam o meu sangue.
Chego em casa. Sinal de wi-fi. Meu whatsApp toca: “A Cia de Artes Fiasco agradece sua participação na peça A Ópera do Beradeiro. Curta nossa página e nos deixe um comentário https://m.facebook.com/ciadeartesfiasco/
São 23 h e 17 min. Não farei correções, pois o espetáculo continua no meu corpo. As minhas roupas estão no chão e as letras apontam: “ópera canto de merda, gosto de esgoto, perfume de vômito!”. O grotesco e o sublime em Porto Velho.
Tive a honra de participar, em 2001, como elenco de apoio no especial da Sexta-feira da Paixão exibido na Rede Globo de Televisão. Tal especial, intitulado Paixão Segundo OuroPreto, trata-se de uma adaptação para TV do espetáculo A Rua da Amargura, do renomado Grupo Galpão de Belo Horizonte.
Teresinhas, espetáculo de dança do Meme Grupo de Pesquisa do Movimento, de Porto Alegre, acabou de ser apresentado no Teatro Palácio das Artes de Porto Velho, Rondônia.
Pode-se dizer que, em termos de pesquisa artística, pouco acontece qualitativamente. O tema do espetáculo é muito particular: a história da mãe do diretor e coreógrafo Paulo Guimarães. Daí já reside um problema: assuntos particulares não são universais. Ok, homenagem mais que merecida pra mãe dele. Mas, o que Teresinhas tem haver com Marias, com Joanas, com Dulcinéias, com Rosemeires, etc? Onde está o pulo do gato? Nascer, crescer, ter TPM, casar, ter filhos, morrer… Isto já é, pouco acrescenta pra emoção do espectador. Vemos isto a torto e direito nas novelas. Trata-se de clichê, lugar comum e estereótipo. E para complicar ainda mais a narrativa, que já é frágil, as bailarinas se insurgem contra o texto. Parecem vociferar, inaudivelmente, palavras sem sentido. Faz muita falta um preparador ou preparadora vocal para as meninas e senhoras que muito se esforçam na tentativa de dizer algo.
O espetáculo tem muitas barrigas: dá sono e causa desinteresse nos espectadores. Muitos sairam, mais cedo, do teatro. Ritmicamente distancia-se da dança. Interpretativamente enclausura o teatro num calabouço da Idade Média. E que audácia do crítico de arte Antônio Hodhfeldt, do Jornal do Comércio, comparar “Teresinhas” com “Maria, Maria” do Grupo Corpo.
Mas nem tudo está perdido no mar da falta de criatividade: a trilha sonora ao vivo é muito bonita. A voz de Tiago Rinaldi é um alento para os desejosos de beleza e sensibilidade. Ademais, a iluminação acende uma bonita luz no fim do túnel do espírito da Dona Teresinha.
Conclusão: trabalho para encher de vazio as garrafas de Boticário e para queimar os bicos dos pombos dos Correios.
“Tabule (em árabe: تبولة [tab·’bu·leh]) é um prato libanês de salada, freqüentemente degustado como um aperitivo. É basicamente feito de triguilho (trigo para quibe), tomate, cebola, salsa, hortelã e outras ervas, com suco de limão, pimenta e vários temperos. No Líbano, onde surgiu, é consumido por cima de folhas de alface. (…) É bastante popular no Brasil”. (Do wikipedia).
“Tabule” é também um delicioso espetáculo de Porto Velho, montado pelo ator Júnior Lopes, professor do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, que os locais, mas também os internacionais, têm o prazer de degustar, de desfrutar, de se deliciar.
Apresentado no dia 07 de junho de 2015, dentro da”Mostra Tapiri de Breves Cenas e Monólogos”, organizado pelo “O Imaginário – de Porto Velho” e coordenado competentemente por Chicão Santos e Zaine Diniz, com a importante contribuição dos demais membros do grupo, “Tabule” é a medida certa entre o cômico, o dramático e a crítica sócio-político-cultural.
Justeza é o termo mais sensato para expressar o que Júnior Lopes consegue como ator, dramaturgo e encenador de tal trabalho. Este excelente artista viaja pelos desertos e oásis da sua imaginação distribuindo à conta-gotas o riso, o grotesco, o drama, a ironia e a sátira. A comédia de Tabule, o “camelo-chefe” da encenação, é de muito bom gosto: em nenhum momento vulgariza a arte e muito menos constrange o espectador. Muito pelo contrário: ela faz rir das situações humilhantes e degradantes pelas quais passam as pobres e desvalorizadas mulheres de certas culturas árabes machistas e retrógradas. É um efeito inverso do riso pelo riso, pois propicia à plateia a reflexão necessária para não se imbecilizar com os próprios soluços.
As gargalhadas forram verdemente o tabuleiro para a entrada do drama. Quem não se comove com as histórias de uma mulher que foi estuprada, aos nove anos, por um beduíno? (É abominável imaginar um homem adulto e cruel fazer uma criança virgem e pura deglutir o seu quibe). Qual a mulher (e que homem em sã consciência) não lamenta a expulsão de uma jovem libanesa do seu doce lar por motivos torpes e sem fundamento (a não ser o religioso machista, radical e ultrapassado)? Como não se emocionar com uma libanesa que é obrigada a atravessar o sofrível deserto dançando, ininterruptamente, sobre a corcova de um camelo? Nem uma gota de água é oferecida à pobre alma, que por pouco sobrevive para começar uma nova e árdua caminhada em país estrangeiro, cuja nova língua a faz esquecer a própria memória. Enfim, dentre outras primorosas cenas, o drama e a comédia vai e vem, numa via de mão dupla que faz o público colar nas poltronas.
A crítica social, política e cultural está explícita e descaradamente “cuspida” em nossas caras embasbacadas. Ela também não é gratuita. Não é panfletária e não pretende, em momento algum, a meu ver, desvalorizar as culturas de outrens. Ao passo que Júnior Lopes se aproxima, com profundidade, do mundo árabe, também se “aprochega” do universo machista brasileiro. As burcas que as nossas mulheres são obrigadas a usar tapam os olhos da sociedade para a má remuneração do feminino. Escondem os cabelos da subjugação impositiva à falocracia. Amarram-nas ao fogão, à geladeira, à maquina de lavar e à tripla jornada de trabalho.
Enfim, “Tabule” é um espetáculo terrorista que explode os nossos corações, diafragmas e pulmões e faz descortinar a poeira das indiferenças em relação às mulheres, sejam elas libanesas, tunisianas, egípcias, árabes e/ou brasileiras.
Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.
Aqui está um resumo:
Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 1.700 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 28 viagens para as transportar.
Na cena teatral de Porto Velho impressiona-me bastante a procura exagerada de alguns grupos, produtores e diretores por editais de financiamento de montagem de espetáculos teatrais. Tudo bem que não há lei de fomento na cidade. Tampouco no Estado de Rondônia.
Numa cidade coberta por buracos e capim sabemos da dificuldade de se montar um trabalho artístico com verba pública (oriunda dos caixas estadual e municipal). Utópico é o desejo de autofinanciamento
Daí para a busca desenfreada por editais (tal como Myriam Muniz) é um passo. Que bom que existem tais editais e prêmios que contemplem as produções porto-velhenses. O problema não reside exatamente aí, mas na disparada enlouquecida de certos grupos, produtores e diretores às “Minas do Rei Salomão”. O quantitativo sobrepõe-se ao qualitativo. Em outros termos, o quanto se recebe é mais importante que a qualidade dos trabalhos que o público assistirá. Assim, não há tempo (e/ou interesse?) para o amadurecimento dos espetáculos montados a partir do financiamento via editais, pois, corre-se para não perder o próximo cavalo. E isso tornar-se-ia um paradoxo se não fosse a contradição.
Por que não pesquisar a fundo um trabalho contemplado num edital – com tempo, qualidade e ética artística – para produzir um espetáculo minimamente bom que poderá ser convidado a participar de festivais e de novas premiações? Ademais de poder ser inscrito na categoria circulação? Um bom trabalho teatral leva tempo para ser montado. E mais tempo ainda para amadurecer, pois, o contato com o público, com a crítica (quase inexistente em Porto Velho), com demais artistas e, acima de tudo, com a sensibilidade estética e intelectual faz-nos refletir sobre a qualidade dos nossos trabalhos. Entre achar que é bom e ser bom há um abismo! Que tipo de estética teatral queremos que o carente público de Porto velho e região tenha para si? Que referências? Precisamos discutir isso com ética e verdade nos debates. Mas que debates? Obviamente, não podemos generalizar, haja vista existirem trabalhos de qualidade artística na cena local. Contudo, há uma corrente de produção que ilustra exatamente o que se apresenta neste texto.
Outro problema grave é o quanto tal corrente está pagando aos artistas locais. Muito mal, pelo que me consta. O teatro é uma arte coletiva (não estou falando aqui de processo de criação coletiva e muito menos de processo colaborativo) em que diferentes áreas comungam para o desenvolvimento de um espetáculo. Logo, todos os envolvidos no projeto devem receber dignamente pelos seus trabalhos. Sabemos das especificidades do trabalho de um produtor e de um diretor, por exemplo. Todavia, a discrepância salarial não é ética, moral e legal.
Analisemos o caso dos atores e atrizes. Sem tais profissionais não há espetáculo, não é verdade? Muito bem, talvez eles não tenham participado da elaboração (escrita) do projeto, mas laboram diariamente nos ensaios, horas a fio, para alcançarem uma qualidade artística. Pelas leis trabalhistas precisam de contratos que rezem as especificidades de suas funções, bem como de suas remunerações. Sejam elas cachês, diárias, mensais, pacotes de cachês com diárias, etc., é legal que estejam bem especificadas, claras, nítidas e límpidas (para ser redundante e preciso no meu pensamento). O ator come, bebe, paga passagens de ônibus, aluguéis de sua residência, conta de água, luz e assim por diante. É um profissional como outro e precisa ser tratado com respeito e dignidade. Em sua remuneração devem constar valores, além do salário por assim dizer, para quitar parte destes gastos. É inadmissível um ator receber uma miséria para três meses de projeto. Não são apenas três meses de trabalho: é uma vida dedicada ao aprendizado de técnicas, de linguagens, de poéticas… O ator em processo de ensaio respira, 24 horas, a sua criação. Pensa, come, dorme, sonha, decora, canta, balbucia, enlouquece a sua personagem. Certos artistas da cena adoecem, se estressam, reprovam nas universidades e vão parar no hospital em honra ao seu trabalho. Por que não valorizá-los? Até quando continuarão os interesses pessoais em Porto Velho?
E, ao que parece, estes interesses se estendem, como os braços de um polvo monstruoso, a todos os cantos desta quente e sofrida cidade.
Feliz 2015 a todos (as)! Muito $uce$$o e amadurecimento artístico no ano vindouro!
Resumo expandido comunicado no VIII Congresso da ABRACE (Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas) – GT Teatro Brasileiro, realizado em Belo Horizonte, de 31/10 a 04/11/2014.
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OLIVEIRA, Luciano. Texto, censuras e cesuras: na superfície, na alma e no fundo de UmBaú de Fundo Fundo. Florianópolis: Universidade do Estado de Santa Catarina; CAPES; bolsista de Doutorado; José Ronaldo Faleiro. Diretor, ator, professor e produtor de Teatro.
RESUMO
Um Baú de Fundo Fundo é um espetáculo infantil, ainda ativo, montado em 1975 pelo Giramundo Teatro de Bonecos. No seu texto, ocorre a representação escrita e oral do modo de falar, de pensar e de viver típicos dos habitantes do interior de Minas Gerais. Além disso, é notória a figuração de personagens representantes da ditadura militar brasileira e do desejo de liberdade de expressão e de pensamento. Madu, que escreveu algumas passagens desse texto, que é de autoria de Álvaro Apocalypse, dá informações preciosas dos seus processos de escrita, além de pontuar como burlaram os cortes feitos pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) do Estado de Minas Gerais. Enfim, neste artigo é feita ainda uma breve análise de consequências dos anos de chumbo para o teatro brasileiro.
Palavras-chave: Teatro político infantil. Crítica. Emílio Garrastazu Médici.
ABSTRACT
“Um Baú de Fundo Fundo” is an active child spectacle nowadays, created in 1975 by “Giramundo Teatro de Bonecos”. In its text it is seen, a written and oral representations in a manner of speaking, thinking and living of a typical Minas Gerais state´s people. Beyond that, the figuration of representatives’ characters of Brazilian military dictatorship and the desire for freedom of expression and thought is very clear. Madu, who wrote passages for this text, which is authored by Álvaro Apocalypse, gives valuable information of their writing processes, as well as mocked the cuts made by the “Divisão de Censura de Diversões Públicas” (DCDP) of Minas Gerais. Finally, it is made a brief analysis from the consequences for the hard years of Brazilian theater throughout this article.
Keywords: Political child theater. Criticism. Emílio Garrastazu Médici.
Um palhaço chamado Libório chega para fazer uma apresentação em Pedra Furada, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. No entanto, ele é proibido pelo DelegadoGodofredo de se apresentar, pois, nesta cidadezinha, não se podia cantar, não se podia ler poesia, não se podia fazer coisa nenhuma. Além de delegar, Godofredo também acumulava os principais cargos públicos da cidade, criando uma ditadura que impedia a liberdade de expressão e coibia o direito de ir e vir da população. Onde se ia, o Guarda, braço direito de Godofredo, estava a postos para fazer cumprir o regulamento. Todos os lugares eram vigiados, dia e noite. Mas, no fundo de um baú de fundo fundo, uma espécie de caixa de surpresas e de magia, trazida pelo palhaço Libório, encontravam-se as ideias e manifestações artístico-culturais que, enfim, abririam a cabeça do tirano “pedrafuradense”. Esta é a história que nos conta Álvaro Apocalypse e Maria Vivacqua Martins (Madu)[1], com a peça Um Baú de Fundo Fundo (1975).
Esse texto, quase em sua totalidade, foi escrito por Álvaro Apocalypse. Entretanto, o trecho a seguir, em que o palhaço Libório se apresenta ao público, foi elaborado por Madu:
LIBÓRIO: Cheguei. Enfim cheguei. (Salta para fora do baú). Ai, cheguei […] Isso aqui é uma cidade… e naturalmente sou um boneco, como todos podem observar. E um boneco é um ser especial, real, evidentemente, embora viaje em baús e se alimente do sonho, do riso e da fantasia! Ah, tenho também um coração, pequeno por dentro, mas imenso por fora. Um verdadeiro coração de boneco: sem cola, sem pregos e sem parafusos – tesouro ilimitado que herdamos da natureza humana. […]. (APOCALYPSE e MARTINS, 1974, p. 02).
Para a elaboração desse texto, que tem várias versões disponíveis no Museu Giramundo, Madu disse que ela e Álvaro partiram das pesquisas que fizeram acerca das culturas mineiras e brasileiras:
Nós conhecíamos um folclorista, […] que nos deu vários livros e histórias que ele recolhia. Então nos baseamos nisso. Porque você tem que buscar as histórias que existem no imaginário, né? Mas alguém tem que escrevê-las. Aí usamos as linguagens da Iara […]. Começamos a procurar alguns desses esquetes e fizemos, por exemplo, o Pescador do São Francisco. Procurávamos por situações brasileiras e por algumas coisas do imaginário popular. (MARTINS, 2009, entrevista).
Diferentemente do que Madu disse, nessa cena do Pescador, nota-se a figuração da lenda da Mãe d’água e não da Iara.
Das inúmeras cópias de UmBaú de Fundo Fundo encontradas, escolhi uma datilografada que contém a marca de um carimbo com uma assinatura de um censor da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) do Departamento de Polícia Federal (DPF) do Estado de Minas Gerais. Além disso, essa cópia traz, em diversas páginas, marcações e indicações de cortes feitos pela DCDP mineira. Creio que essa intervenção da censura se deu dias antes da estreia do espetáculo, que ocorreu em junho de 1975. De acordo com Madu, nessa época era muito comum a apresentação de espetáculos exclusivamente para a avaliação dos censores, dois ou três dias antes da estreia.[2] Contudo, é difícil precisar corretamente o dia da ação da censura haja vista o carimbo da DPF não conter nenhuma menção à data.
As figuras 1 e 2 ilustram alguns cortes indicados pela DCDP mineira a serem feitos pelo Giramundo. A primeira delas constitui um carimbo − com um visto − que mostra o número da folha. Já na segunda figura observamos um retângulo feito à caneta pelos censores, além da palavra corte, também à caneta, escrita na vertical.
Figuras 1 e 2: Carimbo da censura prévia da DCDP (folha 2) e corte na nona página do texto Um Baú de Fundo Fundo (1974-1975). Fonte: APOCALYPSE e MARTINS, 1974, p. 02 e 09.
Apesar dos cortes indicados, Madu disse que o Giramundo fez o espetáculo na íntegra:
[…] Tínhamos que conseguir um dia só para fazer pra “bosta” da censura. Sentavam dois idiotas lá na frente, ficavam perguntando e cortando as coisas. Mas fazíamos do mesmo jeito. (Risos). […] Se a gente conseguisse explicar iríamos conseguir a liberação. [Mas], se tivéssemos que montar com os cortes da censura, não faríamos. E é um texto imenso. […] Nunca obedecemos. A gente sempre fez. Cortaram, mas fizemos. […] Nunca tivemos problemas porque eles [não] iam aos teatros. (MARTINS, 2009, entrevista).
Um Baú de Fundo Fundo é um texto politicamente ativo, pois os autores fazem uma crítica muito inteligente e divertida aos atentados contra a liberdade de expressão e de pensamento que ocorriam durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Os personagens Libório, Delegado e Guarda são bons exemplos disso. Já no início do texto, como num interrogatório policial, o Delegado Godofredo passa em revista, junto ao Guarda, a situação da cidadezinha Pedra Furada:
GUARDA: [Imitando um trem de ferro] Tudo em ordem, tudo em paz, tudo em ordem, tudo em paz, tudo em ordem, tudo em paz… (entra o Delegado).
DELEGADO: Alto lá.
GUARDA: Cheguei no horário […].
DELEGADO: […] Como está a cidade?
GUARDA: Tudo em ordem, tudo em paz […].
DELEGADO: E o povo da cidade?
GUARDA: Em casa, conforme o regulamento.
DELEGADO: […] E as pessoas? […] Como se comportaram?
GUARDA: Acordaram, tomaram café, foram para o trabalho, trabalharam, almoçaram, tornaram a trabalhar, voltaram para casa, jantaram, deitaram, dormiram. Como ontem, como sempre.
DELEGADO: […] Ninguém cantou?
GUARDA: Não ouvi.
DELEGADO: Bem. Uma cidade como deve ser: todo mundo em casa, sem meninos nos muros, nada de cantorias, versos e outras maneiras de perder tempo que os poetas inventaram. Um dia de trabalho, uma noite de sono. Eis o nosso lema, soldado. (APOCALYPSE e MARTINS, 1974, p. 1).
O Baú de Fundo Fundo foi escrito durante a ditadura civil-militar do general Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), que governou o Brasil entre 1969 e 1974. Entretanto, o espetáculo foi estreado quando da presidência do general Ernesto Geisel (1907-1996), que ocorreu entre 1974 e 1979. Geisel deu continuidade a uma abertura política “lenta, gradual e segura” (SILVA apud LINHARES, 1990, p.374) no Brasil. Essa transição levou 15 anos para ser completada, estendendo ainda mais o período ditatorial. Tanto que, em 1979, o espetáculo Cobra Norato do Giramundo, por exemplo, ainda seria censurado.
A ditadura civil-militar no Brasil teve início em 1964, com um golpe que depôs o então presidente João Goulart (1919-1976), o “Jango”, e levou ao poder o general Humberto de Allencar Castelo Branco (1897-1967), que se tornou o primeiro presidente do regime militar brasileiro. Iniciou-se, assim, um período de mais de 20 anos de arbitrariedades, nos quais vários militares revezaram-se na presidência do país.
Dentre as ações arbitrárias, nos primeiros anos da ditadura, destacam-se: ocupação e destruição de sedes de rádios, jornais, sindicatos trabalhistas, organizações estudantis (como a União Nacional dos Estudantes – UNE) e universidades. Ao mesmo tempo, morte e desaparecimento de inúmeras lideranças sindicais, estudantis e camponesas, assim como a deposição de governadores eleitos. E, por fim, a dissolvição de partidos políticos.
A partir de 1968, de acordo com Silva (apud LINHARES, 1990, p.370), “o regime se institucionalizou”. Isso fez com que a resistência civil se tornasse mais forte e ocupasse as ruas das cidades, os palcos e as salas de aula. Inúmeros conflitos de rua sucederam-se. Em resposta a esses conflitos é editado o Ato Institucional nº 5, “instrumento básico, doravante, da ação da ditadura, que fecha o Congresso, cassa inúmeros mandatos parlamentares, estabelece a censura prévia, os inquéritos militares sigilosos” (SILVA apud LINHARES, 1990, p.368).
Agora, permita-me um aparte, um anacronismo e uma experiência: colocarei o palhaço Libório como um militante que participa de movimentos de resistência à ditadura civil-militar, nas ruas de uma supostamente pequena Belo Horizonte, no final da década de 1960:
LIBÓRIO: (Vai para o meio da rua) Povo desta cidade, neste baú eu tenho um remédio para vocês! Basta somente que…
DELEGADO: Alto lá! Alto lá!
LIBÓRIO: Epa!
DELEGADO: Quem é o senhor, de onde vem, para onde vai? Apresente seus documentos, ande, depressa. Idade? Profissão? Número do CPF. Rápido. Rápido!
LIBÓRIO: Mas que documentos? Não sou gente, sou um boneco. […] Nunca vi bonecos com documentos. Documento.
DELEGADO: Alto lá. Eu também sou boneco e tenho documentos. […] Nota fiscal é documento. […] Ora essa. De-sa-ca-to! Puro desacato. (APOCALYPSE e MARTINS, 1974, p. 5).
Voltando à ditadura civil-militar. Em 1969, um “golpe dentro do golpe” (SILVA apud LINHARES, 1990, p. 371) leva ao poder o general Médici. Assim, os cinco anos seguintes constituiriam a fase mais radical do regime militar, na qual o desaparecimento de oponentes políticos, militares, artistas, jornalistas e escritores suceder-se-iam com frequência. Logo, a repressão abate-se, também, sobre os intelectuais, artistas de diversas áreas e estudantes, principalmente universitários. Obras teatrais foram proibidas, teatros foram invadidos e teatrólogos, como Augusto Boal, em 1971, foram expulsos do país. Aliás, Álvaro Apocalypse, em 1969, precisou sair do país, conforme atesta Martins (2009, entrevista):
O Álvaro foi para a Europa praticamente fugido, porque estava listado para ser preso. Por sorte, e isso foi uma coisa de Deus, ele ganhou uma bolsa para o Salão da Cultura Francesa e a Teresa ganhou outra para o Salão Universitário. Porque ele não tinha dinheiro para fugir pro exterior não.
A ditadura civil-militar no Brasil só terminou em 1985, com a eleição indireta[3] para presidente de Tancredo Neves (1910-1985), após o movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil: o “Diretas Já” (1983-1985).
É claro que, permitindo-me uma licença poética, Libório participou desse movimento, mesmo que de forma indireta, pois, nesse período, o Baú ainda girava pelos palcos brasileiros. Mas o Delegado, que também era o prefeito, o promotor e o juiz de Pedra Furada na alma, tentou impedir que as ideias libertárias do palhaço chegassem até os cidadãos pedrafuradenses, proibindo as suas apresentações artísticas:
DELEGADO: O que há neste baú?
LIBÓRIO: Não posso dizer.
DELEGADO: Tem que dizer.
LIBÓRIO: Não posso porque é surpresa. Faz parte do espetáculo.
DELEGADO: Surpresa não existe e espetáculos são proibidos a esta hora. (APOCALYPSE e MARTINS, 1974, p. 6).
E será que o Delegado Godofredo e o seu comparsa conseguiram impedir Libório de libertar Pedra Furada da opressão?
Muito pelo contrário, foi o palhaço, com o seu otimismo e com mensagens de amor, arte e imaginação — que lembram frases do escritor francês Saint-Exupéry (1900-1944) — que conseguiu mudar o caráter do ditador e fez com que as pessoas da cidade voltassem a sorrir, festejar e contar histórias. Logo, a cidadezinha ficou mais florida e mais colorida e pode abrir suas portas para as representações artísticas que há muito não aconteciam.
NOTAS:
[1] Madu, Álvaro Apocalypse e Tereza Veloso foram os fundadores do Giramundo Teatro de Bonecos, no final da década de 1960, em Lagoa Santa, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. Um Baú de Fundo Fundo foi o quarto espetáculo do grupo, estreado em 1975. Contudo, o texto foi escrito alguns anos antes, no início da década de 1970.
[2] Madu me passou essa informação por telefone, no dia 15 de abril de 2010, por volta das 11 horas.
Referências bibliográficas
APOCALYPSE, Álvaro; MARTINS, Maria do Carmo Vivacqua. Um Baú de Fundo Fundo: peça para teatro de bonecos (texto datilografado). Giramundo Teatro de Bonecos: Lagoa Santa, 1974.
MARTINS, Maria do Carmo Vivacqua (MADU). Processos criativos, cultura, identidade e nacionalismo em Um Baú de Fundo Fundo e em Cobra Norato. Entrevista oral concedida a Luciano Oliveira. Lagoa Santa, 25 de jul. de 2009. Entrevista não-publicada.
SILVA, Francisco C. T. A Modernização Autoritária: do Golpe Militar à Redemocratização 1964/1984. In: LINHARES, Maria Yedda (org.) et al. História Geral do Brasil. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 1990.
RESUMO: No presente artigo, inicialmente, apresento o compositor Rufo Herrera, a encenadora Ione de Medeiros e o Grupo Oficcina Multimédia (GOM), de Belo Horizonte. Em seguida, faço um recorte de dois, dos mais de vinte espetáculos encenados por essa diretora, para que eu possa analisar os conceitos de hibridismo, mestiçagem e polifonia, assim como os seus respectivos desdobramentos, a partir das montagens de Bê-a-bá Brasil e As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras.
Palavras-chave: teatro mineiro contemporâneo, multiplicidade de linguagens artísticas, multimeios, integração e intertextualidade.
ABSTRACT: In this paper, initially I present the composer Rufo Herrera, the theater director Ione de Medeiros and the “Grupo Oficcina Multimédia” (GOM), of Belo Horizonte city. Then, among the more than twenty staged shows by this director I do a selection of two, so that I can analyze the concepts of hybridism miscegenation and polyphony, and its own developments, from the stagings “Bê-a-bá Brasil” and “As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras”.
Keywords: contemporary theater of Minas Gerais state, multiplicity of artistic languages, multimedia, integration and intertextuality.
Rufo Herrera, compositor e especialista em bandoneón, nasceu em Córdoba, Argentina, em 1933. Desde 1963 está radicado no Brasil. Em 1969, convidado por um grupo de compositores da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, transferiu-se para Salvador e integrou o movimento emergente da música contemporânea brasileira. Em 1976, recebeu um convite para participar do VIII Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizado em Ouro Preto, no qual ministrou uma oficina de arte integrada, desenvolvendo, assim, um trabalho processual com diversas áreas de criação artística. Já no ano seguinte ministrou uma oficina semelhante, conhecendo, na ocasião, Ione de Medeiros, atual diretora do Grupo Oficcina Multimédia (G.O.M.). Do encontro entre os dois jovens artistas surgiu o G.O.M., que foi sediado na Fundação de Educação Artística (FEA) de Belo Horizonte. Desde então, Rufo vive, ao lado de Ione, na capital mineira.
Ione de Medeiros nasceu em 18 de junho de 1942, em Juiz de Fora. Nessa cidade formou-se em Francês, em Letras e em Piano. Em 1977 participou da criação do Oficcina Multimédia. Em 1983, assumiu a direção definitiva do G.O.M. dando continuidade à proposta multimeios iniciada por Rufo Herrera, com o objetivo de fundir no palco múltiplas formas de linguagens artísticas, como o teatro, a música, as artes visuais, as artes plásticas, o cinema, a dança, etc.
O espetáculo Sinfonia em Ré-fazer, de 1978, inaugurou a linguagem multimeios do grupo. Desde que Ione assumiu a direção do G.O.M, o grupo mantém o processo de elaboração coletiva de seus espetáculos. Logo, os diversos trabalhos montados desde então, gradualmente, foram configurando o atual perfil do Multimédia que hoje se define, dentre outras características, pela consolidação da pesquisa multidisciplinar e pela elaboração não hierárquica entre os diversos elementos da linguagem.
Sobre a linguagem cênica do Multimédia, Ione diz o seguinte: “o que nos define como um grupo peculiar é o fato de que entramos no teatro pela porta da música” (Medeiros, 2007, p. 15). Dessa forma, a encenadora transpõe à encenação teatral o caráter abstrato da linguagem musical. Com essa visão de abstração, as referências para as encenações multimeios do grupo, segundo essa encenadora, seriam:
(…) as montagens não têm a função prioritária de contar uma história ou seguir um discurso linear; (…); e os atores não estão unicamente sob o jugo de um personagem, mas seguem um roteiro concebido como uma partitura polifônica em que as muitas vozes correspondem às diversas possibilidades sonoras, visuais e plásticas que integram a dramaturgia do espetáculo (Medeiros, 2007, p. 15).
Para concluir, observa-se, desde a fundação do Oficcina Multimédia, a preocupação dos seus criadores com a busca pela polifonia artística, por meio do hibridismo de linguagens e pelo dialogismo interdisciplinar entre artistas, cena, música, artes visuais, artes plásticas, dança, literatura, e assim por diante.
Bê-a-bá Brasil: memória, sonho e fantasia – Em busca de uma cultura nacional híbrida e mestiça
Os termos misturas, mesclas raciais e culturais, assim como as categorias hibridismo cultural e mestiçagem étnica aparecerão muitas vezes no decorrer deste item. Por isso, inicio com os conceitos mestiçagem e hibridismo, fazendo as suas devidas diferenciações, pois os termos são comumente confundidos e trazidos como sinônimos. Logo depois retomarei a análise do espetáculo Bê-a-bá Brasil. Começo pela mestiçagem.
Gruzinski (2001, p. 60) diz que essa categoria é ampla, de difícil apreensão, “complexa, imprecisa, mutável, flutuante, sempre em movimento, (…) como uma nuvem. [Esse] modelo da nuvem supõe que toda a realidade comporta algo de irreconhecível e sempre contém uma dose de incerteza e de aleatório”. E a presença do aleatório e da incerteza, segundo o autor, confere às mestiçagens seu caráter impalpável e paralisa nossos esforços de compreensão. Assim, complexidade, imprevisibilidade e aleatoriedade parecem, pois, inerentes às misturas e às mestiçagens.
O sentido da palavra mestiçagem vem do passado, da Idade Média ao presente. Entretanto, as mestiçagens aparecem na América no século XVI, na junção de distintas temporalidades, as do Ocidente cristão e dos mundos ameríndios. Assim, elas as colocam brutalmente em contato e as imbricam umas nas outras. Desta feita, o enfoque dado às mestiçagens, por Gruzinski (2001), é a Europa do Renascimento e a América da Conquista, mais especificamente o México espanhol.
Sobre os termos mestiçagem e hibridação, resume Gruzinski (2001, p. 62):
Empregaremos a palavra “mestiçagem” para designar as misturas que ocorreram em solo americano no século XVI entre seres humanos, imaginários e formas de vida, vindos de quatro continentes — América, Europa, África e Ásia. Quanto ao termo “hibridação”, aplicaremos às misturas que se desenvolvem dentro de uma mesma civilização ou de um mesmo conjunto histórico — a Europa cristã, a Mesoamérica — e entre tradições que, muitas vezes, coexistem há séculos.
Misturar, interpenetrar, fundir, juntar, justapor, sobrepor, cruzar, mesclar, amalgamar e inventar são algumas das palavras que se aplicam à mestiçagem. Por fim, ainda conforme Gruzinski (2001), nas Américas do século XVI, fragmentos de culturas indo-afro-europeias se mesclaram, se adaptaram umas às outras, se improvisaram, se deduziram, se inventaram, se aprenderam. Por isso, não é possível pensar em purezas culturais, mas sim em culturas mestiças e híbridas.
Já para Canclini (2008, p. XXVII), a palavra mestiçagem pode designar as fusões étnicas de um indivíduo ou de uma cultura:
A mistura de colonizadores espanhóis e portugueses, depois de ingleses, com indígenas americanos, à qual se acrescentaram escravos trasladados da África, tornou a mestiçagem um processo fundacional nas sociedades do chamado Novo Mundo. […] Mas a importante história de fusões entre uns e outros requer utilizar a noção de mestiçagem tanto no sentido biológico — produção de fenótipos a partir de cruzamentos genéticos — como cultural: mistura de hábitos, crenças e formas de pensamento europeus com os originários das sociedades americanas.
Canclini (2008) também se refere às palavras hibridação e híbrido. Para ele, o último termo, recorrente na biologia, de sentido de “mistura genética”, pode ser aplicado à cultura no sentido de “misturas culturais”, ou seja, uma cultura que se origina da mescla de várias outras culturas. Já por hibridação ele entende “os processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos ou práticas” (Canclini, 2008, p. XIX).
Tanto Gruzinski quanto Canclini referem-se às mestiçagens como misturas ocorridas no Novo Mundo entre diferentes indivíduos (etnias) e entre diferentes culturas. Contudo, Gruzinski nos pede cuidado e atenção ao utilizarmos as palavras mestiçagem, hibridação e mistura, principalmente em caso de pressuposição de misturas e mestiçagem cultural, mestiçagem biológica e mestiçagem de crenças e ritos (sincretismo religioso). Isso porque nem todos os aspectos culturais são miscíveis. Ademais, Gruzinski (2001, p.43) diz ainda que as relações entre mestiçagem biológica e mestiçagem cultural são pouco claras: “[…] Ao pormos o assunto nesses termos, eliminamos a questão das relações entre o biológico e o cultural com o social e o político”.
Em síntese, mesmo que os termos mestiçagem e hibridismo dão mostras de serem sinônimos, não devemos tratá-los assim. Parece-nos que, antes de ser cultural, a mestiçagem é primeiro biológica. Isso quer dizer que o cruzamento genético ocorreria antes da mistura cultural. Assim, o termo mestiçagem, para Canclini (2008), é melhor utilizado quando aplicado às misturas genéticas, no sentido de mestiçagens étnicas (que, conceitualmente, não deixam de ser culturais). Por conseguinte, ainda conforme esse autor, o termo hibridismo seria mais apropriado ao choque (misturas) entre diferentes culturas, que produziria um novo elemento cultural: híbrido. Finalmente, o hibridismo é útil ainda para tratarmos as misturas de linguagens artísticas, como será feito a seguir.
Dados esses conceitos, entremos agora no espetáculo Bê-a-bá Brasil: Memória, sonho e fantasia, dirigido por Ione de Medeiros, em 2007, e estreado no mesmo ano no Galpão Cine Horto, de Belo Horizonte. As artes plásticas, as visuais e a literatura foram referências fundamentais para a montagem, sendo escolhida como suporte inicial do trabalho a obra Abaporu – Homem que Come (1928), pintura de Tarsila do Amaral; e, como referências conceituais posteriores, obras da literatura de Oswald de Andrade, principalmente do Manifesto Antropofágico. Segundo Medeiros (2007, p. 201), o objetivo do espetáculo era, a partir dessas referências, “esboçar cenicamente o perfil de um Brasil moderno, cheio de contornos e mesclas raciais e culturais, compondo um mosaico social complexo, sempre em movimento”. Com esse espetáculo, o objetivo do grupo era revisitar valores relacionados à contínua formação da identidade cultural do Brasil, discorrendo livremente sobre o tempo, desde o século XVI ao XXI. Para tanto, levantou-se uma pergunta: existe um Brasil brasileiro?
Em síntese, o roteiro de Bê-a-bá Brasil, que foi elaborado sobre um rap musical, é não linear e se dá por meio de saltos temporais e espaciais. Além disso, é repleto de anacronismos e de citações, possui referências constantes à globalização, ao hibridismo cultural, à mestiçagem étnica, à modernidade e, também, à pós-modernidade. Ademais, é inspirado nos quatro elementos da natureza e tem como ponto inicial as naus portuguesas rumando a um novo continente, com a globalização iniciada no século XVI. Foram reunidos, num mesmo espaço-tempo, o passado, o presente e o futuro, em que o grupo saltou das caravelas de antigos navegadores para o planeta Terra, representado por um balão gigantesco, simbolizando o surgimento de uma nova configuração na identidade cultural de todos os povos. Como num anacronismo para o futuro, os navios são carregados de ícones da modernidade, como a televisão, e da pós-modernidade, como os computadores, que foram hibridizados a elementos toscos e rudimentares, e também às cruzes, que suscitam a religiosidade dominante, o cristianismo católico, durante a colonização do nosso país (fig. 1).
Ao elemento terra corresponde à chegada dos portugueses no Brasil, com imagens em vídeo projetadas sobre a riqueza cultural do país e fundidas com a representação cênica do quadro Abaporu. A presença de um índio mestiço na cena, vestido com uma camisa da seleção brasileira de futebol (fig. 2), satiriza, atemporalmente, o embate entre os nativos e os colonizadores. Aqui, ocorre um hibridismo entre o sagrado e o profano, que está presente também no elemento fogo, representado por um fogareiro a gás no qual ocorre um ritual antropofágico ao contrário, em que o branco devora o índio. O elemento ar, por sua vez, é uma homenagem a Santos Dumont, com o seu anseio de céu e de modernidade tecnológica, e sustenta a inserção de um globo terrestre na cena, símbolo de um mundo sem fronteiras. Além disso, placas de metal são manipuladas como um grande pássaro. Chamadas por Ione de fênix moderna, as placas estariam gerando um ovo colossal, originando um mundo virtual que aponta novos caminhos na construção da identidade e na comunicação entre os povos: inicialmente, entre europeus e indígenas; mais tarde, entre estes e os povos africanos.
Cenicamente, observamos que o espetáculo propõe um discurso dialógico não verbal, valendo-se, portanto, de imagens, sons e movimentos; retratando o Brasil em uma linguagem primordialmente sonora e imagética. Quanto aos elementos do espetáculo, nota-se um cenário móvel – constituído por uma série de cubos superpostos, passarelas, escadas, etc. −, aliado a tecidos e bandeiras que servem também de telas de projeção; um palco saturado de objetos de cena, como carrinhos de supermercado e monitor de computador; e uma trilha repleta de mixagens de paisagens auditivas e de sonoridades extraídas de materiais não convencionais − como cadeiras e portas − que enaltecem o caráter alegórico da encenação. Além do mais, o figurino alude aos parangolés de Hélio Oiticica, importante artista performático da vanguarda brasileira.
Os vídeos, elementos fundamentais para essa encenação, já que criam paralelos e simultaneidades entre o passado e o presente, entre o real e o ficcional, possuem motivos que, na perspectiva de Ione, valorizam o Brasil, a partir de um resgate de imagens belas da nossa natureza, além de matrizes da nossa cultura.
A trilha sonora dialoga, cenicamente, com a coreografia, com os cantos e as falas dos atores. É importante notar que são pouquíssimos os textos das figuras cênicas (como o grito “Brasil!”), e, por serem dados em formas corais, e às vezes tribais, dificultam bastante a compreensão. Em meio a uma profusão de sonoridades, e de uma multiplicidade de vozes e de ruídos, como sons de tribos indígenas, torções de mastros e sirenes de navios, notamos também toques de berimbau, de agogô e de atabaque, de sambas instrumentais, a canção de abertura do I Ato da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, comumente ouvida no início do programa de rádio AVoz do Brasil, de um “rap indígena”, dentre outras cantigas.
Bê-a-bá Brasil: Hibridismo entre a modernidade e a pós-modernidade .Índio mestiço da “Santa Ceia” do Multimédia
Figs 1 e 2. Bê-a-bá Brasil: Hibridismo entre a modernidade e a pós-modernidade e o índio mestiço da “Santa Ceia” do Multimédia. Fotos: sem referências a autoria. Fonte: Acervo do grupo.
Por fim, a relação complexa e constante entre música, artes visuais, artes plásticas, literatura, expressão corporal, uso não cotidiano da voz, iluminação, cenário, figurinos e, enfim, da construção criativa de figuras cênicas e de monstros; assim como das múltiplas referências culturais, de pensamentos e de crenças religiosas; produz, desde o início dos processos de criação de Bê-a-Bá Brasil, um entrelaçamento de linguagens e vozes artísticas que gera um espetáculo híbrido e polifônico. De tanta mistura, como feita numa máquina mestiça de sons, movimentos e imagens, torna-se complexo distinguir a homogeneidade das distintas camadas heterogêneas desse espetáculo.
Multiplicidade de vozes e discursos em As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras
O espetáculo Bê-a-bá Brasil também poderia ser analisado à luz do conceito de polifonia, assim como As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras pode ser observado sob a ótica do hibridismo. Isso porque, acima de qualquer fato, a forte característica multimídia do G.O.M., e a ampla e distinta formação artística dos membros do grupo, possibilita ambas as análises. Então, essa divisão do artigo em duas partes é, antes de tudo, metodológica. Discutir esses conceitos a partir dos dois espetáculos extrapolaria as dimensões deste artigo. Passemos, assim, à polifonia.
Ernani Maletta, professor de teatro da UFMG, em depoimento sobre o G.O.M, pondera sobre a polifonia do grupo:
Qualquer processo criativo relacionado ao Teatro – arte polifônica por natureza – deve contar, desde o início, com a presença de todos os discursos provenientes das múltiplas dimensões artísticas que o fenômeno teatral compreende e que se referem à Música, às Artes Plásticas, às Artes Corporais e à Literatura. Nesse sentido, o [G.O.M.], em toda a sua trajetória, é um dos exemplos mais evidentes de formação e criação artística fundamentada no conceito de atuação polifônica (Maletta, apud Medeiros, 2007, p. 202).
Dada essa colocação, coloco duas perguntas: o que é, realmente, a polifonia? E de que maneira ela pode ser notada em As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras?
Vejamos o que Sadie (2001, p. 74) diz sobre o termo em seu dicionário de música:
(…) música em mais de uma parte, e o estilo em que todas ou algumas das partes musicais movem-se, em certa medida, de forma independente. Polyphonos (‘muitas vozes’) e Polyphonia ocorrem na Grécia antiga, sem qualquer conotação de técnica musical. (…) formas do adjetivo começaram a ser usadas em línguas modernas, ambas designando fenômenos não musicais, como cantos de aves, linguagem humana e ecos múltiplos; e os fenômenos musicais, como faixa instrumental e variedades tonais, bem como as músicas variadas que podem ser reproduzidas em um dispositivo musical automático.[1] (Tradução minha).
Dessa definição destaco: “todas ou algumas partes podem se mover de forma independente”. Isso parece nos dizer que, mesmo que as vozes soem de maneiras simultâneas, elas resguardam as suas individualidades e especificidades. Logo, podem-se identificar, num coro de vozes aparentemente homogêneo, as partes que a constituem. Voltaremos a esse ponto mais adiante.
O conceito de polifonia, surgido na música, foi aplicado, mais tarde, à literatura por Mikhail Bakhtin, principalmente em se tratando dos romances de Dostoiévski.
Para Bakhtin (2002, p. 04),
Dostoiévski não cria escravos mudos, mas pessoas livres, capazes de colocar-se lado a lado com seu criador, de discordar dele e até rebelar-se contra ele. A multiplicidade de vozes e consciências independentes e imiscíveis e a autêntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoiévski. Não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, à luz da consciência una do autor, se desenvolve em seus romances; é precisamente a multiplicidade de consciências equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade. (Itálicos do autor).
Por vozes plenivalentes entendem-se aquelas que são
plenas de valor, que mantêm com as outras vozes do discurso uma relação de absoluta igualdade como participantes do grande diálogo” [E por equipolentes, as vozes e consciências] que participam do diálogo com as outras vozes em pé de absoluta igualdade; não se objetificam, isto é, não perdem o seu SER enquanto vozes e consciências autônomas (Bezerra apud Bakhtin, 2002, p. 04).
As vozes múltiplas as quais Bakhtin se refere estão em oposição à voz única, monológica, do autor onisciente e onipresente. Assim, o que caracterizaria a polifonia seria, então, a posição do autor como regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico.
Já em relação à polifonia teatral, trago, mais uma vez, a contribuição de Maletta (2005), que diz que o teatro é, em si, uma arte expressa por múltiplas linguagens, cujo discurso é constituído por diversos outros discursos delas provenientes. Ou seja, este seria, sem dúvida, um discurso polifônico.
Por último, esse autor traz para sua reflexão Barthes (1964, p. 50), que se refere ao teatro como uma “verdadeira polifonia informacional”. Ele aponta que o teatro seria uma máquina cibernética emissora de diversas mensagens simultâneas, algumas das quais permanecem – como, por exemplo, o cenário – enquanto outras mudam constantemente – a palavra, as imagens, os gestos.
Muito bem, dadas essas definições e características da polifonia, retomaremos a segunda questão: “de que maneira ela pode ser notada em As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras?”. Analisaremos essa pergunta juntamente com alguns dados desse espetáculo, estreado, em 2010, no Galpão Cine Horto de Belo Horizonte, sob direção de Ione de Medeiros.
Em suma, trata-se de um trabalho imagético, de criação coletiva − em que agem múltiplas vozes e discursos −, livremente inspirado na obra O Jardim das Cerejeiras (1904), de Anton Tchekhov, cujo tema gira em torno dos conflitos sociais que marcaram a Rússia do final do século XIX, confrontados com os problemas recentes de muitas metrópoles mundiais, principalmente brasileiras: violência, pobreza, poluição, etc. A partir do dialogismo entre elementos plásticos, visuais e sonoros, e entre atores e espectadores, o espetáculo aborda também, de maneira subliminar, momentos históricos desencadeados a partir desses conflitos, como a revolução russa de 1917.
O eixo central da encenação multimediana é um labirinto transparente (fig. 3) que simbolicamente representa um espaço de difícil saída e abriga o Minotauro, monstro híbrido e devorador que se alimenta de suas vítimas. As diversas paredes feitas de telas finas, além de servirem à projeção de imagens e vídeos, permitem a visibilidade das cenas externas e internas. Os atores são vistos à distância, esfumaçados, como que cobertos por uma neblina. Ademais, esse labirinto/cenário desloca, cenicamente, a relação dos atores com a plateia, e em relação a ela mesma, pois, para acompanhar as evoluções cênicas, as ações das figuras dramáticas e algumas das projeções, os espectadores precisam caminhar pelos corredores. Assim, assumem vozes ativas diante do que é mostrado, podendo selecionar o que mais lhes convém, conforme os seus múltiplos pontos de vista, inclusive participando, de maneira performativa, da composição estética da montagem, ao assistirem e serem assistidos, tanto pelos outros espectadores quanto pelos atores e técnicos do espetáculo. Dentro do espaço não há cadeiras ou assentos, por isso, os espectadores podem ficar de pé, se sentarem no chão ou até mesmo se deitarem (fig. 4), visto que há uma cena que ocorre no alto do cenário, em passarelas, espécies de hanamichi − “Caminho das Flores” − do teatro Kabuki japonês, dispostas sobre o labirinto, que trazem Gueixas que flutuam sobre eles.
Antes de entrarem no labirinto e se depararem com os Minotauros, figuras síntese da morte que se alastra por todos os lados, nós, o público, passamos por uma espécie de sala ritual, em que devemos tirar os sapatos. Aliás, a morte nos é colocada a todo momento pela encenação: morrem as cerejeiras em flor; morrem, violentamente, adultos e crianças; morrem a natureza e as cidades.
Labirinto do MinotauroPlateia no interior do labirinto
Figs 3 e 4. Labirinto do Minotauro com hanamichi ao centro (parte alta) e plateia no interior do labirinto. Fotos de Guto Muniz e Marco Aurélio Prates, respectivamente. Fonte: Acervo do grupo.
O espetáculo não possui nenhum texto pronunciado pelos atores. Contudo, além das músicas, ouvem-se gritos, choros, implosões, passos e ruídos provocados pelo atrito entre diferentes objetos cênicos manipulados pelos atores, como facões. Em seu roteiro, que é dividido em três cenas, somente em momentos muito específicos, como a entrada de um boneco que representa Liubov, é notada a presença da voz tchekhoviana.
A primeira cena é intitulada “Uma viagem no tempo”: é o momento da entrada ritualística dos espectadores no labirinto e do corte das cerejeiras pelos Minotauros. Lá dentro, perdidos ou conscientes dos seus lugares, os espectadores se tornam “performativesvoices” (vozes performativas), espécies de “Teseus” que tecem as difíceis linhas diretivas da encenação. Confrontados com um cortejo fúnebre de Carpideiras, podem emprestar suas vozes para a composição de um grande coro de lamentações, que, por sua vez, é colocado em um diálogo empírico com o Antigo Testamento.
Os corpos e vozes dos atores duplicam e espelham, sistematicamente, as figuras cênicas dos Minotauros e das Carpideiras. Em todas as direções do labirinto, que é ampliado com o espelhamento, os espectadores, perdidos, são colocados diante de uma profusão de discursos − imagens, formas, cores e sons − que ocorrem de maneiras simultâneas, superpõem-se e não se anulam. Isso exige deles disposição para acompanhar o espetáculo, pois, uma carpideira que é vista aqui, também é vista acolá; um mesmo vídeo que é projetado de um lado do labirinto, é percebido na direção contrária; e, por fim, um mesmo som que o público ouve avançando de trás de suas costas é escutado desde a sua fronte.
Já a cena II é “O enigma do labirinto”. Como encontrar a saída em meio à multiplicidade de caminhos? Aqui, o público se depara com Liubov, bonecos brancos de manipulação direta (fig. 5), manipulados por dois atores vestidos de preto, mas que não escondem suas mãos e rostos, escancarando a teatralidade do jogo duplo do contato entre animadores e objeto animado. Liubov, personagem aristocrata de O Jardim das Cerejeiras, de Tchekhov, mesmo utilizando o Fio de Ariadne, perde-se em um labirinto de emoções e se vê obrigada a lutar com o Minotauro. Em um duelo de facões, muito próximo ao Maculelê brasileiro, Liubov/Ariadne derruba o mito e muda o curso de sua própria história. Mais uma vez, os espectadores são colocados diante de uma simultaneidade e duplicidade imagético-visual, dado que toda a Cena II ocorre em dois pontos distintos do labirinto.
Liubov e o Fio de AriadneGueixas japonesas
Figs. 5 e 6. Liubov e o Fio de Ariadne e Gueixas japonesas. Fotos de Marco Aurélio Prates. Fonte: Acervo do grupo.
Por último, a Cena III: “No jardim das cerejeiras”. A transição entre a segunda e a terceira cena se dá com a passagem por um trecho central do labirinto que se encontrava interditado. Por meio de um portal de tecido, espaço liminar, a plateia adentra num mundo ainda desconhecido, adquirindo novas experiências sensoriais. Conduzidos por ruídos quase ensurdecedores de sinos de trens, os espectadores contemplarão um pé de cerejeiras brancas em flor. Descalços, pisoteando plásticos bolhas, como se amassassem uvas, mais uma vez participam da encenação, produzindo pequenos ruídos que remetem à chuva que rega o pequeno cerejal de Liubov. Além disso, paralelamente, são bombardeados por vídeos com cenas de implosões de prédios, que aludem à falência das metrópoles e reportam, poeticamente, aos estrondos de uma tempestade. Para fechar essa última cena, ocorre a entrada de Gueixas japonesas (fig. 6), que, segundo Ione, no programa do espetáculo, é um apelo estético contra a barbárie do mundo materialista. Ao som de uma interessante colagem musical, com temas orientais e do leste europeu, as Gueixas mascaradas, que surgem de todos os lados, desfilam lentamente pelos corredores do labirinto, rumando ao hanamichi localizado no alto do cenário.
Considerações finais
No Breve Histórico apresentado inicialmente observei a formação artística dos fundadores do G.O.M., cujas trajetórias constituem vozes fundamentais na construção da linguagem do grupo, assim como dos seus espetáculos. Somadas ao coro de discursos constituidores da cena multimediana e à linguagem multimídia com a qual o grupo trabalha, o Grupo Oficcina Multimédia constitui-se, como apontado por Maletta, como um grupo polifônico. Logo, conclui-se, a partir das questões apresentadas, que As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras também se caracteriza como um espetáculo polifônico. E essa característica pode ser estendida ao Bê-a-bá Brasil, da mesma forma que o hibridismo pode ser encontrado em ambos os trabalhos.
É importante observar que apesar de Maletta dizer que o teatro é uma arte polifônica por natureza, a polifonia só ocorre no teatro se se contar, desde o princípio dos processos criativos, com a presença de todos os discursos provenientes das múltiplas dimensões artísticas do fenômeno teatral. Isso quer dizer que nem todo espetáculo teatral é polifônico, pois algumas estéticas teatrais não contemplam em seus processos os diálogos necessários para se criar a polifonia.
Além do mais, faz-se mister notar a necessidade de separar, para melhor compreensão, as camadas e estruturas dos variados elementos que constituem a polifonia e o hibridismo de um espetáculo. Assim, um discurso não deve omitir o outro, uma voz não pode silenciar a outra e uma linguagem artística não se obriga a suplantar a seguinte. Além disso, a proposta polifônica do Multimédia, que claramente é notada nas duas encenações neste artigo analisadas, permite que as monofonias dialoguem, resguardem as suas individualidades e especificidades e que sejam colocadas lado a lado, constituindo vozes plenivalentes.
Quanto ao hibridismo e à mestiçagem em Bê-a-bá Brasil, percebemos o interesse de Ione de Medeiros em representar as culturas nacionais a partir de referências às nossas artes visuais (Abaporu e Parangolé), nossa literatura (Oswald de Andrade), nossa música (samba, ópera e um suposto rap indígena), nossos ritmos, etc., que se encontram em diálogo constante com formas artísticas internacionais, como com a pintura A Última Ceia, de Leonardo da Vinci − aludida por meio de uma imagem poética mestiça, na qual é apresentado um índio vestido com uma camisa da seleção brasileira de futebol. Esse espetáculo celebra também as múltiplas trocas de hábitos, crenças e imaginários ocorridas entre diferentes povos (como os europeus, indígenas e africanos) que se encontraram em solo brasileiro, conformando um país com um tipo de miscigenação étnico-cultural bastante peculiar.
Por último, é relevante considerar o lugar dos espectadores nos espetáculos do Multimédia. Por não possuir uma linguagem teatral pautada no drama, o público precisa sair de sua zona de conforto, assumindo vozes ativas diante do que é mostrado e, em alguns casos, como na obra inspirada em O Jardim das Cerejeiras, de Tchekhov, participar e colaborar na criação da estética teatral.
Referências bibliográficas
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BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, l964.
CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas: Estratégias para Entrar e Sair da Modernidade. 4. ed. 4. reimpr. SP: EDUSP, 2008.
GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. Trad. Rosa Freire d’Aguiar – SP: Companhia das Letras, 2001.
MALETTA, Ernani de Castro. A Formação do Ator para uma Atuação Polifônica: princípios e práticas. (Tese de Doutorado). Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. BH: Faculdade de Educação da UFMG, 2005.
MEDEIROS, Ione de. Grupo Oficcina Multimédia: 30 anos de integração das artes no teatro. BH: I.T. Medeiros, 2007.
SADIE, Stanley. The new Grove Dictionary of Music and Musicians. London: Macmillan Publishers Limited, 2001.
DVDs, Programas e Vídeos
AS ÚLTIMAS Flores do Jardim das Cerejeiras (DVD e Programa). Pesquisa de Campo do autor. BH: Grupo Oficcina Multimédia, 30 e 31 de maio de 2013.
BÊ-A-BÁ Brasil (Programa e Vídeo). Pesquisa de Campo do autor. BH: Grupo Oficcina Multimédia, 30 e 31 de maio de 2013.
[1] “(…) music in more than one part, and the style in which all or several of the musical parts move to some extent independently. Polyphonos (‘many-voiced’) and polyphonia occur in ancient Greek without any connotations of musical technique. (…) forms of the adjective came into use in modern languages, designating both non-musical phenomena such as birdcalls, human speech and multiple echoes, and musical phenomena such as instrumental range and tonal variety, as well as the various tunes playable on an automatic musical device”.