Tabule: a medida certa entre o cômico, o dramático e a crítica sócio-político-cultural

Tabule
Junior Lopes em Tabule – Foto de Valdete Sousa

“Tabule (em árabe: تبولة [tab·’bu·leh]) é um prato libanês de salada, freqüentemente degustado como um aperitivo. É basicamente feito de triguilho (trigo para quibe), tomate, cebola, salsa, hortelã e outras ervas, com suco de limão, pimenta e vários temperos. No Líbano, onde surgiu, é consumido por cima de folhas de alface. (…) É bastante popular  no Brasil”. (Do wikipedia).

“Tabule” é também um delicioso espetáculo de Porto Velho, montado pelo ator Júnior Lopes, professor do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, que os locais, mas também os internacionais, têm o prazer de degustar, de desfrutar, de se deliciar.

Apresentado no dia 07 de junho de 2015, dentro da”Mostra Tapiri de Breves Cenas e Monólogos”, organizado pelo “O Imaginário – de Porto Velho” e coordenado competentemente por Chicão Santos e Zaine Diniz, com a importante contribuição dos demais membros do grupo, “Tabule” é a medida certa entre o cômico, o dramático e a crítica sócio-político-cultural.

Justeza é o termo mais sensato para expressar o que Júnior Lopes consegue como ator, dramaturgo e encenador de tal trabalho. Este excelente artista viaja pelos desertos e oásis da sua imaginação distribuindo à conta-gotas o riso, o grotesco, o drama, a ironia e a sátira. A comédia de Tabule, o “camelo-chefe” da encenação, é de muito bom gosto: em nenhum momento vulgariza a arte e muito menos constrange o espectador. Muito pelo contrário: ela faz rir das situações humilhantes e degradantes pelas quais passam as pobres e desvalorizadas mulheres de certas culturas árabes machistas e retrógradas. É um efeito inverso do riso pelo riso, pois propicia à plateia a reflexão necessária para não se imbecilizar com os próprios soluços.

As gargalhadas forram verdemente o tabuleiro para a entrada do drama. Quem não se comove com as histórias de uma mulher que foi estuprada, aos nove anos, por um beduíno? (É abominável imaginar um homem adulto e cruel fazer uma criança virgem e pura deglutir o seu quibe). Qual a mulher (e que homem em sã consciência) não lamenta a expulsão de uma jovem libanesa do seu doce lar por motivos torpes e sem fundamento (a não ser o religioso machista, radical e ultrapassado)? Como não se emocionar com uma libanesa que é obrigada a atravessar o sofrível deserto dançando, ininterruptamente, sobre a corcova de um camelo? Nem uma gota de água é oferecida à pobre alma, que por pouco sobrevive para começar uma nova e árdua caminhada em país estrangeiro, cuja nova língua a faz esquecer a própria memória. Enfim, dentre outras primorosas cenas, o drama e a comédia vai e vem, numa via de mão dupla que faz o público colar nas poltronas.

A crítica social, política e cultural está explícita e descaradamente “cuspida” em nossas caras embasbacadas. Ela também não é gratuita. Não é panfletária e não pretende, em momento algum, a meu ver, desvalorizar as culturas de outrens. Ao passo que Júnior Lopes se aproxima, com profundidade, do mundo árabe, também se “aprochega” do universo machista brasileiro. As burcas que as nossas mulheres são obrigadas a usar tapam os olhos da sociedade para a má remuneração do feminino. Escondem os cabelos da subjugação impositiva à falocracia. Amarram-nas ao fogão, à geladeira, à maquina de lavar e à tripla jornada de trabalho.

Enfim, “Tabule” é um espetáculo terrorista que explode os nossos corações, diafragmas e pulmões e faz descortinar a poeira das indiferenças em relação às mulheres, sejam elas libanesas, tunisianas, egípcias, árabes e/ou brasileiras.

Justo, muito justo, justíssimo!

Luciano Oliveira

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