Cartas pra vocês, Dulce Gil e Eliana Marcolino.

Porto Velho, 05 de maio de 2016.

 

 

Caras Eliana Marcolino e Dulce Gil, saudações.

 

É com muito prazer que lhes escrevo para relatar minha emoção em ler o livro “Cartas pra elas: uma história de vida”.

 

Porém, antes, gostaria de me apresentar a você, Dulce.

 

Meu nome é Luciano Oliveira e sou irmão de Carlos Oliveira, esposo de Eliana. Logo, esta é a minha cunhada querida, da qual tenho muito orgulho. Isto pelo fato d’ela, mulher negra e pobre de um pequeno distrito do interior de Minas Gerais, ser a primeira pós-doutora da família. E não só por causa de tão grande e merecido mérito, mas também por ela ser uma mulher, mãe, esposa e amiga incrível, tanto no sentido humano quanto no âmbito sensível e espiritual.

 

Como vocês e meu irmão, a minha história também é de luta e superação. Nasci em uma família pobre, de pai e mãe pouco alfabetizados. Porém, de grande sabedoria humana e de amor sobrenatural para criar com dignidade e respeito todos os nove filhos, sendo oito homens e uma única mulher. Tenho muito que agradecê-los! Mesmo sendo o caçula, fui o primeiro a terminar a graduação, em Teatro, e serei o primeiro a terminar o doutorado, também nesta área de conhecimento. Por tal motivo, por estar finalizando a minha tese, demorei tanto a ler esse excelente e emocionante livro. Estudar longe da família, em outra cidade, sendo pobre e imaturo intelectual e emocionalmente, não foi muito fácil. Passei por muitas privações, inclusive alimentares. As saudades de todos eram imensas. Mesmo agora, já sendo professor universitário em Rondônia, no Norte do Brasil, e fazendo doutorado no Sul do Brasil, com pesquisa no Sudeste, ainda preciso superar muitas adversidades, principalmente emocionais e de saúde. Estou longe da família há dezesseis anos. Por isso, perdi, e venho perdendo, muitas histórias e acontecimentos, como o crescimento do meu sobrinho Lorenzo, filho de Eliana, que vi apenas uma vez, quando era bebezinho. Enfim, não me alongarei mais nesta narrativa, pois não é o foco da minha carta.

 

Voltemos ao livro. Inicialmente, por desconhecer os verdadeiros fatos narrados por vocês, mesmo sabendo que Eliana ajudava uma amiga que vivia no exterior (segundo minha amada mãe uma mulher que morava no Paraguai), achei, em termos literários, tudo muito trágico e exagerado para uma personagem fictícia. Como pode tantas desgraças na vida de uma cubana que nasceu em uma família que se estruturou financeiramente em terras brasilis? “Não, não é possível, literariamente, que uma personagem sofra tanto assim!” Por que será que as escritoras estão a abordando dessa maneira? “Não basta de tanta tristeza no mundo? Deve ter um motivo pra isso”. Questionamentos estes que me incentivaram a continuar a leitura. E quão emocionante foi descobrir a verdade! Chorei muito durante a madrugada em que li a primeira carta da amiga Ana. Tive dificuldades de dormir, pois não parava de pensar no sofrimento da Maria cubana, mas que também é brasileira e venezuelana. E de tantas famílias como a dela espalhadas pelo Brasil afora, por todo o continente sul-americano, enfim, pelo mundo inteiro. Espelhei-me nesses acontecimentos e fui arremessado na memória familiar. Não gosto de lembrar das tristezas e das agruras do passado. Ademais, dói muito pensar em pessoas de bem passando por tais dificuldades e privações. Na realidade, ninguém deve sofrer isso, pois temos riquezas demais na Terra para alimentar e oferecer uma vida digna a todos os seres humanos, não importando a cor de pele, o gênero, a religião, a opção sexual, o local onde vivem, a língua que falam, etc.

 

Realmente, queridas amigas – permita-me chamá-la assim, Dulce, porque a considero, bem como as suas filhas e ao seu esposo, parte da nossa família -, “Cartas pra elas” é uma grande história de vida. O livro toca em questões muito sensíveis da condição humana, dentre elas a da fome, a da violência contra a mulher, a do HIV, a dos encarcerados, a dos esquecidos e abandonados pelos setores públicos, a do sofrimento das crianças, a da imigração, a do tráfico de pessoas, enfim. Gostaria muitíssimo de parabenizá-las pela iniciativa de reunir cartas tão bonitas e poderosas em um livro e de deixá-las para o futuro. Também me encantaria de convidá-las a lançarem essa obra em Porto Velho, cidade em que moro atualmente. Não sei, neste momento, como ajudá-las a fazer o lançamento aqui. Mas prometo-lhes pensar e agir com carinho para que possamos, seja com o apoio da Universidade Federal de Rondônia ou com a ajuda de outra instituição, trazê-las pra cá, com o fito de compartilhar com os rondonienses tão surpreendentes histórias.

 

Para finalizar, deixo o meu carinho, amor e abraços na tentativa de acalentar todos os corações sofridos.

 

Luciano Oliveira

 

 

 

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Um comentário em “Cartas pra vocês, Dulce Gil e Eliana Marcolino.

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  1. Querido amigo Luciano Oliveira suas palavras acalentam meu inquieto coração. Agradeço pelo carinho. Iremos fazer o lançamento de “Cartas pra Elas” em Porto Velho sim! vamos nos planejar para este belo evento acontecer na Universidade. Quero compartilhar com os leitores a alegria das dimensões que essas letrinhas estão alcançando. A amiga Maria está conseguindo restabelecer seus laços de amizade aqui no Brasil, outras pessoas estão se encorajando e escrevendo cartas, contando as suas histórias de luta e superação.
    Reitero aqui o respeito e carinho que tenho por você.
    Ana.

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