Os Malefícios do Tabaco – Grupo Oficcina Multimédia

Os Malefícios do Tabaco
Os Malefícios do Tabaco – Foto de Guto Muniz

Os Malefícios do Tabaco, ou Os Males do Tabaco, conforme algumas traduções, é um pequeno e profundo monólogo escrito pelo magistral dramaturgo russo Anton Tchekhov, em 1902.

São muitas as encenações e leituras dramáticas dessa peça ao redor do mundo. Inclusive montagens com bonecos já foram feitas. Uma das leituras foi realizada no último dia 26 de junho, no auditório do Memorial Minas Gerais Vale, no Circuito Cultural Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

O sempre surpreendente Grupo Oficcina Multimédia (G.O.M), coordenado e dirigido pela encenadora Ione de Medeiros, ficou a cargo desta empreitada, ocorrida dentro do projeto Leitura Rara, com curadoria de Anderson Aníbal.

Os desavisados achavam se tratar de uma mera leitura, como as muitas que se assistem e se ouvem por aí. Contudo, não foi o que ocorreu, pois o G.O.M é detentor de uma caixinha mágica, capaz das mais criativas invenções.

Já na entrada do auditório fomos recebidos por belas músicas, possivelmente escolhidas a dedo pela diretora Ione de Medeiros. Em seguida, instalados confortavelmente no espaço, vídeos de balés russos foram docemente apresentados à plateia, “abrindo as cortinas” para o início da leitura. Dois atores (Jonnatha Horta e Henrique Mourão) revezavam-se na voz do complexo e engraçado personagem Nioukhine. As rubricas (ou didascálias), foram lidas pelo ator Escandar Alcici Curi. Competentemente dirigidos por Ione, eles arrancaram gargalhadas do público, principalmente pelo fato de terem memorizado algumas passagens do texto. Instalados em um cenário clean (limpo, não o contrário de sujo, mas pouco cheio), o que é raro nas montagens do Multimédia, os atores dividiam suas atenções com engraçadíssimos vídeos projetados ao fundo. Desenhos simples, quase garatujas, feitos a mão pela diretora, foram animados no estúdio caseiro do grupo e brindaram os presentes com lágrimas, sorrisos, reclamações, dúvidas, paixões e rabugices do complexo personagem tchekoviano.

Enfim, encerrada a excelente e divertida leitura, os bailarinos russos voltam em vídeo para fechar as cortinas de mais um espetáculo.

O Oficcina Multimédia é assim: junta, numa mesma fração de espaço-tempo, o teatro, a música, o vídeo, a animação e a dança para criar sentimentos diversos e presentear o público.

Luciano Oliveira

– Diretor, ator e professor de teatro –

As últimas Flores do Jardim das Cerejeiras – Grupo Oficcina Multimédia

Uau, foi de tirar o fôlego o lindo e emocionante espetáculo “As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras”, do Grupo Oficcina Multimédia, de Belo Horizonte!

Ontem (05 de maio de 2012), eu, um grupo de amigos artistas e parentes fomos assistir, no Galpão Cine Horto,  a esse surpreendente espetáculo. Além de ser fã do grupo e de sua diretora Ione de Medeiros, eu tinha uma motivo muito particular para assistir à esse trabalho: “As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras” constitui um dos objetos de estudo do meu projeto de Doutorado.

Já na sala de entrada, que antecede o local de encenação, fomos surpreendidos por um espaço liminar do espetáculo: espécie de cômodo de espera ritualístico, em que deveríamos retirar os nossos tênis e sapatos, que nos conduziu ao cenário/labirinto do poderoso e assustador Minotauro. Porém, antes da entrada no espaço de acontecimento teatral, alguns avisos importantes foram dados pela equipe de produção. Dentre eles: “se você é claustrofóbico ou possui alguma doença cardíaca crônica, sugerimos que não assista ao espetáculo que logo começará!”. Os nossos corações foram a mil, contudo, sobrevivemos, afim de contarmos essa breve e emocionante história.

“As Últimas Flores do Jardim das Cerejeiras” é um espetáculo com fortes traços pós-dramáticos baseado na obra “O jardim das Cerejeiras”, do dramaturgo russo Anton Tchekov. O seu mote principal gira em torno dos conflitos sociais que marcaram a Rússia do final do século XIX. A pós-dramaticidade desse espetáculo deve-se, principalmente, ao deslocamento da relação dos atores com a platéia – que se encontra encerrada num cenário/labirinto e deve percorrer o espaço para acompanhar as ações cênicas -, à ausência de diálogos, à não-linearidade da narrativa, a simultaneidade e duplicidade de cenas e à utilização de uma multiplicidade de linguagens artísticas (vídeos, projeções, teatro de animação, música, dança, performance e artes plásticas), concomitantemente ao evento teatral, que extrapola o drama.

São vários os momentos que os espectadores presenciam ao longo de 50 minutos. Primeiramente, um grupo de carpideiras lamenta a morte de uma criança. Cena forte e impactante que desloca, num ritmo propositadamente repetitivo e alongado, o olhar dos espectadores. Em seguida, os Minotauros, símbolos de morte e de destruição, devoram suas vítimas  e espreitam, com seus olhos furiosos e suas mãos cortantes de facões, o público que os cercam. Mais adiante, homens e mulheres, como o Teseu de Ariadne, são lançados numa multiplicidade de encruzilhadas e de caminhos em busca dos próximos fios do espetáculo: projeções, fumaças, vídeos e/ou ainda sonoridades. Aliás, além do encontro com imagens dinâmicas, esse espetáculo proporciona ao público um grande choque de sensações. Num dos momentos mais primorosos da encenação o público dirige-se, espontaneamente, ao centro do labirinto, e com seus pés descalços produzem estouros de plásticos bolhas que, poeticamente, aludem ao som de gotas de chuva que regam e dão vida às cerejeiras. Finalmente, um grupo de gueixas desloca-se, sensual e misteriosamente, pelo labirinto. Como num passe de mágica elas surgem, com suas máscaras subjetivas, dançando e flutuando sobre os espectadores. Escadas constituem os fios que as conduzem pelos cantos superiores do cenário. Mais uma vez, o público é deslocado do seu conforto, sendo obrigado a olhar para os céus para acompanhar o desenrolar dos novelos. Este apelo estético, a introdução de gueixas num universo político-cultural russo, que poderia ser encarado como um anacronismo, “responde a uma proposta de humanização contra a barbárie de um mundo materialista e se instala como uma nova exigência para os tempos modernos” (citação retirada do programa do espetáculo).

Para encerrar, gostaria de deixar uma pequena sugestão ao grupo: para uma melhor apreciação desse belo espetáculo, talvez fosse melhor reduzir de 50 para 30 (ou ainda 20) o número de espectadores. Dessa forma teríamos um pouco mais de conforto e não perderíamos sequer nenhuma nuance desse magnífico trabalho.

Luciano Oliveira

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