19 ________ Distâncias: dezeNoveDias, diA 19, 19 h

Como funciona a plataforma virtual enquanto ferramenta de trocas de experiências artísticas em momento de isolamento social? De que maneira um processo pedagógico de dezenove dias, com apresentações de dezenove web-performances no dia 19 de junho de 2020 (sexta-feira, dia do Cinema Brasileiro, Dia Internacional para Eliminação da Violência Sexual em Conflito e Dia Nacional do Luto), às 19 h (horário de Porto Velho), pode aproximar as distâncias criativas e fazer os web-espectadores esquecerem por alguns minutos as angústias criadas pela pandemia de COVID-19 no Brasil e no mundo?

19Distâncias, evento web-performativo do projeto “Fórum Performance-arte Norte”, competentemente coordenado pelo professor Luiz Lerro, do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), e produzido por Andressa Batista e Betânia Avelar, é  uma ação do Paky’Op (Laboratório de Pesquisa em Teatro e Transculturalidade), grupo de pesquisa acadêmica também coordenado por esse professor, que contou com o apoio do Departamento de Artes (DArtes) da UNIR. Ocorrido no Google Meet, um software que conecta salas de reunião ou espaço virtual a videochamadas, a ação, inédita em Rondônia, quiçá no Brasil, aproximou web-performers e professores-artistas de diferentes cidades do país (Porto Velho, Vilhena, Brasília, Ouro Preto, Belo Horizonte, Rio Branco e Belém) à 101 web-espectadores de diferentes regiões do Brasil (Sul, Sudeste, Norte e Nordeste), bem como do exterior (Portugal).

Enquanto espaço virtual, o Google Meet propiciou aos participantes o que Jorge Dubatti, importante filósofo teatral argentino, chama de Experiencia Tecnovivencial. Ou seja, pensando nesse ambiente de mediação tecnológica, experiências artísticas e relacionais entre web-artistas e web-espectadores. Nesse sentido, 19Distâncias contou com apresentações (e não representações!) de 19 web-performances-tecnovivenciais. E como toda tecnologia nos oferece ganhos e perdas, bem como problemas e soluções (ainda mais em se tratando da região Norte do Brasil, onde o sinal de internet é ainda precário), o web-evento obteve, no sentido artístico-pedagógico, um grande êxito.            

No dia anterior ao web-evento, no “18Distâncias”, portanto, ocorreu um ensaio técnico/ensaio geral em que se definiu a sequência de apresentações, bem como se fez uma análise estético-poética das web-performances ensaiadas. Algumas dificuldades técnicas foram identificadas, principalmente em relação à variação de frequência do sinal de internet. Tal variação fez com que algumas imagens transmitidas chegassem com atraso em relação ao som, ou que essas imagens perdessem qualidade (pixealizando-se), que certas entradas (ao vivo) de web-performers atrasassem dentro da plataforma (isso comprometeu o fluxo da sequência de apresentações), etc. Mas, a despeito desses pequenos problemas, o ensaio transcorreu muito bem e deixou a todos os participantes esperançosos de um ótimo trabalho no dia seguinte. Agora, antes de entrar na crítica propriamente dita do evento, segue uma observação fundamental e de grande valor profissional: um ensaio técnico é muito importante para a observação de como as diferentes partes dos elementos do produto artístico ensaiado, que até então estavam isoladas, funcionam quando colocadas juntas num mesmo espaço-tempo da criação. Isso quer dizer, amados alunos e artistas envolvidos, o que é ensaiado no último dia que antecede a apresentação é para ser apresentado tal qual foi ensaiado. Grandes mudanças produzem enormes incertezas. E estas induzem ao erro, principalmente quando vários dos envolvidos no projeto têm pouca, ou até mesmo nenhuma experiência artística anterior. Obviamente que pequenas mudanças podem ser necessárias, principalmente em detalhes técnicos que foram apontados pelo coordenador e pelos demais como sendo problemáticos.  Agora, mudança radical na estrutura da web-performance – alterando, inclusive, a sua narrativa textual, visual e/ou sonora -, é de matar de infarto qualquer artista que preza pelo mínimo de organização. Feita essa pequena advertência, passemos à alguns depoimentos críticos ao décimo nono dia do intrigante projeto 19Distâncias.

A professora Jussara Trindade, também do Curso de Teatro da UNIR, deu o seguinte depoimento por e-mail:

Eu gostei muito de “19Distâncias”! Foi bom demais ver como o entusiasmo do professor Luiz Lerro contagiou tantos estudantes-artistas de Teatro de Porto Velho, e um público de quase uma centena de pessoas que participaram até o final desta magnífica experiência cênica. Performances diversas, divertidas, tristes, surpreendentes, críticas, inteligentes. Algumas apresentando um alto grau de refinamento técnico; outras mais singelas, quase toscas. Algumas, inacabadas. Todas, porém, indistintamente, compartilhando uma enorme vontade de “dizer algo” por meio do teatro!

Creio que “19Distâncias” inaugurou uma nova forma de fazer teatro nestes tempos de interatividade tecnológica. Uma forma que se coloca, acredito, para além das “tecnologias da informação e da comunicação” apesar de serem, estas, as suas ferramentas óbvias. Uma forma tão curiosa, tão “real” embora “virtual”, que o público pode inclusive competir com o/a performer em sua presença cênica… ou até mesmo tentar sabotar a apresentação!

Já Walterlina Brasil, Diretora do Núcleo de Ciências Humanas (NCH) da UNIR e figura sempre presente nas produções do DArtes, seja como espectadora seja como artista, perguntada no WhatsApp se havia gostado das web-performances de 19Distâncias, escreveu o seguinte:

Em parte. Parte boa: a surpresa, algumas perspectivas de espaço a partir do uso do celular. Em alguns momentos: cansativo, óbvio ou confuso. Quem assiste nem sempre quer ser assustado, pode querer ser envolvido…

Nesse dia-noite inesquecível para muitos, por diversos motivos, como nas citações anteriores elencadas, o Brasil alcançou o escandaloso e vergonhoso número de 48.954 mortes dentre 1.032.913 casos confirmados de coronavírus. A sexta-feira registrou, só no estado de Rondônia, mais 549 infecções e mais 17 mortes. Logo, aqui, os números somados chegaram a 14353 infectados com 391 óbitos. Sobre algumas dessas cifras alarmantes, o web-performer Almício Fernandes, aluno do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR e importante ator rondoniense, em seu inteligente trabalho Normose nos deu alguns detalhes, por meio de uma alucinante dinâmica rítmico-vocal e close-ups oculares esquizofrênicos. Começando pelo número 1, ou seja, pela primeira morte por infecção de coronavírus no país, ele passou pelos dados numéricos mais marcantes, intercalando essas informações com o dito “Novo Normal”. Sobre esse conceito, Maria Aparecida Rhein Schirato, professora do Insper, em entrevista dada ao site dessa instituição, disse isto:

O novo normal, na verdade, seria a proposta de um novo padrão que possa garantir nossa sobrevivência. Faço um paralelo com a experiência que tive de ter vivido uma parte da minha vida em locais com neve. Para viver em um centro urbano com essa condição climática, você tem um kit neve, composto por gorro, cachecol, luva, bota, capote e lenço de papel. Sem esse kit, você está absolutamente desprotegido e corre sérios riscos de ficar doente. Esse kit neve dá um pouco de trabalho. Nos primeiros dias, você estranha muito. A tendência é você ficar mais encolhido por causa do frio, ter um certo mal-estar ao entrar em uma loja aquecida ou ao ter que tirar as luvas ao manusear um cartão bancário. Aos poucos, você se acostuma com o kit. Não por ser agradável, mas por te dar segurança. Rapidamente, neste caso, nós, que vivemos em um país tropical, entramos em um novo normal. O que está sendo proposto, agora, é um kit Covid. Um kit de segurança. Vamos ter que andar com máscara, mais contidos, menos expansivos, como se estivéssemos no frio. Guardando certa distância, talvez com luvas e, de certa forma, nos primeiros dias, vamos achar tudo muito estranho, mas a garantia da segurança de que não vamos ficar doentes e não transmitiremos doenças fará com que assimilemos esse kit de uma forma indolor. Ou seja, entraremos em um novo padrão de normalidade. Reforçando, normalidade é o padrão que me garante sobrevivência dentro de um grupo. Logo vamos nos habituar com esse kit Covid e, certamente, sentiremos falta se não o utilizarmos.

Disponível em: <https://www.insper.edu.br/noticias/novo-normal-conceito/>. Acesso em: 21 jun. de 2020.

Questões relacionadas à essa nova normalidade, causada pelo COVID-19, perpassaram, além da web-performance de Almício Fernandes, inúmeros trabalhos apresentados em 19Distâncias. Inclusive, quatro artistas envolvidos no evento sofreram na pele, na alma e no coração, as dores físicas e psicológicas desse terrível vírus. Jamile Pereira, também aluna de Teatro da Unir e atriz da Trupe dos Conspiradores, do Teatro Ruante e da Cia Peripécias, infelizmente, nem conseguiu apresentar-se, porque estava com fortes sintomas da doença. Ela, gentilmente, e de forma emocionada, me deu um precioso depoimento, no WhatsApp, sobre essa experiência:

Ficar de fora foi difícil, pois queria muito ter participado e me esforcei pra isso. Essa doença parece que tira o que mais nos deixa feliz. Mas vai passar! Aliás, já está terminando. Ficar isolada e ainda não poder fazer o que gostamos é difícil, mas fiquei feliz em ver os resultados, me deu alegria e esperança.

Vai passar, Jamile! Vai passar! Na próxima apresentação, muitas outras virão, sua web-performance constará da programação. Fica aqui a nossa gratidão e homenagem por todo o seu esforço e comprometimento com o projeto.

Imagem 1: Entre Paredes, processo criativo de Jamile Soares.

Foto: Jamile Soares.

Ainda dentro da temática COVID-19, Ádamo Teixeira, meu companheiro de vida e das artes, discente do Curso de Teatro da Unir e ator da Trupe dos Conspiradores, apresentou sua web-performance “Travesti Covidada” ainda com traços de coronavírus em seu organismo. E eu, crítico-cronista que vos escreve, que ajudei na organização cênica dessa web-performance, também contraí o vírus. O trabalho de Ádamo Teixeira traz em seu bojo imagens relacionadas à doença: máscara, luvas, álcool gel e faca-ameaçadora-cortante. Em sua elegante sala de atendimento, a travesti cigana – ainda sem nome – prepara seus objetos sexuais para brincar com seu hipotético cliente. Web-performando a partir da recém-lançada canção Não Esqueça, interpretada pela cantora amapaense-mineira Fernanda Takai, a travesti contaminada desfila pelo espaço com seu elegante vestido branco (que foi confeccionado pelo próprio ator) e com sua maquiagem intensa, colorida e bem desenhada que, sob o efeito de luz negra, leva o web-espectador a um universo onírico (ou de pesadelo?). A apresentação, que durou apenas 3 minutos – aliás, é importante mencionar que todas as web-performances apresentadas foram curtas, variando de 1 a 5 minutos -, é simples e tem uma narrativa bastante teatral, seguindo a seguinte sequência de ações: sob o efeito de luz negra levantar do sofá cor de rosa-vermelho; sentar-se de perna aberta e mostrar o que há por baixo (hum!); exibir as luvas brilhantes; levantar e aproximar o rosto da lâmpada de luz negra (realçando a maquiagem); acender as luzes vermelhas do cômodo; pegar o álcool gel e limpar o frasco de lubrificante sexual, higienizar o consolo de borracha e chupá-lo, e, por último, ameaçar o seu cliente com a faca-ameaçadora-cortante. Porém, antes de supostamente cortá-lo, devido à sua consciência social, ela limpa o objeto com o caro e difícil de encontrar álcool em gel 70. A web-performance encerra-se juntamente com os últimos versos da canção Não Esqueça, de Nico Nicolayewski:

Não esqueça que a vida é pra viver
Lembre sem medo de esquecer
Não espere saber como vai ser
Saiba que nunca vai saber

Não esqueça que é tudo ilusão
Não esqueça de lavar as mãos

Disponível em: <https://www.letras.mus.br/fernanda-takai/nao-esqueca/>. Acesso em: 21 jun. de 2020.

Imagens 2 a 13: Travesti Covidada, de Ádamo Teixeira.

Fotos: Luciano Oliveira

Prints: Raíssa Dourado

Sobre Travesti Covidada, a já citada Walterlina Brasil, escreveu o seguinte:

A parte escura com o efeito da pintura facial foi inquietante. Me deu aflição a relação álcool em gel e o falo. Se não tivesse o nome e não tivesse acendido a luz eu não o reconheceria. (…) [Quanto ao] falo, há variações mais modernas… 😇.

Já Júnior Lopes, professor do Curso de Teatro da UNIR, e um dos web-performers a se apresentar em 19Distâncias, disse, por telefone, que a forma intensamente colorida do trabalho do Ádamo se aproxima do que os colombianos chamam de “Estética Narcos”. Sobre essa estética, há vários artigos disponíveis (tanto em português quanto em espanhol) na internet.

Outra web-performance relacionada ao universo do coronavírus é Ponte, de Teoginis Nascimento, também aluna do Curso de Teatro da UNIR e atriz do Grupo Teatral Sentidos. O delicado trabalho dessa web-performer, que talvez tenha sido o de maior duração, constou da colocação de várias cruzes coloridas no espaço performático, enquanto cantava belamente cantigas de cunho religioso, moral e humano. Tais cruzes eram de tecidos e, provavelmente, foram confeccionadas por ela mesma, que ainda é costureira e figurinista. Enquanto cantarolava letras melancólicas – mais ou menos assim: “O mundo tá muito doente! (…) Você me trata mal e eu te trato bem. (…) As coisas são como salada russa e esfihas de carne” -, Teoginis, que perdeu um ente querido recentemente, assassinado de forma bárbara no interior de Rondônia, dispunha suavemente pelo espaço fileiras de cruzes, provocando nos web-espectadores memórias e sensações da violência da morte.

Imagem 14: Ponte, de Téo Nascimento.

Foto: Téo Nascimento

Por sua vez, Taiane Sales, ex-aluna do Curso de Teatro da UNIR, atriz e performer de vários projetos artísticos de Porto Velho, com a web-performance Sagrada Vida, resgatou, de forma lírico-poética, imagens de mulheres-fantasmas como, por exemplo, a Mulher de Branco, Mulher do Algodão, Noiva do Banheiro e Loira do Banheiro. Mas engana-se quem acha que se trata de um trabalho ingênuo, superficial e clichê. Muito pelo contrário, trata-se de um fazer artístico extremamente plástico, com imagens sonoro-visuais fortíssimas, cujas locações (o quintal da sua casa) e paisagens auditivas (cricris de grilos) foram escolhidas por ela com muito zelo. Arrepiou-me a frase “- Você foi escolhido para compartilhar desse momento!”, pois, afinal, somos sobreviventes da guerra do coronavírus que pôs fim à vida do seu amado pai, o Sr. Nélio da Costa Nunes. Mais uma vez, minhas condolências!

Imagens 15 a 17: Sagrada Vida, de Taiane Sales.

Prints: Maísa Mayara

Outra web-performer que abordou o universo do coronavírus foi Paulina Descry, funcionária do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia e estudante do Curso de Ciências Jurídicas da Faculdade Católica de Rondônia. Diferentemente do que apresentou no ensaio técnico/ensaio geral – e isso é um problema, ainda mais em se tratando de uma não-profissional das artes cênicas -, o seu trabalho começou com um pequeno texto verbal, mais especificamente sobre o COVID-19. No ensaio geral, ela não havia pronunciado nenhuma palavra. O jogo apresentado foi apenas imagético. Durante sua apresentação no dia 19, após o texto inicial, Paulina foi mostrando aos web-espectadores pequenas placas de papel, escritas à mão, e lendo as informações nelas constantes: “subnotificação, falta de testes, ‘I daí?’, censura, etc”. Ela fazia uma clara crítica à equivocada política de enfrentamento do presidente Jair Bolsonaro ao novo vírus. De repente, um silêncio inesperado! Logo, entra, nesse espaço sem palavras, o web-performer Júnior Lopes, com seu trabalho O Olho Mágico. Num primeiro momento, o web-espectador pode até ter pensado que se tratava de um jogo ensaiado de simultaneidade, porque o encontro de imagens foi bastante interessante e preciso (fica a sugestão para a próxima apresentação do evento!). Contudo, Júnior Lopes, ademais de ser professor de Teatro da UNIR, é um ator experiente. Em pouco tempo sua imagem dominou o espaço virtual, quase que silenciando por completo a imagem-som da jovem aprendiz de teatro. Então, retomando o que eu escrevi anteriormente, reforço a importância de manter a estrutura do trabalho que foi mostrado no ensaio técnico/ensaio geral para que não ocorra problemas como esse.

Mais uma web-performance que estava tratando sobre a temática coronavírus, foi Transolamento, de Gilmar Soares, aluno do Curso de Teatro da UNIR e criador da importante performance Pelo [Lourinho]. Esta ganhou prêmio em um festival de teatro de Minas Gerais e foi exibida no PerforArtNet, um festival virtual de performances da Colômbia. Pelo que vi no ensaio geral, Transolamento é uma web-performance descolada, alegre e divertida, em que uma transexual, em isolamento social, cria uma boate em casa e dança uma Música Disco (Disco Music) em frente ao seu computador. Num dado momento da sua diversão, ela coloca uma máscara branca sobre o rosto e desenha, com batom, uma boca vermelho. Em seguida, retira do soutien um par de camisinhas e, com elas, faz um par de luvas para proteger as mãos. Por último, com plástico filme, cria um equipamento de proteção para a cabeça, uma espécie de máscara de acrílico. Infelizmente, por problemas de conexão com a internet, a apresentação de Gilmar Soares durou apenas alguns segundos. Por isso, publico, a seguir, uma grande sequência de prints de tela feitos durante o ensaio técnico.

Imagens 18 a 38: Transolamento, de Gilmar Soares.

Outros três trabalhos apresentados abordaram assuntos ligados à pandemia que assola o planeta. São eles: Sufocando, de Stéphanie Matos, Streaptease Pandêmica no Breu, de Amanara Brandão, e Cala Boca, de Janaína Valente.

Sufocando, de Stéphanie Matos, aluna concluinte do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR e atriz da Trupe dos Conspiradores e da Cia Peripécias, pareceu-me, por um lado, uma tentativa de crítica ao consumismo exacerbado de produtos alimentícios em tempos de pandemia. Isso porque a web-performer trouxe para os web-espectadores uma partitura de ação que consistia em colocar, uma por vez, e ao som de batidas de funk, várias sacolas de plástico de supermercado na cabeça, até o processo total de sufocamento. É importante mencionar que as sacolas são de uma rede de supermercado muito famosa, e cara, do estado de Rondônia. Por outro lado, as batidas de funk poderiam ser associadas ao sufocamento (mercadológico) que uma forma de expressão cultural que é consumida massivamente pode acarretar ao mundo da arte, em especial à música, em suas diferentes linguagens. Por fim, um ponto a ser refletido por Stéphanie Matos é sobre o acabamento, em termos estéticos, da sua web-performance.

Imagem 39: Sufocando, de Stéphanie Matos.

Foto: Walterlina Brasil.

Streaptease Pandêmica no Breu, de Amanara Brandão, também discente do Curso de Teatro da Unir e atriz do Imaginário-RO, faz uma crítica bem-humorada ao uso, ideológico, da máscara neste período complexo de pandemia de coronavírus. A máscara apresentada seria comunista, por ser vermelha, e indecorosa (aliás, coisa muito comum entre os comunistas!), pois é retirada do rosto de maneira muito sexy; quiçá de modo pornográfico, porque deixam à mostra (nus) os lábios carnudos e suculentos da web-performer. Para “lacrar”, Amanara Brandão saca de sua língua, também molhada e sem vergonha, uma tampinha de garrafa de refrigerante (ou de cerveja?) com o seguinte dizer: “- Fora Bolsonaro”.

Imagens 40 a 45: A indecorosa Streaptease Pandêmica no Breu, de Amanara Brandão.

Prints: Ana Clara Martins

A última web-performance que toca questões referentes ao coronavírus (e eu estou em dúvida dessa assertiva!) é Cala Boca, de Janaína Valente, caloura do Curso de Teatro da UNIR e produtora da Trupe dos Conspiradores. O seu trabalho é uma live de celular, tipo de influencer que não tem muito o que fazer e precisa gerar conteúdo para os seus seguidores, em que a web-performer mostra o seu rosto com uma máscara branca enquanto caminha pela casa. De rebarba, os seguidores têm lampejos visuais do seu imóvel e da rua que mora. Ao final da exibição, Janaína Valente profere a frase: “- Cala a boca!”. Seria essa uma crítica à truculência de Jair Bolsonaro ou eu estou com pensamentos demasiadamente comunistas? Por fim, importa observar, e isto não vale como justificativa para a falta de acabamento estético do trabalho, que essa web-performer estava sem luz e sem sinal de wi-fi em sua residência, desde o dia anterior, pois um caminhão baú arrebentou cabos de energia e de internet da rua em que mora. Inclusive, por esse motivo, ela nem pode participar do ensaio técnico/ensaio geral. Uma sugestão: por que não acrescentar esse ocorrido (que é hilário!) como informação visual ao trabalho?

Imagens 46 a 54: Cala boca, de Janaína Valente.

Prints: Raíssa Dourado.

Outra temática recorrente nas web-performances apresentadas em 19Distâncias foi a violência contra a mulher. Andressa Silva, com E daí?, Selma Pavanelli, com (Des)Velando e Valdete Sousa, com Ensaios sobre Ausências responsabilizaram-se, assim se poderia dizer, por apresentar esse importante assunto no evento.

E daí? , de Andressa Silva, bailarina, professora de ballet e atriz da Beradera Companhia de Teatro, de Porto Velho, é uma fortíssima web-performance baseada na experiência da artista com a dança. Andressa apresentou uma figura – uma mulher – nervosa, com medo, ameaçada e agredida psicológica e fisicamente por seu companheiro. E daí? tem como linguagem predominante uma dança expressiva em que a web-performer performativa belamente pelo espaço da ação. Com a ajuda do seu companheiro (e é muito bom poder contar com o auxílio de outrens nos nossos trabalhos!), a artista conseguiu produzir, além das imagens frontais – características comuns nas lives -, imagens de cima. Isso propiciou aos web-espectadores outra experiência de olhar e chegou a ser até uma surpresa agradável para quem assistia. Agora, um ponto negativo, e isso, nesse caso específico pode ser considerado um paradoxo, foi a mudança total de direção que a artista deu em relação ao trabalho que apresentou no ensaio técnico/ensaio geral. Já escrevi anteriormente, por duas vezes até, que alterações abruptas em um processo artístico, de um dia pro outro, e sem o devido conhecimento do coordenador/diretor, pode ser muito prejudicial, haja vista a grande quantidade de trabalhos que foram apresentados no evento.

Imagens 55 a 70: E daí?, de Andressa Silva.

Prints: Raíssa Dourado

(Des)Velando, de Selma Pavanelli, atriz e palhaça do Teatro Ruante, com música de Adailtom Alves (professor do Curso de Teatro e membro fundador do Ruante) e de Alexandre Falcão (também docente desse curso), transita, esteticamente, pelas artes visuais e pelo cinema (em preto e branco, com música ao vivo). Aliás, essa poderia ser uma nova categoria conceitual para caracterizar outras web-performances de 19Distâncias. A saber: Ensaios sobre Ausências, de Valdete Sousa, Pele que não Habito, de Rafael Brito, Café Preto, de Maycon Moura, e Canto Quieto, de Andrea Melo.

Voltemos ao (Des)Velando. O significado de desvelar, segundo o Dicio (Dicionário Online de Português), é: “Colocar em exposição, removendo o véu que revestia: desvelar uma obra de arte”. Então, me pergunto: o que foi desvelado por Selma Pavanelli ao longo do seu trabalho? Ora, a resposta não é tão simples assim, pois alguns estudos de recepção apontam que os sentidos da obra de arte são dados, em primeiro momento, por quem frui, ou seja, pelo fruidor (Umberto Eco – Obra Aberta). Desta feita, enquanto crítico-fruidor, me permitirei uma aproximação imagética para (Des)Velando. Esta seria: “Como água para Vinho” (parafraseando o excelente filme mexicano Como Água para Chocolate, de 1992), em que a água seria o Adailtom Alves, o chocolate a Selma Pavanelli, e a pimenta o Alexandre Falcão. A estética de (Des)Velando poderia ainda ser aproximada a de muitos filmes (ou até teatro) de animação que assisti. Nesse caso, uma animação-política, para aludir ao universo do teatro-político recorrente nos espetáculos de rua dos ruantes. A crítica sócio-política mais marcante nesse trabalho é a violência contra a mulher, cujos números aumentaram consideravelmente, em Rondônia, neste período de isolamento social que estamos vivendo. As gotas de vinho que caem, pari passu, na taça, e, depois, nos recortes de jornais, representariam o sangue de dezenas de mulheres que são agredidas e/ou assassinadas diariamente em nosso estado. Finalmente, um ponto a ser observado pelos envolvidos em (Des)Velando é sobre a necessidade de uma melhor equalização sonora do trabalho, pois há uma disparidade entre o volume da guitarra e o canto do professor Adailtom. Quase não se ouve a letra da música, tanto é que não me arrisquei redigir ao menos uma estrofe do que foi cantado.

Imagens 71 a 74: (Des)Velando, de Selma Pavanelli.

Fotos: Bruna Pavanelli.

Imagens 75 a 79: (Des)Velando, de Selma Pavanelli.

Prints: Gabriel Corvalin

Ensaios sobre Ausências, de Valdete Sousa, atriz e diretora do Grupo de Teatro Wankabuki, de Vilhena, apostou altíssimo na visualidade e na poesia da imagem. E a aposta foi ganha! Essa web-performance, além de todo o lirismo audiovisual, traz aos web-espectadores uma denúncia da violência contra a mulher. Utilizando-se de um interessante jogo de espelhos, em que uma poça de água reflete o rosto sofrido e repleto de medo de uma mulher, o trabalho evolui sob (ou sobre) uma camada de trilha sonora em que se ouvem respirações ofegantes, lamentos e o gotejar de um líquido que chora sobre o outro. Mas nem tudo são flores quando se depende de internet em Rondônia. Um sinal fraco prejudicou a conclusão da belíssima web-performance que estava sendo apresentada.

Imagens 80 a 83: Ensaios sobre Ausências, de Valdete Sousa.

Prints: Valdete Sousa

Pele que não Habito, de Rafael Brito, aluno do Curso de Teatro da UNIR e sonoplasta da Trupe dos Conspiradores, é outra web-performance que poderia ser colocada dentro de uma linguagem performática que une artes visuais e cinema. Tratar-se-ia de um filme de terror, no qual um monstro de boca de proporções enormes cria medo nos web-espectadores. Essa figura monstruosa, toda vestida de preto (o que produz uma imagem belíssima!), lembrou-me de alguns filmes de terror que já assisti como, por exemplo, [REC],  filme espanhol dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, lançado em 2007. Já a trilha sonora me fez recordar de filmes de terror de bonecas, a exemplo de Annabelle e a Boneca do Mal. Sem sombra de dúvidas, Pele que não Habito é um dos melhores trabalhos que vi de Rafael Brito enquanto aluno do Curso de Teatro. Nessa web-performance ele soube, em termos estético-poéticos, unir imagem, som e presença cênica em frente ao olho amedrontador da câmera que nos fita pela janela.

Imagens 84 a 87: Pele que não Habito, de Rafael Brito.

Prints: Rafael Brito

Imagens de tiroteios dos dois volumes de Kill Bill, de Quentin Tarantino, é que vieram à minha cabeça ao assistir à forte web-performance Café Preto, de Maycon Moura, aprendiz de teatro e membro do Teatro Ruante. Utilizando uma caneca de cor preta como revólver, o artista encarava ameaçadoramente os web-espectadores, disparando contra eles. Enquanto projéteis imaginários eram disparados contra nós, atrás da figura do web-performer era projetado um vídeo, muito bom por sinal, no qual via-se escorrendo um líquido preto. O trabalho desse artista é forte, masculino e constitui-se também como uma potente e necessária crítica à violência contra os negros. Além de presente nas ações, esta pode ser notada ainda nas cores predominantes do seu trabalho: branca, preta e vermelha; sendo que essas duas últimas conotariam o sangue negro que escorre pelos planos das desigualdades sociais, racismo e intolerância. Terminando suas ações performáticas, a caneca deixa de ser revólver (função terciária do objeto) e retoma a sua função primária (caneca para tomar café) (Luciano F. Oliveira. Eid Ribeiro e o Armatrux em Processo: o objeto flutuante entre a poética e a estética teatral). É justamente essa última parte que eu não acho interessante, pois ela me parece enfraquecer o forte sentido que é dado quando o objeto em nível terciário é usado para matar e silenciar.

Imagens 88 a 91: Café Preto, de Maycon Moura.

Prints: Maycon Moura

Andrea Melo, dançarina contemporânea que criou Canto Quieto, é daquelas artistas que queremos ter em nossas equipes para montagem de qualquer trabalho. Mulher madura e mãe, artisticamente, ela é também uma explosão de emoções técnico-estético-poéticas. Em seis anos de Porto Velho, ainda não vi nenhum trabalho frágil dela. Por esse motivo, foi mais do que justo, e necessário, que a belíssima web-performance Canto Quieto abrisse a série de apresentações de 19Distâncias. Necessário porque espera-se muito dela, e ela sempre corresponde às expectativas. Necessário porque ela tem presença e sabe muito bem conduzir o olhar do espectador. Necessário porque, em cena, e não somente nela, ela é linda e produz imagens corporais sempre muito potentes. Mesmo que, cenicamente, ela não objetive a beleza, a estética do belo a persegue. Canto Quieto é assim, pois é marcante, é simples-complexo, com movimentos harmonicamente criados. Estes produzem sombras que lembram o Expressionismo Alemão, que trazem à memória as distorções de Nosferatu e do Gabinete do Dr. Caligari. E me recordam também a minha finada Vó Olga, balançando-se em sua cadeira e, de pernas sempre cruzadas, fazendo seu chinelo de borracha bater, ritmicamente, no chão e no calcanhar: “chilept, chilept, chilept”. E ela, minha avó, quietinha em seu canto, lá no interior de Minas Gerais (em João Monlevade), e nós ouvindo: “chilept, chilept, chilept”.

Imagens 92 a 95: Canto Quieto, Andrea Melo.

Fotos: Lua Clara

Peito, Sagrado Peito, de Jaqueline Luchesi, aluna do Curso de Teatro da UNIR, mas que está morando em Brasília, nos coloca frente a frente com mais uma mulher poderosa de 19Distâncias. Aliás, a força do sexo feminino é temática recorrente nos trabalhos dessa artista, que é assumidamente feminista. Mãe de Ulisses, que já tem 3 anos, Jaque (como carinhosamente a chamamos) mostrou para os web-espectadores a força dos peitos, seja como um dos símbolos do poder e da sensualidade da mulher, seja como importante órgão para a amamentação dos filhos. Ou seja, ela faz uma homenagem ao seu amado “bebê” e também à todas as mulheres e crianças. E mais, faz uma análise inteligente e delicada sobre a excessiva sexualização dos seios que, para ela, são sagrados, e à objetificação do corpo feminino. Desenvolvendo ações sensuais, tendo como pano de fundo uma música infantil, quase uma canção de ninar, a web-performer nomeia seu corpo de corpo sem juízo, sem freios e que se constitui como uma mensagem de tolerância de gênero e um pedido (ou uma ordem?) de respeito, nem que seja à base de porrada: “pow”! Para finalizar, importa mencionar a belíssima e competente maquiagem (facial e corporal) feita por Jaque Luchesi para uma figura feminina que coloca no cerne da sua performance o hierático corpo da mulher. Vivas às mulheres!

Imagens 96 a 99: Peito, Sagrado Peito, de Jaqueline Luchesi.

Foto 96: Jéssica Gotlib. Prints 97 e 98: Raíssa Dourado. Print 99: Jaque Luquesi.

O professor e ator Júnior Lopes, com o seu Olho Mágico, envereda, pelo menos para mim, por um caminho que ainda não o tinha visto traçar em Porto Velho: a seriedade do drama (ou, se não quisermos colocar os gêneros em uma caixinha, por algo que não seja a comédia). Reconhecido pelo excelente trabalho cômico realizado em Tabule, bem como pelo trabalho consistente de atuação em Cassandra, BR-trans-amazônica, Júnior Lopes vai dar braçadas em outros mares cênicos, mas sem deixar, ao menos por completo, a comicidade de lado. Sabemos que o olho mágico de uma porta nos permite enxergar o que há do outro lado sem sermos vistos. Assim, evitamos visitas indesejadas. Contudo, o dispositivo de “vigilância” apresentado por esse web-performer em 19Distâncias o coloca em risco extremo, haja vista mais de cem pessoas o “vigiar” ao mesmo tempo, como uma espécie de Grande Irmão (Big Brother),  de George Orwell, em que “o Grande Irmão zela por ti” ou “o Grande Irmão está te observando”. Sendo zelado ou ameaçado pelos web-espectadores, o ator desenrola suas ações performáticas confinado, literalmente, em sua casa. Mas ele não se intimida e tenta ver o que tem por trás daquele olho que o vê. A comicidade no seu trabalho “sério” é sentida na divertida transmissão radiofônica de uma novela (brasileira, mexicana ou árabe?). Todavia, essa rádio-novela, bem como o passeio pelo seu “quartinho vagabundo”, é interrompida, por diversas vezes, por problemas de sintonia da “rádio-internet”.

Imagens 100 a 105: Olho Mágico, de Júnior Lopes.

Prints: Raíssa Dourado e Edilson Schultz

Cláudio Zarco, ex-aluno do Curso de Teatro da UNIR e mestrando do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, com sua web-performance HTML – BLUE – HTML – PINK traz para o centro do seu trabalho as artes visuais, mais especificamente as cores e a argila. Por que não a pintura? “Azul e rosa sobre argila marrom e fundo branco” talvez seja uma boa tradução para o título por ele proposto e até mesmo uma síntese estética do seu trabalho. Plasticidade na forma e qualidade no movimento são os pontos fortes da sua web-performance, que brinca com a dicotomia limpeza-sujidade, tendo o corpo como tela de pintura. O pronto fraco do trabalho é a música que, por problemas técnicos, foi difícil de ouvir.

Imagens 106 a 108: HTML – BLUE – HTML – PINK, de Cláudio Zarco.

Foto 106: João Pedro Zuccolotto; Prints 107 e 108: Raíssa Dourado.

Rafael Barros, jovem artista portovelhense – que não é mais promessa no campo da performance, com Tudo que Cai faz lembrar alguns trabalhos marcantes dos primórdios da performance dos Estados Unidos na década de 1960 como, por exemplo, o Voom Portraits: Brad Pitt, de Robert Wilson, no qual o ator Brad Pitt, ainda moço, aparece em um vídeo tomando banho seminu, apenas calçando meias brancas, vestindo uma ceroula branca e portando um revólver em uma das mãos. O web-performer Rafael Barros, por sua vez, ao se molhar no chuveiro da sua casa, investe na expressividade do seu interessante corpo magro, em que se vêem as costelas saltadas, e dos cabelos compridos e molhados que cobrem o seu rosto, como um véu negro encaracolado. Enquanto se banha, Rafael Barros bebe algo negro em uma taça (creio que seja Coca-Cola) e a água que cai lava seu corpo, bem como enche a taça em sua mão. Então, os líquidos formam uma mistura homogênea que escorrega corpo a fora, seguindo rumo ao Rio Madeira e alcançando o longínquo Oceano Atlântico.

Imagem 109: Tudo que cai, de Rafael Barros.

Foto: Ana Clara Martins.

Feitas algumas observações sobre cada uma das 19 web-performances apresentadas, passo a alguns corolários.

O primeiro diz respeito a como um web-performer pode “ficar fora de cena” em um evento on-line. Se fosse num teatro, os artistas esconder-se-iam, em silêncio, nas coxias, concentrando-se para entrarem em cena no momento adequado. Então, quais seriam os modos mais eficazes para que os artistas de 19Distâncias pudessem aguardar os web-espectadores chegarem ao evento, tomarem lugar e se fazerem presentes para cada trabalho a ser apresentado? Pensem sobre isso.

O segundo trata-se de uma constatação. Face às dezenas de eventos artísticos que estão ocorrendo durante a pandemia de coronavírus, observo que muitos não foram pensados, tecnicamente, para serem apresentados em plataformas digitais como o Google Meet e Zoom. Este não é o caso de 19Distâncias, mesmo que os web-performers tenham enfrentado problemas técnicos como velocidade de internet e acesso a bons equipamentos tecnológicos. Assim, não basta apenas que exibamos os vídeos e filmagens de tais eventos para que eles sejam considerados como virtuais. É preciso, antes de qualquer coisa, pensar nessas plataformas digitais como espaços específicos que necessitam de linguagens adaptadas a esses espaços. E não somente de linguagens, mas também de equipamentos e de profissionais capacitados para essa nova realidade que estamos experimentando. Assim, nós das artes cênicas (teatro, dança, performance, circo e ópera), temos muito a aprender com especialistas da publicidade e propaganda, do cinema, do vídeo e da televisão.

Por último, nota-se que, mesmo tendo um caráter pedagógico, 19Distâncias apresenta e consolida a web-performance no estado de Rondônia, configurando-se como um evento de sucesso. O futuro é o aprimoramento e o aprofundamento dessa linguagem, e de outras correlatas, para que muitas web-circulações ao vivo aconteçam e conectem a capital rondoniense ao mundo. Vida longa ao “Fórum Performance-arte Norte”!

Vídeo do evento: https://youtu.be/j1fLCpwvq80

Texto e fotografia: Dennis Weber

Eu tenho me perguntado ultimamente quem são meus inimigos e se de fato os tenho. É uma questão que permeou praticamente 2018 todo e com certeza levarei para o ano seguinte esse questionamento. Isso porque, como todos sabem, vivemos uma guerra digital, em que as máscaras e velhos preconceitos voltaram a florescer em solo brasileiro.

Dois mil e dezoito foi um ano de perdas, simbólicas, materiais, sentimentais. Perdemos amigos e familiares que achávamos serem mais críticos, imunes aos discursos inflamados e … cheios de ódio (mesmo que esse tenha tentado ser justificado). Nunca pensei que iria chorar por causa de política, mas chorei. Ver o discurso de ódio vencendo e assumindo o poder da nação mexeu comigo, com os meus, e com os outros.

Acho que a pontada maior, a que apertou mais, a que me jogou no fosso do medo e presentificou através da arte a realidade que vivemos, foi a cena em que a personagem-boneco “Senhora Democrácia”, do espetáculo “Inimigos do Povo”, morreu e foi sepultada pelos demais personagens. Ali, materializado, estava o meu sentimento de perda após as eleições presidenciais de 2018.

Dirigido pelo professor do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia, Luciano Oliveira, o espetáculo com mais de uma hora de duração e adaptado da peça “Um Inimigo do Povo” de Henrik Ibsen, é um verdadeiro grito de protesto contra a hipocrisia da sociedade em que vivemos. Onde quase sempre o “certo” é substituído pelo “fácil” e a honestidade é achacada pelos “homens de bem”.

A Trupe dos Conspiradores, grupo formado essencialmente por professores e acadêmicos do curso de teatro da Unir, levou para o palco do Teatro Guaporé, em Porto Velho (RO), entre os meses de novembro e dezembro, uma miscelânea criativa de propostas cênicas, jogos teatrais, danças, projeções audiovisuais, tudo isso costurado de forma habilidosa pelo diretor e pelos próprios alunos que sugeriram muitas das cenas apresentadas. Como esquecer da dança com guarda-chuvas? Como não se chocar com o cachorro-homem com a bandeira do Brasil na face urinando em cima de um Dr. Stockmann humilhado, desacreditado por toda uma cidade que, pelo ganho econômico provindo de um balneário contaminado por vírus, fungos, bactérias deixou de acreditar no discurso especializado da ciência? Como não associar todos aqueles judeus projetados ao fundo, à toda a sorte de desvalidos, de gente à margem das políticas e benesses que deveriam ser promovidas pelo Estado com o dinheiro dos inúmeros impostos abusivos cobrados desde antes de nascermos?

“Inimigos” nasceu e se desenvolveu durante mais de um ano, acompanhando todo esse movimento rumo a um Estado autoritário, um Estado de ignorância generalizada, de discursos odiosos. “Inimigos” juntou gente que vive o teatro, que vasculha todas as camadas e subcamadas do texto-drama-país em busca de uma análise sincera sensível de uma nação que caminha para a barbárie, de gente que não entende o discurso-arte, que prefere se basear em fatos alternativos, que renega a ditadura brasileira (como pudemos ver ao final de uma das noites de apresentação).

É possível associar toda essa guerra virtual, essa desconstrução da verdade (dos fatos), essa inflamação de ódio aos diferentes e não hegemônicos, que vivemos durante o período eleitoral ao contexto apresentado por “Inimigos do Povo”. A peça, escrita em 1882, é tão atual que a cada página é inegável traçar paralelos com fatos da contemporaneidade em que vemos prevalecer a roubalheira generalizada. Melhor ainda foi a montagem realizada pela Trupe dos Conspiradores, em que, junto ao texto original, foram adicionados vários elementos atuais, criando esse jogo entre passado-presente-futuro (ainda me pego pensando na morte da Democrácia).

Enfim, 2018 me mostrou que é melhor manter certas pessoas-pensamentos sob vigilância, algumas até distantes. E ver, acompanhar o processo de criação de Inimigos, ajudar a montar o cenário, me mostrou que o teatro é um dos meus locais de fala-pensamento, que no teatro encontro os afetos necessários para aguentar esta realidade que é mais ficcional que a própria ficção. Espero que no próximo ano a Trupe possa realizar mais temporadas deste espetáculo tão necessário para entender a hipocrisia humana.

Trupe dos Conspiradores e Funcer apresentam:

 

II Mostra de Encenações do Dartes/UNIR (MEDU II)

 

Programação:

24/11/2018: 20 h – Abertura da mostra com a apresentação do espetáculo Inimigos do Povo, da Trupe dos Conspiradores, Rondônia;
25/11/2018: 19 h – Reapresentação de Inimigos do Povo;
26/11/2018: 19 h – Apresentação de Tabule, da Cia Peripécias de Teatro, Rondônia.

Retirada de ingressos no local, 1 h antes do início dos espetáculos.


O projeto Inimigos do Povo – Trupe dos Conspiradores foi contemplado pelo PRÊMIO DE TEATRO JANGO RODRIGUES – 2017 e tem o apoio do Governo do Estado de Rondônia e da SEJUCEL (Superintendência Estadual da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer).A Trupe dos Conspiradores conta também com o apoio da FUNCER (Fundação Cultural do Estado de Rondônia), da PROCEA (Pró-reitoria de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis da UNIR), do Departamento de Artes da UNIR, da Banda Tuer Lapin, da Sol Maior Escola de Música, da Panificadora Kamilly, da Arts Gesso e da Dydyo Refrigerantes.


Sinopses dos espetáculos:

Inimigos do Povo: Espetáculo teatral contemporâneo (que mistura teatro, teatro de formas animadas, dança, música, vídeos e projeções) livremente inspirado na obra “Um Inimigo do Povo” (1882), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. O processo de montagem desse espetáculo iniciou-se dentro do Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e hoje é uma ação do Projeto de Extensão Trupe dos Conspiradores: pesquisa e prática em encenação e em atuação. Nosso espetáculo traça um paralelo entre as temáticas do texto de Ibsen com acontecimentos político-sociais do Brasil atual. Por meio de Inimigos do Povo conspiramos contra a corrupção, homofobia, hipocrisia, unanimidade, racismo, machismo, partidarismo, intolerância religiosa e de gênero, ditadura, mau-caratismo, fome, reforma trabalhista, reforma da previdência e precarização da saúde e da educação.

Classificação indicativa: 14 anos

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Tabule: O espetáculo teatral Tabule, protagonizado pelo ator Júnior Lopes, tem como ponto de partida a cultura árabe e a sociedade pós 11 de setembro para dar ênfase ao cruzamento de culturas entre o pensamento “oriente” versus “ocidente”. A montagem é uma tragicomédia que apresenta, de maneira irreverente, situações propositalmente exageradas e estereotipadas sobre as percepções de cada cultura.

Classificação indicativa: 12 anos

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