Textos do Fundo do Baú de um Fundo Fundo.

Ontem a noite, quando organizava meu material acadêmico, encontrei dois pequenos textos da época em que eu era estudante do curso de Artes Cênicas da UFOP. Isso, lá pelos idos do princípio do século XXI (2000-2001). Apesar da ingenuidade do pensamento, até que os textos me pareceram interessantes. Por isso irei publicá-los, sem vergonha alguma, inclusive com os erros ortográficos e de pontuação. Em cada época temos a maturidade que devemos ter! Isso parece óbvio, mas não é. Hoje, às 32 primaveras, olho para trás e vejo com clareza os diferentes momentos da minha vida: sejam profissionais, amorosos, artísticos e/ou familiares. É um privilégio amadurecer amando e tendo grandes perspectivas profissionais.

Bem, o primeiro texto chama-se “O Belo Adormecido”. Foi escrito para a disciplina Expressão Corporal I, ministrada por Mônica Ribeiro, no 1º Período do Curso de Direção Teatral. Se não me engano, ela pediu que respondêssemos à uma pergunta mais ou menos assim: “Como é o seu corpo e como você o percebe?”.

Vamos à resposta:

O BELO ADORMECIDO

         O nosso corpo é uma casa onde queremos morar. Uma casa habitada por fantasmas e inquilinos que conhecemos desde crianças.

         – “Ah, o rim é o bago de feijão! E tem também o pulmão, o coração e o fígado que é bão. O baço, o pâncreas, o estômago, o intestino e o cérebro também são. Tem também os sexos que… talvez serão”.

         Todos os processos: involuntários ou voluntários, e a escadaria colunada, formam uma imensa mansão, a qual está fora dos nossos domínios. Uma mansão repleta de preguiçosos que levam uma vida sedentária, comendo e bebendo, comendo e bebendo do bom e do ruim.

         – Vai um cigarrinho aí, senhorita Pulmão?

         – E que tal uma cervejinha gelada, hein, Sr. Figadão?

         – Manda uma salada bem verdinha aí, patrão!

         Saindo: um hambúrguer, dois Spy-colas, um litro de poluição, dois engarrafamentos, uma pitadinha de tensão, meia dúzia de angústia, depressão. Junte todos os ingredientes e leve ao multiprocessador. Ah, não se esqueça da agitação!

         Sem problemas. Logo iremos à academia e faremos alguns abdominais. No final de semana estaremos enxutos. Colocaremos aquele jeans apertadinho, uma sunga sufocante, aquele salto belíssimo! Aperta um pouco, só um pouquinho! Valerá à pena! Ficaremos sexs e elegantes.

         Na segunda-feira virá a consequência. Na segunda não! Esses acontecimentos se dão cotidianamente. E nós… pobres de nós… Achando que cuidando do físico, cuidamos do corpo, e tiramos da consciência o peso que nos atormenta: o de ver no espelho o reflexo da barriguinha, das estrias e…

         Não, chega! A partir de hoje iremos tomar consciência dos nossos corpos. Digo: do meu corpo! Meu corpo não falará pelos outros. Praticarei ciclismo, tênis, natação, golfe, capoeira, futebol, basquetebol, paraquedismo. Contudo, ao final do mês chegarão as contas: do gelol, do doutorzinho, do doutorzão!

         Meus amigos mencionaram uma tal antiginástica. Fui lá conferir. Um bando de lunáticos colocando bolinhas no cóccix, no sacro. Dizem que cura até impotência e a tal da rigidez muscular. Legal!

       Enfim, hoje estou me analisando de fora, vendo-me por dentro, tomando consciência do meu corpo, fazendo reflexologia e assistindo televisão. Mas é possível, é essencial sentir em nosso corpo quem somos, o que somos. Sejamos antes de tudo corpo. Sejamos enfim corpo. Sejamos.

_______

      O outro texto foi escrito um ano depois, em 2001. Foi uma encomenda da professora Marina Miranda, que na ocasião ministrava a disciplina Folclore. Eu já estava no 2º Período. Um pouquinho mais maduro!  Ela pediu que escrevêssemos uma autobiografia.

QUEM SOU EU?

         – Eu? Eu sou eu, pô! Um homem de uns poucos e bem vividos anos. Falo a minha idade? Não será um inconveniente? Ah, tenho 20! Tá bem: sei que estou na flor da idade e os meus hormônios me fazem um sujeito… As garotas me adoram!

         Como disse Carlos Drummond de Andrade:”Eu sou constituído de aço”. Nascido das Minas Gerais, produzido em um alto-forno e descendente de um certo francês cujo nome da cidade o homenageia: João Monlevade. Como são lindas as montanhas da minha terra: férteis e ricas em minerais! Quanta gente boa e bonita! E é dessa gente que venho. Família de nove filhos, pai, mãe, sobrinhos e primos. Esse é o nosso legado.

         Família pobre, mas lutadora. Desbravadora das dificuldades!

          Foi assim que se constituiu minha educação: de sol em sol; de madrugada, vestindo-me de gravata borboleta, paletó e abridor de garrafas. O que você achou que era? Não sou nenhum diplomata!

         Escolhi para a minha formação técnica as reações, os gases, as explosões e a insalubridade da química. Como eu gostava disso! E ainda gosto. Só que agora o meu coração tem uma nova paixão. São coisas que acontecem. Não vejo isso como traição. Foi amor à primeira vista. Ou melhor: à primeira atuação. O teatro entrou como uma tempestade, devastando minh’alma e arrancando lágrimas suaves da minha face ocular. Oh, técnica maldita! Por que me fazes sofrer assim? Por que tu não és mais simplificada? Onde se encontra tua estabilidade? Favor não interferir em minha progenitura. Quero-te pra mim! Mas, por favor, entenda minha traição!

          Assim se formou parte do meu caráter alegre, amigo, compreensivo e responsável. Contudo, às vezes, minha cabeça parece um relógio cuco: Cuco! Cuco! Cuco! Cuco! Acorda, levanta, faça isso, faça aquilo e mais aquilo. Calma! Controle-se, respire um pouco! Relaxe. Acho que preciso de uma companheira: mãe, mãezinha, cade você?

         – É, preciso mesmo!

         – Muito prazer!

                                                       Luciano Oliveira

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