A muy lamentável e cruel história de Píramo e Tisbe – Teatro Ruante

Como montar um belo e engraçadíssimo espetáculo de rua em tempo recorde? Sinceramente, como encenador, não sei responder a essa pergunta. Perguntem, por favor, aos artistas do Teatro Ruante.

Em pouco mais de dois meses (ou em pouco menos?), Adailtom Alves, Selma Pavanelli, Jamile Soares, Bruno Selleri e companhia receberam do SESC o dinheiro pela premiação no Prêmio Sesc de Incentivo às Artes Cênicas e, como corcéis negros do período elisabetano, saíram em disparada pelo árido e cálido “deserto” de Porto Velho e cruzaram exitosos a faixa de chegada da sensibilidade artística.

A muy lamentável e cruel história de Píramo e Tisbe estreou, às 19 hs, no dia 27 de setembro de 2018, na área de convivência do Sesc Esplanada, dentro da programação do mais que excelente Palco Giratório.

Ao chegar no lugar da apresentação fomos recebidos pelos belíssimos (e um pouco nervosos, dada a aceleração do coração pela estreia!) palhaços do Ruante. Escrevo belo no superlativo pela primeira impressão que causou em mim o figurino: que primor! E mais beleza e funcionalidade cênica estava guardada para o segundo momento do espetáculo. Nenhuma linha solta para dar motivos para este “crítico cruel” que vos escreve reclamar. Assim não dá, ruantes! Desse jeito não posso copiar, com a minha crítica, o feroz e amargo professor Nazareno.

E o que falar da interpretação? Como professor dessa difícil disciplina do teatro dou nota 100 para o elenco: Jamile Soares (palhaça Tuminga – que mais parece com o Pateta de Walt Disney), Bruno Selleri (palhaço Mazela) e Selma Pavanelli (palhaça Tinnimm). A nota não podia ser diferente, pois um dos objetivos do palhaço é fazer rir. E o público riu à beça com as confusões desse trio clownesco. Dentre tantas piadas ouvidas, vai entrar para a história da palhaçaria de Rondônia a baralhada de Tuminga, que confunde fio vital com fio dental. Nesse momento, a área de vivência do Sesc Esplanada vai abaixo com tantas gargalhadas da plateia. Foi difícil parar de rir por um bom tempo. Confesso que, depois disso, perdi uns três minutos de espetáculo. Jamile, você está me devendo essa!

E o que escrever sobre a encenação? Ah, professor Adailtom, com sua brilhante direção o senhor está ameaçando “tirar a minha cadeira” na Unir! Isso não se faz com um colega e amigo de profissão, professor! Como explicar –  sem metáforas – para os nossos alunos que o palhaço Magrila abandonou a cena e deu um gancho no adversário? Em apenas dois meses de ensaio, Adailtom Alves? Agora entendi o seu esgotamento físico e mental, meu amigo! Tente descansar um pouco. Deite em uma cama de plumas de ganço e goze do merecido sucesso.

E a dramaturgia de A muy lamentável e cruel história de Píramo e Tisbe? Que “confusão” gostosa foi essa que vocês fizeram nestes dias de escuridão política que vivemos? Misturar Shakespeare, Brecht, gags cômicas, improvisos e #s (hashtags) é coroar um amadurecimento dramatúrgico que o Teatro Ruante vem tendo desde “Era uma vez João e Maria… e ainda é”. Aliás, aproveito este espaço para parabenizar Adailtom Alves, mais uma vez, pelo Prêmio Funarte de Dramaturgia 2018, na categoria infantojuvenil, com o texto Pedro. 

O cenário do espetáculo, realizado por Ismael Barreto, também merece destaque e elogios. Ele cumpre muito bem suas funções na encenação. E mais: ajuda a criar a famigerada poesia cênica que encanta crianças e adultos. Penso que, com uma iluminação inventiva e potente, o onirismo de um “sonho de uma noite de verão” seria alcançado.

Não posso deixar de redigir algumas linhas para lembrar a importância sem tamanho da produtora Val Barbosa para o espetáculo, bem como para o Teatro Ruante. Parabéns pelo seu trabalho excelente!

Por fim, é importante lembrar que um espetáculo teatral nunca está completamente pronto. Sempre há algumas arestas a serem trabalhadas. O contato com o público é fundamental para a descoberta dos fios de Ariadne. E no complexo labirinto do Minotauro de A muy lamentável e cruel história de Píramo e Tisbe ainda é preciso dar um nó entre a primeira e a segunda parte desse engraçadíssimo trabalho.

Vida longa ao Ruante! Vida longa ao SESC, ao Palco Giratório e ao Prêmio Sesc de Incentivo às Artes Cênicas!

Era uma vez João e Maria… & ainda é

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Foto de Luciana Ferreira.

04 de março de 2017. Depois de um hiato teatral de três meses, e também da falta de artigos neste blog, eis que em um entardecer agradável no Parque da Cidade de Porto Velho irrompe o aconchegante espetáculo teatral “Era uma vez João e Maria… & ainda é”, do Teatro Ruante. Nesse belo espaço democrático da capital rondoniense conviveram pacificamente (e em tempos de trevas isso é admirável!) arte teatral, música gospel, rappers, skatistas, famílias, drogados, héteros, homossexuais, burgueses, brincantes, populares, trabalhadores, comunistas e fascistas.

Após esse período, em que tal grupo merecidamente também aproveitou as férias, o espetáculo, que fora estreado em dezembro do ano passado, passou por algumas notáveis mudanças: o figurino e o cenário estão mais belos; alguns objetos de cena foram aprimorados e o/a personagem “Coisa”, uma máscara popular do nordeste, ou, dependendo do uso que se faz dela em cena, um boneco habitável, está mais coloridamente vibrante. Nesse viés de mudanças, o diretor da peça, o professor Adailtom Alves, entrou na cena como ator e músico trazendo nova sonoridade e experiência para o sutil ato teatral.

Por sua vez, Selma Pavanelli, uma das fundadoras do grupo em São Paulo ao lado do marido Adailtom Alves, constitui, enquanto atriz, a espinha dorsal do divertido jogo que se vê em cena. No entanto, é assombroso observar o crescimento profissional e artístico de Bruno Selleri. Também a atuação da jovem atriz e estudante do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR Jamile Soares, que se aperfeiçoa a cada apresentação, não deixa muito a desejar em relação aos demais colegas de cena.

“Era uma vez João e Maria… & ainda é”, como aponta a sinopse do espetáculo constante no  útil material de divulgação do grupo, trata-se da “conhecida história de Hansel e Gretel, colhida pelos irmãos Grimm, e divulgada entre nós como João e Maria, [que] ganha a adaptação do Teatro Ruante pra espaços abertos. A peça conta a história de duas crianças abandonadas por seus pais na floresta, onde se deparam com A/O Coisa”.

Intriga-nos no título, porém, a expressão “& ainda é”. Qual o por quê disso? O que continua sendo em João e Maria? O que aproxima e distancia a história europeia do século XIX dos irmãos Grimm do atual momento brasileiro?

A história original de João e Maria remonta à dureza da vida na Idade Média. Por motivo da fome e da constante falta de comida, o assassinato de crianças era uma prática comum no Medievo. Nessa história os irmãos são deixados pelos pais na floresta para que morram ou sumam, porque não podem ser por eles alimentados.

Panelas vazias lá e barrigas famintas aqui. Ficção e realidade se misturam no complexo e atual vasilhame histórico do Teatro Ruante que aponta que, como na Idade Média, o maior poder de compra continua sendo das classes socialmente privilegiadas.  A manutenção do capitalismo, e consequentemente da fome, é um dos sintomas da doença do capital que segue até o nosso tempo. O/A “Coisa”, como é cantado pelos artistas ruantes, persiste em explorar a mão de obra dos pobres “João e Maria” que trabalham em troca de migalhas insuficientes para encher “seus barrigões”. Política, teatro, música e brincadeiras populares se misturam dialeticamente na encenação de Adailtom Alves para, além de nos divertir, nos fazer pensar e compartilhar sobre essas e outras questões sócio-políticas da atualidade brasileira. João, Maria, Isabela, José, Antonieta, Nazaré, Expedito, Jacinto, Joana, Ubiraci e tantos outros brasileiros batem as panelas de fome enquanto ouvimos ressoar ainda as panelas do Fora Dilma. Contudo, não se ouve nada das ricas panelas do “Coisa/Temer”. A fome persiste e gruda, enquanto a democracia voa para longe. E crianças e pensamentos continuam a serem exterminados a todo momento, espelhando-se no ocorrido da floresta dos irmãos Grimm.

Corolário: um espetáculo com temperos e aromas diversos para ser visto, ouvido, cantado e dançado no espaço da democracia por todos aqueles e aquelas que querem se emocionar enquanto desfrutam de ideias construídas artisticamente por meio de fragmentos narrativos históricos e contemporâneos à luz da tolerância e da diversidade.

Por Luciano Oliveira e Ádamo Teixeira

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