Minha participação no evento Cine Sesc – Cine Debate, do SESC Rondônia, ocorrido no dia 13/08/2020, para prosear, juntamente com Júnior Lopes e Ivan Souza, sobre os processos criativos do filme/documentário “Rondônia: um estado de delícias culinárias”.

https://www.youtube.com/watch?v=rVsKfKiUW0I&t=32s

Onde morrem os pássaros?

Esta bem que podia ser uma indagação existencialista à la Sartre. Mas não! Trata-se, antes de qualquer coisa, de uma madura montagem teatral da Cia de Artes Fiasco, de Rondônia ─ agora com sede em Ji-Paraná ─ estreada no Teatro 1 do SESC Esplanada no último sábado, 09 de novembro de 2019, numa noite de forte e ruidosa tempestade.

Com encenação cuidadosa e delicada de Fabiano Barros, esse espetáculo, cuja montagem foi contemplada pelo Prêmio Sesc de Incentivo às Artes Cênicas (2019), conta ao espectador, sem palavras, e utilizando-se de princípios estéticos do Teatro Imagem, a história de um homem solitário e deprimido, quiçá portador de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

Tal homem repete, muitas vezes, por dias a perder de vista, as mesmas ações: acordar, dar comida ao pássaro (aliás, inexistente na gaiola!), mexer no despertador que não funciona, retirar e colocar a gravata no pescoço, aguar uma planta sem vida ─ utilizando um regador sem água ─, se alimentar ─ sem ter nada no prato pra saborear ─, dar corda a um gramofone e ouvir dali um ruído sem som, datilografar em uma máquina de escrever sem papel e voltar a dormir novamente numa cadeira de balanço que não é cama. Essas ações absurdas e repetitivas, e a repetição no espetáculo da Cia Fiasco é necessária, gera ritornelos imagéticos e musicais. Aliás, a música é executada ao vivo pelo competente Rinaldo Santos, que cria as atmosferas e climas os mais complexos e psicodélicos possíveis para o desenrolar das ações cênicas. Inclusive, em dois momentos, ele balbucia uma bela e triste melodia que acentua o exílio da personagem, que aqui chamarei apenas de homem triste e solitário (sola et tristis homo). Por seu turno, os raios, os trovões, as fortes ventanias e os densos pingos d’água sobre o teto do teatro foi um ganho musical, um presente da natureza para uma já potente dramaturgia sonora.

O homo, competentemente representado por Nestor Neto, vive, por si só, em uma casa bela: retrô. Faz do passado colorido o seu presente sem pigmento; dos formosos e antigos objetos a sua melancólica companhia. A propósito, o cenário de Onde morrem os pássaros? é primoroso! Fabiano Barros preocupou-se com os mínimos detalhes de cada móvel; com a semiótica de cada objeto. Antiquário. Talvez seja esta a palavra mais oportuna para referir-se à cenografia. E, quem sabe, também à indumentária, se assim pode ser chamada.

O vazio do protagonista é atravessado por uma mulher (mulier): amante? Amiga? Parente? Empregada? Não se sabe ao certo. Contudo, pela atuação eficiente e segura de Laura Martins, nota-se que essa mulher é alguém que traz em sua bagagem a esperança. E em sua mão um manuscrito, redigido em papel vermelho, a cor da paixão. A cor do poeta Binho! Essa personagem se mete, como um fórceps, no cotidiano do depressivo. Porém, a princípio, sua presença é ignorada pelo homo que está fechado, triste e ranzinza em seu paletó empoeirado. Todavia, aos poucos a confiança é conformada, assim como se concilia a dor ao remédio. Um pouco de vida é introjetada naquele cotidiano asfixiante, sofrido. Um respiro feminino alivia a misantropia masculina. A música e a escrita, a arte (sempre ela!), se tornam presentes para acalentar aquela alma que vagava solitária pela morada.

Mas a melancholia, como uma praga medieval, captura também a mulher. E esta, sem forças, é contaminada ─ poeticamente ─ por essa maldita doença do século: a depressão. O que fazer agora? Continuar a sofrer? Se matar? Não, acordar e viver, como os deliciosos raios de sol que despontam a cada manhã de inverno.

Volta o ritornelo inicial. Porém, agora com uma nova morte-vida: a da mulier. Quem nunca se pegou perguntando acerca dos seus ritornelos semanais? Acordar, comer, ir ao banheiro, tomar banho, enfrentar o trânsito, ir pro trabalho, enfrentar o chefe, almoçar, ir ao banheiro, voltar a trabalhar, enfrentar novamente o chefe, ir pra casa, enfrentar de novo o trânsito, comer, amar, dormir, acordar novamente, ir pro trabalho, etc, etc, etc. Enfim, Onde morrem os pássaros? fala também sobre isso: a vida que passa sem se dar conta. Sobre a presença da solidão: quando uma pessoa tem alguém e continua a se sentir só. Sobre ritornelos diários. Quod mors in omnes!

Começou o Palco Giratório 2018 – RO

No feriado de 7 de setembro, sexta-feira, iniciou-se em Rondônia a edição 2018 do Palco Giratório, com o Seminário Palco Giratório 2018 – Arte como (Re) Existência.

Artistas, grupos de teatro (Trupe dos Conspiradores, Teatro Ruante, O Imaginário – RO, Wankabuki e Associação Cultural Waraji, dentre outros), professores universitários (UNIR, UFAC e UFPA), alunos, curadores e funcionários do SESC de diversas partes do país, representantes de movimentos sociais e culturais (Coletivo Mina Livre, Setorial de Teatro de Porto Velho, Pró-Cultura Rondônia e #depositaSejucel) e da sociedade civil de Rondônia – e até mesmo crianças – estiveram presentes no Teatro 1 do SESC Esplanada para participar das excelentes mesas de debates realizadas nas tardes e noites de sexta-feira e sábado.

No dia 07/09, de 15h às 16h30, a Mesa 1 – Gestão Cultural na Contemporaneidade: como gerir garantindo a arte o lugar de (Re) Existir? – abriu as sessões de debates com os convidados Daina Leyton, de São Paulo, José Manuel, do SESC Pernambuco, e Keila Barbosa, de Rondônia. A mediação ficou a cargo de Raphael Vianna, do SESC – DN.

Mais tarde, de 17h às 18h30, foi a vez da Mesa 2 – Acessibilidade Cultural: pulverizando as ações em arte, com os convidados Rita Marize, do Sesc Pernambuco, e Suzi Bianchi, do Rio de Janeiro. A mediação foi de José Manuel, do Sesc Pernambuco.

Por fim, e não menos importante, a Mesa 3 – Novos Olhares para a dança na Amazônia, fechou o ciclo de debates do primeiro dia de seminário. Dessa mesa participaram a professora Valeska Alvim, da Universidade Federal do Acre (UFAC), o professor Luiz Lerro, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) e a professora Waldete Brito, se não me engano da Universidade Federal do Pará (UFPA). No meio da numerosa plateia, que fazia uma grande festa para receber os convidados, encontravam-se alunos e integrantes do projeto Mediação Cultural – Palco Giratório 2018, que é coordenado pelo professor Júnior Lopes do Curso de Licenciatura em Teatro da UNIR.

O primeiro dia de debates foi muito proveitoso, rico e culturalmente intenso.

No sábado, no dia 08/09, entre 16h e 17h30, também no Teatro 1 do SESC, ocorreu a Mesa 4, com o tema mais que relevante e necessário “O protagonismo feminino na arte”. Para compor a mesa foram convidadas as palhaças Selma Pavanelli, de Rondônia, e Mariana Gabriel, de São Paulo, ademais da professora e bailarina Waldete Brito, do Pará. A mediação foi de Jane Schoninger, do SESC Rio Grande do Sul.

E para encerrar o Seminário Palco Giratório 2018 – Arte como (Re) Existência, aconteceu a Mesa 5 – Festivais de Teatro Independentes: Mapeando Rondônia, com a presença de Valdete Souza, de Vilhena/RO, uma das coordenadoras do Festival Amazônico de Monólogos e Breves Cenas; de Paulo Santos, de Guajará-Mirim/RO, um dos coordenadores do Festin-Açu (Festival Internacional de Teatro de Guajará-Mirim); e de Chicão Santos, de Porto Velho, um dos coordenadores do Festival Amazônia Encena na Rua. A mediação dessa mesa foi de Clarissa Franci, do Sesc Pará.

Assim como o primeiro dia de debates, o segundo também foi muito farto e profícuo. E mais: muito importante para a classe artística do Estado de Rondônia, que carece de efetivas políticas públicas nas áreas de Arte e Cultura e da representatividade feminina.

A programação artística do Palco Giratório de Rondônia começa hoje, às 17 h, na Lona do Palhaço Biribinha (Parque da Cidade), com o espetáculo de circo Magia, da Companhia Teatral Turma do Biribinha, de Alagoas.

Crédito: Foto de Eliane Viana (Agenda Porto Velho).

Haja feijoada pra tanta indigestão! Dança-teatro em Porto Velho

 

Ontem, 23 de novembro, no Teatro 1 do SESC Esplanada de Porto Velho, iniciou-se a Mostra de Danças SESC 2017.

Após três apresentações infanto-juvenis, pelas quais os pais quase sofreram um treco de tanto gritar e aplaudir, eis que “insurge” uma coisa que “destoou” completamente do que até naquele momento acontecera.

Assim perguntou uma criança sentada numa poltrona atrás da minha:

– “Papai, o que está acontecendo?”.

– “Eles estão passando mal!”, explicou ironicamente o pai.

– “Por que, papai?”.

– “Porque eles comeram muita feijoada antes da apresentação!”.

– “Entendi!”, respondeu a inquieta menina.

Os atores-dançarinos, que se vestiam tão “estranhamente” (“muitos deles com trajes árabes”, disse uma espectadora mal humorada sentada ao meu lado), e que dançavam e “teatravam” músicas ainda mais esquisitas – “dissonantes”, disse-me o professor Dr. Luiz Lerro e coordenador do Curso de Extensão Dança-Teatro -, passavam mal no palco de tanto comerem feijoada de paixão, de tanto deglutirem couve de tesão e de tanto ingerirem coca-cola (ou cachaça?) do alabão! (Esta rima pobre e sem sentido é proposital, pois não encontrei nenhuma palavra boa que rime com tesão e paixão e que expresse adequadamente o meu sentimento diante de tanta hipocrisia e ignorância!). Continuando: “estrebuchando” ali no chão, sob os olhares medievais de boa parte da plateia atônita, um grupo de pessoas completamente heterogêneo (estudantes de teatro, bailarinos, bailarinas, homens e mulheres comuns, heterossexuais, homossexuais,  jovens, idosos, etc.) entregavam-se de corpo e alma à tão misteriosa (para uma parte expressiva do público ali presente, quiçá para o público geral de Porto Velho!) Dança-Teatro.

– “O que está acontecendo agora, papai?”, pergunta novamente a criança.

– “Eles estão saindo do palco!”, responde o pai.

– “Por quê”?

– “Para tomar remédio”, finaliza la cu nar mente o pai que não tinha mais nada para passar para a sua pobre criança.

 

E assim o Temer continua no poder!

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